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Sachs denuncia “embriaguez de poder” em Washington e diz que big tech “comprou a Casa Branca”

Economista critica decretos de Donald Trump, defende acordos no âmbito da ONU e aponta sanções como arma para “crush” a economia venezuelana

Jeffrey Sachs (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Em entrevista exclusiva concedida ao The Indian Express, o economista Jeffrey Sachs fez uma crítica dura ao atual momento da política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump, atual presidente dos EUA, descrevendo uma “loucura” recente marcada por decretos, ataques e decisões concentradas em um círculo restrito de poder.

Sachs afirmou que a Casa Branca vive uma combinação explosiva de personalismo, dinheiro e influência tecnológica, e resumiu de forma direta o que enxerga como o novo centro do comando político em Washington: “Esta é uma Casa Branca dominada pela tecnologia” e “Eles compraram a Casa Branca”.

“Uma pequena turma que acha que manda no mundo”

Ao comentar declarações do secretário de Comércio em um podcast ligado ao ecossistema de bilionários do Vale do Silício, Sachs disse que a postura “casual” e arrogante é sintoma de um ambiente em que autoridades se sentem acima de qualquer freio institucional.

“Ele não precisa ter cuidado. Eu comando o mundo. Estou com meus amigos e nós somos o pequeno grupo que manda no mundo”, afirmou, ao descrever a mentalidade que, segundo ele, passou a orientar o governo.

Sachs também apontou que, na visão dele, os Estados Unidos estão testando limites internos e externos: “Eles estão testando todos os limites para ver se ainda restam limites”.

Decretos, emergências e o enfraquecimento do controle constitucional

Na leitura do economista, o esvaziamento de controles constitucionais sobre a política externa vem de décadas, com um ponto de inflexão no pós-guerra, mas teria atingido um patamar extremo com Trump.

Sachs afirmou que o país passou a funcionar por “decreto presidencial” e criticou o uso recorrente de poderes de emergência: as ordens “começam com ‘pelos poderes a mim conferidos como presidente dos Estados Unidos’ e invocando poderes de emergência”, disse, em referência ao mecanismo usado para impor medidas econômicas.

Ele descreveu o Congresso como “submisso” e afirmou que o cenário atual escancara “o colapso de qualquer governança sistemática” no país.

“Complexo militar-industrial digital” e vigilância total

Sachs disse que a antiga engrenagem do complexo militar-industrial ganhou um novo eixo, com a ascensão da inteligência artificial e de plataformas digitais no centro da guerra e da segurança.

“Agora temos um complexo militar-industrial digital”, afirmou. Ele citou o papel de empresas e figuras do setor, mencionando o uso de tecnologias para vigilância e guerra, e definiu o momento como uma concentração sem precedentes de poder econômico, tecnológico e político.

Na mesma linha, alertou para a extensão do monitoramento cotidiano: “Eles observam cada tecla que digitamos e escutam cada palavra que dizemos, seja pelo relógio, seja pelo telefone”.

Venezuela: “Eu não sequestraria presidentes de outros países”

Ao falar sobre a Venezuela, Sachs condenou explicitamente ações unilaterais e a lógica de intervenção. Questionado sobre um cenário em que um líder venezuelano fosse mantido sob controle dos EUA, foi taxativo: “Eu certamente não manteria presidentes, eu não sequestraria presidentes de outros países”.

Ele afirmou rejeitar a divisão do mundo entre “democracias e autocracias” como justificativa para intervenções e disse que qualquer ação desse tipo deveria passar pelo Conselho de Segurança da ONU: “Se há realmente um problema… vá ao Conselho de Segurança da ONU e obtenha um acordo das grandes potências”.

Sachs descreveu como “chocante” a banalização do uso da força e criticou o abandono de justificativas humanitárias: “Aqui é só bravata”, disse, ao sustentar que a retórica muda ao sabor do momento.

Sanções como arma: “Os EUA destruíram deliberadamente a economia venezuelana”

Sachs atribuiu a disparada do mercado venezuelano à expectativa de redução de sanções e ao poder de Washington de “colocar pressão” e “tirar pressão” conforme interesses políticos.

“De 2015 em diante, mas especialmente de 2017 em diante, os EUA destruíram deliberadamente a economia venezuelana”, afirmou. Segundo ele, como o petróleo era “a única exportação de valor”, tornou-se “cirurgicamente possível destruir toda a economia destruindo o setor petrolífero”.

Ele citou a queda acentuada da produção e resumiu o efeito: “Eles esmagaram a economia”. Na leitura do economista, o mercado reage porque acredita que “pode haver sobrevivência de novo” se o isolamento for revertido.

“A OTAN é uma adaga apontada para a Rússia”

Em outro trecho, Sachs defendeu uma mudança radical na arquitetura de segurança europeia. “Eu acabaria com a OTAN”, declarou, argumentando que, após 1991, a aliança passou a operar como instrumento de expansão e pressão sobre a Rússia.

Ele disse que houve promessas não cumpridas sobre a expansão para o Leste e vinculou essa dinâmica à escalada que desembocou na guerra na Ucrânia. Para o economista, o caminho deveria ser outro: um arranjo de segurança coletiva envolvendo União Europeia e Rússia, com dissuasão nuclear, mas sem a lógica permanente de confronto.

Dólar, BRICS e “desdolarização” como resposta à “arma financeira”

Sachs também contestou a ideia de que o dólar seria “impenetrável”. “Completamente errado”, afirmou, dizendo acreditar que, em uma década, o renminbi terá participação relevante nas transações globais.

Ele criticou a “armamentização” do dólar e afirmou que é “tolo” manter transações na moeda americana quando ela é usada para “segurar o resto do mundo pelo pescoço”. Por isso, defendeu que países do BRICS ampliem rotinas de compensação fora do dólar.

Para Sachs, a discussão não é de “confiança”, mas de soberania e estabilidade: “A Índia deveria dizer: precisamos de relações maduras de superpotência com a China, estáveis, para que os Estados Unidos não nos dividam e conquistem e não nos intimidem”.

ONU, “esferas de segurança” e a recusa em aceitar a “tragédia”

Embora reconheça a descrença generalizada, Sachs insistiu que abandonar a ONU seria um caminho “devastador”. “Não podemos aceitar a tragédia”, disse, ao defender um esforço para preservar o sistema internacional antes que o mundo recaia em guerra aberta.

Ele propôs três pilares: “esferas de segurança” (grandes potências fora do “quintal” umas das outras), uma política de “boa vizinhança” e a reconstrução do papel da ONU.

No diagnóstico do economista, a era imperial ocidental acabou, mas a transição está instável. E, para ele, o que se vê hoje em Washington é perigoso justamente por combinar arrogância, poder tecnológico e decisões sem controle: “Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que precisam”, citou, lembrando a frase clássica atribuída à lógica de dominação — e advertindo que a história mostra como esse tipo de soberba termina mal.

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