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Big techs inundam Casa Branca com lobby e bajulam Trump para destravar negócios

Empresas de tecnologia investem valores recordes em Washington para moldar agenda de IA, reduzir restrições e ampliar acesso a mercados estratégicos

Na posse de Donald Trump, Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon) e a noiva, Lauren Sanchez, Sundar Pichai (Google) e Elon Musk (X), em Washington - 20/01/2025 (Foto: Julia Demaree Nikhinson/REUTERS)

247 - O Vale do Silício ajustou sua estratégia política para lidar com o segundo mandato de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, apostando em gastos históricos com lobby, presença constante na Casa Branca e uma relação direta de elogios e aproximação pessoal com o chefe do Executivo. A movimentação reflete a crescente dependência do setor tecnológico das decisões federais, especialmente em um momento em que a inteligência artificial se consolida como motor central da economia norte-americana e passa a influenciar praticamente todos os aspectos da vida cotidiana, relata a agência Bloomberg.

Ao longo de 2025, gigantes como Nvidia, OpenAI, Meta, Amazon e Google reforçaram e reorganizaram seus departamentos de relações governamentais para alinhar interesses corporativos à agenda presidencial. Segundo levantamento do Bloomberg News com base em dados públicos, as principais empresas de tecnologia e inteligência artificial desembolsaram, juntas, US$ 109 milhões em lobby no ano passado, superando pela primeira vez a marca dos US$ 100 milhões. Paralelamente, essas companhias passaram a incorporar aliados próximos de Trump em seus quadros em Washington.

Executivos do setor marcaram presença desde o início do segundo mandato do presidente, ocupando lugares de destaque na cerimônia de posse e participando de eventos exclusivos. Houve desde jantares formais na Casa Branca dedicados à liderança em inteligência artificial até encontros privados frequentes. Alguns líderes, como Mark Zuckerberg, da Meta, chegaram a adquirir imóveis em Washington, em um gesto que remete à proximidade cultivada por magnatas industriais no início do século 20.

Para Justin Sayfie, lobista da Ballard Partners, empresa alinhada a Trump e com clientes como Amazon, TikTok e a Computer & Communications Industry Association, a estratégia tem caráter duplo. “Para muitos líderes do setor de tecnologia, eles adotaram uma estratégia de engajamento tanto como medida ofensiva quanto defensiva”, afirmou. Segundo ele, “da perspectiva do presidente, é a política mais ‘EUA em primeiro lugar’ imaginável ajudar a fazer crescer essas empresas de tecnologia nascidas nos EUA”.

A Meta liderou os gastos em lobby em 2025, com mais de US$ 26 milhões, mantendo-se entre os maiores investidores políticos de Washington. Na sequência vieram Amazon, com mais de US$ 17 milhões, e Google, com mais de US$ 13 milhões. A Amazon, no entanto, registrou uma leve redução em relação ao ano anterior.

Com o investidor David Sacks atuando como czar de inteligência artificial da Casa Branca e Trump endossando publicamente planos de investimento do setor, 2025 marcou uma convergência inédita entre as prioridades do Vale do Silício e a agenda governamental de IA. A Nvidia, por exemplo, obteve sinal verde para exportar seus chips avançados H200 para a China e conseguiu retirar uma cláusula restritiva sobre exportação de semicondutores de um projeto essencial de defesa aprovado em dezembro.

O governo norte-americano também passou a ameaçar retaliações contra a União Europeia diante de tentativas do bloco de taxar big techs como Meta e Google. Empresas como OpenAI, Meta e a gestora Andreessen Horowitz ainda convenceram a Casa Branca a editar uma ordem executiva voltada a conter regulações estaduais sobre inteligência artificial. Já o TikTok, alvo de tentativa de banimento no primeiro mandato de Trump, avançou em um acordo para venda a investidores norte-americanos, com apoio direto do presidente.

