“O Brasil é o alvo final dos Estados Unidos”, diz Pepe Escobar
Analista afirma que doutrina de segurança de Trump 2.0 prioriza o “hemisfério ocidental” e retoma a lógica da doutrina Monroe, com foco no Brasil
247 - A doutrina de segurança estratégica associada ao governo Donald Trump, reposiciona prioridades globais e recoloca a América Latina no centro de uma agenda de controle regional. Na avaliação do jornalista e analista político Pepe Escobar, o documento aponta o “hemisfério ocidental” como prioridade e, dentro desse recorte, define o Brasil como objetivo principal em perspectiva de médio e longo prazo.
As afirmações foram feitas por Escobar em entrevista à TV 247. Ao comentar o conteúdo do texto, ele disse que as diretrizes são “extremamente ambíguas, perversas e muito perigosas” e argumentou que a aparente redução de pretensões globais encobre um redesenho da atuação dos Estados Unidos em regiões consideradas essenciais para sua projeção.
“Prioridades absolutas”: o hemisfério ocidental e o Brasil
Segundo Escobar, a doutrina descreve um processo de recuo relativo em determinadas áreas, ao mesmo tempo em que reforça a centralidade do continente americano para Washington. “As duas, quais são as prioridades absolutas de Trump 2.0? O hemisfério ocidental. Ou seja, para todos nós, a América Latina, com destaque fundamental para o Brasil, que não é nomeado diretamente, mas é o principal alvo dessa doutrina a médio e longo prazo”, afirmou.
Na leitura do analista, o texto funciona como um guia de reorganização de esforços, delimitando onde os Estados Unidos concentrariam recursos e iniciativa política. Ao mencionar o Brasil como “principal alvo”, Escobar situa o país como ponto de gravidade na disputa por influência no continente, ainda que o documento, segundo ele, não cite nominalmente o governo brasileiro.
Doutrina Monroe “sob esteroides” e a ideia de “corolário”
Um dos trechos destacados por Escobar envolve a retomada explícita de um referencial histórico ligado à doutrina Monroe. Ele relatou que o texto menciona “a necessidade de se ter um corolário da doutrina Monroe”. A interpretação do analista é de que isso funciona como sinalização direta de controle sobre o espaço latino-americano: “Isso está no texto, ou seja, a doutrina está especificando. Olha, a doutrina Monroe de 1830 está viva e agora sob esteroides e nós vamos implementar, ou seja, o quintal é nosso.”
Ao insistir nesse ponto, Escobar descreveu a América Latina como área tratada, na visão de Washington, como espaço de exclusividade. “Se é periférico, se é o jardim, ninguém pode dominar, a não ser nós”, disse, ao reagir à ideia de que a região seria secundária. Para ele, a noção de periferia não reduz o interesse, mas reorganiza a forma de intervenção e vigilância.
O Brasil no centro do alerta geopolítico
Ao ampliar a análise, Escobar associou a ênfase no hemisfério ocidental à leitura de que os Estados Unidos enfrentariam limites de atuação em outras frentes. Dentro desse raciocínio, a América Latina passaria a concentrar pressão por ser considerada terreno mais acessível para projeção de poder. “A gente tem que se focalizar o tempo todo que o império agora está reorganizado, onde eles querem atacar com mais força. Então, no caso da América Latina, que o Brasil fique extremamente alerta”, afirmou.
Na mesma fala, ele conectou esse movimento ao cenário asiático, sugerindo que as prioridades se dividem entre o continente americano e o leste da Ásia. “E o leste da Ásia inteira”, disse, ao listar os eixos do que chamou de reorientação estratégica, acrescentando que o documento trata o “indopacífico” como conceito operacional ligado à contenção da China.
Um desenho de longo prazo com efeitos imediatos na região
Para Escobar, o ponto central não é apenas o que o texto explicita, mas o que ele organiza como “painel” de prioridades. Ao apontar o Brasil como alvo principal, o analista insere o país em uma lógica de disputas de influência em que a agenda regional ganharia peso, inclusive como parte de uma atualização da doutrina Monroe. O resultado, segundo ele, é a consolidação do continente como espaço de pressão política e estratégica, com o Brasil no centro do mapa desenhado por Washington. Assista:



