Empreendedor britânico diz que Partido Comunista da China combina “planejamento científico” e “governança responsiva”
David Janke, premiado pelo governo provincial, afirma que o Partido “fez muito para garantir o bem-estar do povo”
247 – O empreendedor britânico David Janke, que vive há quase duas décadas na China e se estabeleceu na província de Hainan desde 2020, afirmou que o Partido Comunista da China (PCC) sustenta um modelo de “planejamento científico” e “governança responsiva”, com foco em responder às necessidades concretas da população. “O PCC tem planejamento científico e governança responsiva — onde há uma necessidade, ele responde”, disse.
As declarações foram dadas em entrevista ao Global Times, no âmbito da série “CPC in Global Eyes”, que reúne percepções de estrangeiros sobre a trajetória histórica, as políticas e os resultados associados à liderança do Partido na modernização chinesa. Janke, fundador de uma empresa de tradução em Haikou, é também destinatário do Hainan Friendship Award, prêmio concedido pelo governo provincial a especialistas estrangeiros que contribuíram para o desenvolvimento econômico e social e para os intercâmbios internacionais em Hainan.
“Sem o PCC, a China não estaria onde está”, diz empresário
Radicado em Haikou, capital de Hainan, Janke descreveu sua convivência cotidiana com a administração local e com projetos oficiais como um caminho de aprendizado que foi além do interesse acadêmico inicial pelo idioma. Ele afirmou ter desenvolvido, ao longo dos anos, uma compreensão “mais profunda” do Partido, tanto pela vida prática quanto pelo trabalho profissional de traduzir e revisar textos de instituições chinesas.
Entre as declarações centrais da entrevista, Janke atribuiu ao PCC um papel decisivo na transformação do país e na elevação do bem-estar social. “O PCC fez muito para garantir o bem-estar do povo, para encurtar a distância social, financeira e cultural”, afirmou. Em seguida, reforçou sua avaliação de forma direta: “Eu não acho que a China estaria onde está hoje sem o PCC.”
Ao relatar o que observa no país, Janke disse valorizar a segurança e a estabilidade social, a eficiência ligada ao avanço tecnológico e a abertura crescente da China ao mundo. Para ele, compreender o Partido exige olhar para sua história, seus objetivos e o modo como a liderança se conecta ao trabalho cotidiano e a metas de longo prazo.
Da universidade na Inglaterra a uma vida na China
A trajetória de Janke com a China começou formalmente em 2007. Estudante de Estudos Chineses na Universidade de Sheffield, ele foi para a Universidade de Nanjing, na província de Jiangsu, em um programa de intercâmbio planejado inicialmente para durar um ano. A experiência, porém, mudou seus planos de forma definitiva.
Segundo ele, já naquele período era possível perceber o potencial que se abria no país. “Naquela época, em 2007, era [quase] 30 anos depois do início da reforma e abertura”, disse, ao explicar o contexto que encontrou. “Você já conseguia ver que o futuro estaria na China.”
Em vez de retornar ao Reino Unido para concluir a graduação, ele optou por finalizar seus estudos em Nanjing. Depois de formado, viveu e trabalhou em diferentes cidades chinesas, incluindo Xangai, até se fixar em Hainan em 2020. Ao longo desse percurso, afirmou ter viajado amplamente pelo território chinês e reunido experiências que o ajudaram a entender o país para além de estereótipos.
Memória histórica, missão política e o valor da paz
Um dos aspectos mais marcantes relatados por Janke foi o contato com locais ligados à memória histórica e ao turismo “revolucionário” e “patriótico”, que, segundo ele, o ajudaram a compreender a origem do sentido de missão associado ao Partido. Em Nanjing, visitou o Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing por Invasores Japoneses, descrevendo o impacto de ver uma parede com nomes das vítimas sobre uma área de sepultamento coletivo. “A parede de nomes fica no topo de um local de sepultamento em massa; isso é muito comovente”, afirmou. “Foram sacrifícios terríveis.”
A partir desse episódio, ele disse ter associado traumas nacionais e agressões estrangeiras ao processo que formou o impulso político de “salvar a nação”. “O PCC foi fundado por patriotas que já tinham tido o suficiente das injustiças, [como] os tratados desiguais entre a China e potências estrangeiras, e a agressão de outras nações, particularmente o Japão”, declarou. Em seguida, sintetizou sua leitura: “O PCC foi fundado para resgatar a China de certa forma. Eu acredito que, no fim, foi isso que ele fez — resgatou a China.”
Ainda segundo o relato, em 18 de setembro de 2025, data lembrada como o aniversário do Incidente de 18 de Setembro, Haikou acionou sirenes antiaéreas e moradores interromperam o cotidiano por alguns instantes. Na ocasião, Janke disse ter escrito um poema em chinês para expressar o quanto valoriza a paz, ressaltando a ideia de que a normalidade, em si, pode ser preciosa quando se conhece o peso da história.
