Pepe Escobar denuncia saque de petróleo na Venezuela e uso de IA como arma contra analistas geopolíticos
Jornalista relaciona pressão dos EUA sobre Venezuela e Irã à defesa do petrodólar e alerta para “guerra cognitiva” com deepfakes que confundem o público
247 – Na edição mais recente do Pepe Café, no YouTube, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar articulou três temas que, segundo ele, “estão interligados em diversos aspectos”: Venezuela, Irã e a “praga” dos deepfakes de inteligência artificial usados para confundir audiências e atingir vozes independentes.
Ao iniciar a análise, Escobar afirmou que o foco central da ofensiva dos EUA não seria “democracia” nem “guerra às drogas”, mas energia e controle geoeconômico. “Todo mundo já sabia muito antes que isso não tinha nada a ver com um remix da guerra contra as drogas e que não tinha nada a ver com estabelecer democracia na Venezuela”, disse.
“Sequestro” e petróleo no centro da crise venezuelana
Escobar sustentou que o objetivo maior, um “câmbio de regime”, não teria sido alcançado, embora ele descreva uma operação relâmpago que teria resultado no sequestro de um “presidente em exercício” e sua condução aos Estados Unidos. “O objetivo principal, que era um câmbio de regime, eles não conseguiram”, afirmou, antes de mencionar que as acusações seriam “absolutamente pífias”.
O analista também citou o advogado Barry Pollard, apresentado como “um dos advogados de Julian Assant”, para argumentar que eventuais acusações poderiam ser derrubadas em tribunal. No mesmo bloco, ele reforçou a tese de que tudo estaria “diretamente relacionada a petróleo”.
Na narrativa do programa, Washington não teria condições de “controlar” o país caribenho como sugerem versões difundidas na internet. Escobar ironizou a ideia de que, ao “quebrar a porcelana”, o agressor passa a “ser dono” dela e vira responsável pelo que acontecer. E foi além ao avaliar que uma invasão enfrentaria resistência duríssima. “Isso se transformaria em uma série de Vietnams e Afeganistãos superpostos”, disse, ao projetar reação popular “encarniçada”.
Ainda sobre petróleo, Escobar afirmou que “50 milhões de barris de petróleo” teriam sido “roubados literalmente da Venezuela” e que a venda desse volume beneficiaria “fundos americanos”, sob o discurso de que o dinheiro seria “redistribuída, entre aspas, em benefício do povo venezuelano”.
Casa Branca, majors e a avaliação de “ininvestível”
No programa, Escobar relatou um encontro na Casa Branca com CEOs de grandes empresas de energia dos EUA, apontando que a própria indústria teria imposto um freio às expectativas de exploração imediata. “Especialmente o CEO da Exon Mobil” teria dito que, “na situação atual”, a Venezuela seria “ininvestível”.
Ele atribuiu isso a uma combinação de fatores, com destaque para sanções “muito barra pesada” por “mais de uma década, quase duas décadas”, que teriam afetado infraestrutura e cadeias de exportação. Também mencionou modernizações feitas por chineses para viabilizar exportações para a China e estimou um fluxo de “750.000” barris por dia, que classificou como limitado e pouco relevante para “desestabilizar a China”.
Escobar afirmou ainda que, para o país retomar patamares anteriores de exportação, seriam necessários “16 anos” e “183 bilhões de dólares”, com horizonte “até 2040”. O ponto, para ele, é que o cálculo econômico das majors não fecha, o que deixaria o projeto de apropriação energética politicamente ruidoso, mas operacionalmente travado.
Petrodólar, BRICS e o pano de fundo geoeconômico
O eixo estruturante da leitura apresentada no Pepe Café foi o petrodólar. Escobar classificou a ofensiva contra a Venezuela como “um ataque desesperado para retardar a queda do petrodólar”, sustentando que o império buscaria garantir que transações de energia sigam denominadas em dólares.