A Nvidia se tornou um símbolo do peso das apostas do setor sob a atual administração. Desde 2022, a empresa enfrenta controles rígidos de exportação que praticamente bloquearam seu acesso ao mercado chinês, avaliado internamente em US$ 50 bilhões. Para reverter esse cenário, a fabricante de chips elevou seus gastos com lobby de US$ 640 mil em 2024 para US$ 4,9 milhões em 2025, um salto superior a sete vezes.

Mesmo diante desse aumento, os custos políticos representam pouco para uma companhia que gerou US$ 64 bilhões em caixa operacional no ano fiscal de 2025. Após a posse, Trump, David Sacks e o secretário de Comércio, Howard Lutnick, tornaram-se defensores centrais da retomada das vendas da Nvidia à China, decisão formalizada recentemente apesar da resistência de setores ligados à segurança nacional.

A mudança foi impulsionada diretamente pelo CEO da Nvidia, Jensen Huang, que passou a cultivar um relacionamento próximo com o presidente. Eles se encontraram em janeiro de 2025, com intermediação de Lutnick, e mantiveram contatos frequentes desde então. “Muitas vezes estamos conversando sobre coisas tarde da noite, e eu estou meio que pronto para dormir e ele continuaria por muitas horas mais”, contou Huang em entrevista à revista Time. “Nunca conheci alguém com uma ética de trabalho tão incrível”, acrescentou.

Trump também elogiou publicamente a empresa. Em setembro, brincou que a Nvidia estava “dominando o mundo”. Questionado pela Bloomberg sobre a frequência de suas visitas a Washington, Huang respondeu: “Sempre que o presidente Trump quiser que eu esteja aqui”.

Outros líderes do setor seguiram caminho semelhante. A CEO da AMD, Lisa Su, agradeceu a Trump pelo “trabalho incrível que sua administração tem feito para apoiar a indústria de semicondutores”. A empresa, concorrente direta da Nvidia, gastou US$ 4,85 milhões em lobby em 2025, alta de 80% em relação ao ano anterior, e também se beneficiou da flexibilização das regras de exportação para a China.

Na OpenAI, o movimento foi igualmente visível. O CEO Sam Altman, que em 2016 comparou Trump a Adolf Hitler, passou a descrevê-lo, em setembro, como um “presidente pró-negócios, pró-inovação”. Um dia após a posse, Altman apareceu ao lado do presidente na Casa Branca para anunciar o projeto Stargate, marco inicial de uma série de compromissos bilionários em inteligência artificial ao longo de 2025.

Avaliada em US$ 500 bilhões, a OpenAI aposta no apoio da administração Trump para viabilizar centenas de bilhões de dólares em investimentos em data centers e infraestrutura energética. A empresa gastou quase US$ 3 milhões em lobby no ano passado, crescimento de quase 70% em relação a 2024.

O esforço de aproximação também incluiu contratações estratégicas. Meta, Google, Microsoft, Intel e OpenAI incorporaram ex-integrantes do governo Trump ou figuras próximas ao presidente em cargos-chave de relações institucionais. Para Stewart Verdery, fundador da consultoria Monument Advocacy, houve “tanto uma trégua quanto um relacionamento em desenvolvimento entre a indústria de tecnologia e a administração Trump”.

Além do lobby direto, as big techs prometeram investimentos vultosos em troca de apoio político. A Apple, por exemplo, foi poupada de tarifas amplas sobre produtos chineses após o CEO Tim Cook comprometer US$ 600 bilhões em investimentos domésticos. Empresas como Meta, Google, Microsoft e Apple também se comprometeram a financiar parte dos US$ 400 milhões destinados à reforma do salão de baile da Casa Branca.

O cenário para 2026, porém, segue desafiador. A OpenAI pressiona por mudanças em créditos fiscais da Lei de Chips para reduzir custos de infraestrutura, enquanto a Amazon já aponta impacto das tarifas nos preços. Paralelamente, parlamentares ligados à segurança nacional tentam barrar a liberação de exportações de chips avançados para a China, e a Casa Branca enfrenta o desafio de cumprir a promessa de proteger empresas de IA contra uma onda de regulações estaduais emergentes.

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