Pragmatismo e reformas: a referência a Deng Xiaoping
Outro momento destacado por Janke ocorreu em Guang’an, cidade natal de Deng Xiaoping, descrito na entrevista como o principal arquiteto da política de reforma e abertura. Em agosto de 2024, ele viajou ao local para trabalhar na tradução para o inglês de um sistema local de guia turístico inteligente. A visita, segundo seu relato, reforçou a percepção de um pragmatismo associado à busca por soluções concretas.
Ao lembrar uma frase atribuída a Deng, Janke disse: “Deng disse: ‘Não importa se um gato é preto ou branco, contanto que pegue ratos.’ Ele estava focado em resolver problemas práticos com soluções práticas.” Para ele, esse espírito teria impulsionado as reformas e o avanço subsequente observado no país.
Tradução de textos oficiais e a ideia de “planejamento científico”
Em 2022, Janke abriu sua própria empresa de tradução para atender governos, empresas e outros clientes, com foco em precisão terminológica e revisão. Ele afirmou que o trabalho com textos oficiais contribuiu para que sua compreensão do Partido e de sua filosofia de governança se tornasse mais “sistemática”, passando de uma impressão inicial a uma visão estruturada.
Na entrevista, mencionou ter participado da revisão em inglês de obras como Xi Jinping: Walking Into the Worlds of Ordinary People e Water Governance in China: Perspectives of Xi Jinping. Segundo ele, esses materiais o aproximaram do que descreveu como uma abordagem de governo centrada nas pessoas, além de uma experiência de liderança associada a vivências de base.
“Eu li relatos da vida de Xi quando criança e adolescente, crescendo. O primeiro trabalho dele no Partido foi como secretário do Partido em uma aldeia. Ele mesmo viveu dificuldades e viu isso de perto”, disse. E acrescentou: “Os líderes do Partido, do líder máximo aos líderes em diferentes regiões e níveis, vêm do povo, trabalham para o povo, e praticam a partir da base.”
Janke também comparou a distância entre discurso e prática em sistemas ocidentais com o que entende ser uma lógica diferente na China. Segundo ele, “quando chega a época de eleição, eles anunciam grandes projetos só para ganhar votos”, enquanto, no caso chinês, afirmou que as ações seriam orientadas a resultados para melhorar a vida das pessoas, e não para vencer eleições.
Foi nesse ponto que ele enfatizou a dimensão do planejamento. Além de citar a existência de planos quinquenais, afirmou que eles tendem a ser seguidos com rigor. Para ele, esse mecanismo ajuda a sustentar continuidade, metas claras e capacidade de ajuste quando demandas emergem.
“Eles perguntaram do que precisamos”, relata sobre autoridades de Hainan
Ao exemplificar o que chama de responsividade administrativa, Janke citou um encontro promovido por autoridades de Hainan com residentes estrangeiros, em 2024, para ouvir necessidades e preocupações. “Eles nos perguntaram: ‘Do que vocês precisam? Quais são suas preocupações?’ ‘Vamos anotar e organizar pessoas para trabalhar nisso, para atender às necessidades e preocupações de vocês, e mudar as coisas para melhor’”, relatou.
Ele também descreveu a experiência de registrar sua empresa de tradução usando uma plataforma online do governo local, afirmando que o processo de registro foi concluído em apenas um dia. “Eles trabalharam duro para garantir que coisas como abrir uma empresa sejam muito fáceis, até mesmo para estrangeiros”, afirmou.
Manual para expatriados e reconhecimento oficial em Hainan
Após criar raízes em Hainan, Janke disse ter transformado o vínculo com a província em projetos profissionais de utilidade prática para outros estrangeiros. Um deles foi a tradução e edição de A Guide to Hainan for Expats, encomendada pelo Escritório de Assuntos Exteriores da província, com informações sobre aplicativos, métodos de pagamento, comunicação e orientações para integração à vida local.
Em 2024, ele recebeu o Hainan Friendship Award, interpretando a honraria como reconhecimento público do trabalho realizado em tradução e ponte cultural. Janke afirmou que pretende seguir estimulando que estrangeiros conheçam o país por experiência direta, com mais senso crítico diante de estigmas e preconceitos midiáticos. “Não deixe só a mídia dizer que a China é ruim; seja mais criterioso”, disse.
Ao final, Janke resumiu sua avaliação sobre a modernização chinesa com uma ênfase dupla: o esforço coletivo do povo e a liderança do Partido como elemento organizador. “Nada poderia ter sido feito sem o povo, sem o trabalho duro de indivíduos em toda a sociedade. Mas tudo isso foi feito sob a liderança do PCC e por meio de abordagens científicas”, afirmou.