“É absolutamente vetado do ponto de vista do império de que essas transações sejam em outras moedas”, disse, citando o avanço do “petro yuan” e conectando o tema às experiências discutidas no âmbito dos BRICS. Ele mencionou iniciativas como “Bricks Bridge”, “The Unit” e o sistema chinês “CIPS”, e afirmou ter incorporado “insightes” de Michael Hudson e de Paulo Nogueira Batista.
Irã, sanções e risco de escalada sob Donald Trump
Ao ligar Venezuela e Irã no mesmo tabuleiro, Escobar afirmou que os EUA tentariam “neutralizar o Irã como uma fonte de petróleo e de gás” que comercializa energia “fora do domínio do petrodólar”. Ele atribuiu esse movimento a sucessivos governos, com ênfase em administrações republicanas, e citou explicitamente “Trump 2.0”. No contexto atual, Donald Trump é o presidente dos Estados Unidos.
Escobar descreveu o Irã como “um estado soberano agora armado até os dentes” e afirmou que Teerã teria apoio “de Rússia e de China”. Também levantou a hipótese de novos ataques e disse que haveria “uma lista enorme de alvos” que “já saiu do Pentágono e está na mesa de Trump”, avaliando o cenário como “extremamente perigoso” pela imprevisibilidade decisória.
Ele afirmou que “não haverá um ataque imediato” naquele momento, mas cravou: “Haverá um ataque”. E acrescentou que o presidente poderia “acordar de mau humor e resolver um ataque contra o Irã, passando por cima de tudo”, citando inclusive a tensão com o Congresso sobre autorização para bombardeios.
“Guerra cognitiva” e deepfakes como método de censura
A terceira perna do programa foi o alerta sobre o uso de deepfakes de inteligência artificial para atingir um “pequeno grupo de analistas independentes”. Escobar disse ser um dos alvos e citou outros nomes, como John Mearsheimer, Jeffrey Sachs e Yanis Varoufakis, além de mencionar Paulo Nogueira Batista Jr.. “No meu caso também que tá completamente fora de controle”, afirmou.
Segundo ele, a proliferação de vídeos falsos operaria como “um novo método de censura”, porque “confunde completamente o público”. Escobar relatou um padrão recorrente de comentários: “É você mesmo ou não?”. E sustentou que isso “corrói a confiança” na produção independente de informação, com impacto direto na esfera pública.
Escobar acusou o YouTube de não agir para remover o material e defendeu que, ao detectar um deepfake, a plataforma deveria sinalizar de forma “bastante clara” que se trata de falsificação. Para ele, há um incentivo econômico por trás. “Do ponto de vista de Google e do YouTube, quanto mais canais, quanto mais streams, quanto mais anúncio, quanto mais dinheiro”, disse, citando a “lógica do turbocapitalismo”.
Ele também caracterizou a disseminação como “uma operação psicológica extremamente sofisticada”, que “está destruindo o senso comunitário” e “a confiança entre produtores de informação” e suas audiências. “Pode levar à morte total da internet”, afirmou, ao descrever um cenário em que o público perde a capacidade de distinguir o real do fabricado.
Internet, instabilidade e a disputa pela verdade
No fechamento do programa, Escobar conectou a guerra de narrativas aos episódios recentes envolvendo o Irã e à circulação de desinformação em larga escala. Para ele, técnicas de saturação informacional e excesso de conteúdo falso empurram sociedades para um terreno em que “a destruição da verdade” e “a destruição dos fatos reais” fragilizam processos democráticos.
“O tema principal é guerra cognitiva”, disse, ao defender que o Sul Global, incluindo o Brasil, precisa ficar “extremamente alerta” diante de uma disputa que, em sua visão, combina pressão militar, coerção financeira e manipulação algorítmica.
No final, ele pediu que o público se inscreva “no verdadeiro Pep Café” e atacou os responsáveis pelas falsificações. “Vocês são patéticos, absolutamente patéticos”, afirmou.

