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Maduro diz que Venezuela é “povo e governo amigo” dos EUA e denuncia ameaças militares de Washington

Em entrevista de Ano-Novo a Ignacio Ramonet, presidente venezuelano atribui crescimento de 9% à “economia real”

Nicolas Maduro e Ignacio Ramonet (Foto: Telesur)

247 – Em meio a uma escalada de tensões com os Estados Unidos e à presença de uma poderosa armada norte-americana diante do litoral venezuelano há mais de cinco meses, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que seu país deseja paz e mantém disposição de amizade com o povo norte-americano. “Ao povo dos Estados Unidos, eu digo que aqui, na Venezuela, ele tem um povo irmão”, declarou. E completou: “Ao povo dos Estados Unidos, inclusive, eu digo: aqui vocês têm um governo amigo”.

As declarações foram dadas em uma entrevista de Ano-Novo concedida ao jornalista e intelectual Ignacio Ramonet, publicada pela teleSUR, gravada em Caracas no fim da tarde de 31 de dezembro de 2025, em um formato incomum: a conversa aconteceu dentro do carro do presidente, conduzido por ele pelas ruas da capital venezuelana, acompanhado por Cilia Flores e pelo vice-presidente setorial de Cultura e Comunicação, Freddy Ñáñez.

Crescimento econômico de 9% e “milagre” da economia real

Um dos pontos centrais da entrevista foi o desempenho econômico da Venezuela, que, segundo um relatório da Cepal citado por Ramonet, teria registrado o maior crescimento da América Latina em 2025, estimado em 9%. Maduro afirmou que esse resultado se insere em uma sequência prolongada de expansão: “Este é o segundo ano consecutivo em que a Venezuela lidera o crescimento da economia real da América Latina e do Caribe. Temos vinte trimestres contínuos desde que, em 2021, decolamos”.

O presidente venezuelano rejeitou a ideia de que se trate apenas de um “milagre” e defendeu que o avanço é fruto da reorganização produtiva do país após a perda de receitas petrolíferas por sanções e bloqueios. “Do ponto de vista espiritual, diz-se que é um ‘milagre’, mas do ponto de vista da identidade venezuelana… é o resultado do espírito empreendedor e da forma como toda a sociedade se refez, se reinventou”, disse.

Maduro descreveu a estratégia como uma transição de um modelo rentista dependente do petróleo para uma economia baseada em “14 motores”, com produção interna, substituição de importações e incentivo a exportações não petrolíferas. “O grande desafio agora… é que esses 14 motores apliquem uma linha que faça diminuir até quase desaparecer radicalmente tudo o que é importado. Devemos fazer tudo na Venezuela”, afirmou. Questionado se isso incluiria veículos, respondeu: “Sim, os veículos, claro”.

Inflação, moeda e a aposta na “indexação”

Ramonet também abordou a inflação e o poder de compra da população. Em resposta, Maduro disse que a Venezuela adota uma estratégia particular: “Em primeiro lugar, tivemos uma estratégia absolutamente correta: a indexação. Disso não se fala no mundo…”.

Segundo o presidente, a indexação, somada ao empreendedorismo, teria ajudado a consolidar o mercado interno e impulsionado o consumo. Ele citou números para sustentar essa tese: “Em dezembro de 2025, o comércio em vendas e consumo cresceu 34%” e acrescentou que “os produtos nacionais cobrem 90% de toda a demanda do mercado nacional”.

Ao mesmo tempo, Maduro acusou a extrema direita e interesses externos de promoverem ataques especulativos ao bolívar, buscando desestabilizar a vida monetária venezuelana. “É uma perturbação que sabemos como enfrentar, que vamos enfrentar”, afirmou, prometendo superar as turbulências ao longo de 2026.

“Democracia ocidental” em colapso e avanço do Estado Comunal

Outro eixo da entrevista foi a defesa do chamado Estado Comunal como alternativa política. Maduro afirmou que a “democracia liberal”, tal como praticada no Ocidente, estaria em “esgotamento terminal” e se tornaria cada vez mais controlada por elites econômicas e manipulação digital. “São democracias sem povo; são democracias manipuladas… democracias para minorias”, disse.

Em contraste, defendeu o modelo venezuelano como uma “democracia permanente”, baseada em participação direta e decisões comunitárias sobre políticas e orçamento. Reforçou que as consultas populares ocorreram quatro vezes em 2025 e que o país teria financiado e executado 33 mil projetos comunitários, com investimento superior a 330 milhões de dólares. “De onde saem os projetos? Da assembleia de vizinhos. E como são aprovados?… Quem aprova, com seu voto, é o povo”, afirmou.

Maduro detalhou a estrutura: “Há 49 mil conselhos comunais. E há 4.100 comunas”, organizadas em 5.336 circuitos comunais, incluindo áreas urbanas e rurais. Ele ainda destacou que 70% das lideranças são mulheres.

Guerra midiática, “guerra cognitiva” e a disputa pela verdade

Maduro também denunciou uma campanha de desinformação internacional contra a Venezuela e descreveu o momento como uma “guerra cognitiva”. “A guerra é cognitiva porque a guerra é pelo cérebro… e para combater uma guerra cognitiva é preciso criar força de consciência, força de valores”, afirmou.

Ele disse que o país vem construindo um sistema de comunicação que transita “das ruas para as redes, das redes para os meios, dos meios para as paredes”, e apontou a “verdade” como principal arma venezuelana. “Nossa maior arma… é a verdade da Venezuela, que é irrefutável”, declarou.

Apoio popular, big data e rejeição à oposição

Segundo Maduro, as ameaças externas teriam produzido um efeito de coesão interna. Ele afirmou que há um forte consenso nacional contra qualquer intervenção militar norte-americana: “A reação imunológica… foi de 95% de rejeição” às ameaças.

Também atacou a oposição venezuelana, afirmando que a líder María Machado seria amplamente rejeitada: “Ela tem 85% de rejeição, de repúdio total da sociedade venezuelana”. Em contraste, disse que seu governo teria respaldo superior a 70% na defesa da soberania e da paz: “O presidente Maduro… tem acima de 70% de apoio”.

Ameaça militar dos EUA, petróleo e a acusação de violação da Carta da ONU

Ao comentar a presença naval e as ameaças vindas de Washington, Maduro afirmou que os Estados Unidos violariam princípios básicos do direito internacional estabelecidos desde 1945, com a fundação da ONU. “A Carta das Nações Unidas… proíbe e condena expressamente que um país ameace outro com o uso da força”, disse.

Ele questionou, inclusive em termos religiosos, a legitimidade moral dessas pressões e evocou guerras passadas como Vietnã, Afeganistão, