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Autoridade dos EUA diz que nenhuma Nvidia H200 foi aprovada para a China, e especialista aponta estratégia “autodestrutiva”

Depoimento no Congresso expõe incerteza regulatória, trava pedidos e pode corroer a competitividade da Nvidia no mercado chinês e global

Chips da Nvidia (Foto: Reuters)

247 – Uma autoridade do governo dos Estados Unidos afirmou que, até o momento, nenhuma unidade do chip de inteligência artificial H200, da Nvidia, foi aprovada para venda à China, apesar de movimentos recentes de Washington para flexibilizar parcialmente restrições de envio. A declaração evidencia o custo crescente da instabilidade regulatória dos EUA e reforça a percepção de que a política de contenção tecnológica contra Pequim tem produzido efeitos contraditórios para empresas norte-americanas.

A informação foi publicada pelo Global Times, com base em reportagem da Bloomberg, que citou um alto funcionário de controle de exportações dos EUA. Segundo o relato, o tema veio à tona durante uma audiência no Congresso, em um momento sensível para a Nvidia, às vésperas de divulgar seu resultado financeiro, com investidores atentos a qualquer sinal concreto de reabertura do mercado chinês para seus processadores avançados de IA.

Depoimento no Congresso e a “janela rara” sobre licenças

O episódio ocorreu na terça-feira, durante uma sessão do Comitê de Relações Exteriores da Câmara. Questionado sobre quantos H200 haviam sido aprovados para venda à China, David Peters, secretário-assistente para fiscalização de exportações no Departamento de Comércio, respondeu: “pelo que entendo, até agora, nenhum”.

Embora Peters não participe diretamente do processo de licenciamento, suas palavras foram interpretadas por analistas como um indício relevante sobre a operação do Bureau of Industry and Security (BIS), órgão do Departamento de Comércio responsável por autorizações de exportação de tecnologias sensíveis. O comentário também teve impacto por ocorrer em um ambiente de alta atenção do mercado, já que a Nvidia se preparava para apresentar seu balanço, enquanto persiste a dúvida sobre a capacidade de converter sinalizações políticas em licenças efetivas.

Na prática, a mensagem transmitida ao mercado é a de que a suposta flexibilização anunciada por Washington não se traduziu, até aqui, em liberações concretas. A consequência imediata é o prolongamento de um limbo comercial: o produto existe, há demanda potencial, mas o acesso permanece condicionado a critérios instáveis e a revisões que podem se estender por tempo indeterminado.

Regras, condições e limites que mantêm o mercado em suspenso

De acordo com o texto, o governo dos EUA teria se movido em dezembro para permitir que a Nvidia vendesse H200 a clientes chineses selecionados. No entanto, regras formais publicadas em janeiro pelo BIS estabeleceram condições que dificultam o “sinal verde” para as exportações.

Entre os requisitos mencionados, aparecem mecanismos de verificação por terceiros sobre as capacidades de IA dos chips e limites de volume: os envios para a China não poderiam ultrapassar 50% do total vendido a clientes nos EUA. Além disso, a Nvidia teria de certificar oferta doméstica adequada, enquanto compradores chineses deveriam demonstrar “procedimentos de segurança suficientes” e garantir que os chips não seriam usados para fins militares.

Esse conjunto de exigências, na avaliação apresentada, reforça a imprevisibilidade do acesso real ao mercado. O texto cita ainda que clientes chineses estariam evitando fazer pedidos enquanto não ficar claro se conseguirão as licenças necessárias e sob quais condições. Com isso, mesmo antes de qualquer decisão formal, a própria incerteza já produz efeito econômico: trava negociações, impede planejamento de compras e reduz a atratividade do fornecedor.

Especialista chinês: dilema estratégico e perda de confiança

Para Li Yong, membro do conselho executivo da China Society for WTO Studies, a política dos EUA está presa a uma contradição: buscar lucros em um mercado amplo como o chinês, ao mesmo tempo em que tenta intensificar a contenção tecnológica. Ao Global Times, Li descreveu esse impasse como uma fonte permanente de instabilidade nas políticas relacionadas à China.

Segundo ele, “para as empresas chinesas, estabilidade e previsibilidade são essenciais, mas repetidas reversões de política e condições adicionais consideradas irrazoáveis dificultam o planejamento de aquisições de longo prazo de chips dos EUA, o que acaba pesando sobre suas vendas no mercado chinês”.

Na leitura de Li, a sequência de recuos, revisões e novas condicionantes mina a credibilidade de fornecedores norte-americanos. Ele acrescentou que, embora o setor de semicondutores da China ainda esteja em processo de modernização, sua trajetória seria mais previsível, com melhora gradual e a formação de um ecossistema mais integrado entre fabricantes e usuários.

Nessa perspectiva, a instabilidade regulatória dos EUA não é apenas um problema operacional, mas um fator que pode acelerar mudanças estruturais: empresas chinesas tenderiam a internalizar cadeias, diversificar fornecedores e reforçar soluções domésticas para reduzir vulnerabilidades.

Li foi além ao alertar para efeitos de longo prazo sobre a posição competitiva de empresas dos EUA. Em sua avaliação, “as oscilações da política de Washington irão, ao longo do tempo, prejudicar a credibilidade dos fornecedores dos EUA, corroer a confiança do mercado e enfraquecer sua competitividade na China e além”.

Fiscalização mais dura, contrabando e a disputa narrativa sobre IA

O texto também aponta um endurecimento da postura de fiscalização. Peters teria afirmado que Washington está ampliando esforços para conter o contrabando de semicondutores avançados ligados à IA, e que estaria aberto a estender prazos legais e reforçar penalidades de fiscalização, segundo a Bloomberg.

A escalada acontece em paralelo a novas acusações no debate público norte-americano sobre supostas violações. O material afirma que alguns funcionários dos EUA amplificaram alegações de que o modelo mais recente de IA da DeepSeek teria sido treinado no chip Blackwell, o mais avançado da Nvidia, e que isso poderia violar controles de exportação.

Questionada sobre essas alegações, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse na terça-feira que não tinha familiaridade com os detalhes mencionados, acrescentando que a China já deixou clara sua posição de princípio sobre exportações de chips dos EUA para a China.

O texto retoma ainda uma declaração anterior do porta-voz Lin Jian, de agosto de 2025, quando afirmou: “a posição da China de se opor à politização e à instrumentalização de questões tecnológicas e comerciais, bem como ao bloqueio e à supressão maliciosos contra a China, é consistente e clara. Tais práticas perturbam a estabilidade das cadeias industriais e de suprimentos globais e não atendem aos interesses de ninguém”.

Nvidia tenta preservar espaço na China enquanto as regras mudam

Em meio a esse ambiente, o fundador e CEO da Nvidia, Jensen Huang, realizou uma visita de alto perfil a cidades chinesas, incluindo Xangai e Shenzhen, além de Taipei. Analistas citados no texto interpretaram a viagem como uma tentativa de projetar uma imagem “amigável” à China e dialogar com autoridades e clientes estratégicos para impulsionar os H200.

O quadro descrito sugere, porém, que iniciativas corporativas podem esbarrar em barreiras políticas cada vez mais difíceis de contornar. De um lado, a Nvidia precisa sinalizar disposição comercial e preservar relações. De outro, sua capacidade de atender a demanda depende de licenças sujeitas a avaliações de segurança nacional e a regras que podem se tornar mais rígidas com pouca antecedência.

Na avaliação apresentada por Li, considerações de segurança estratégica de longo prazo, coordenação de ecossistema e inovação sustentável reforçam a tendência de empresas chinesas crescerem dentro do ecossistema doméstico de semicondutores. E ele conclui que, se firmas dos EUA quiserem recuperar terreno, teriam de oferecer mais previsibilidade regulatória e construir parcerias mais mutuamente benéficas e alinhadas às necessidades da indústria local.

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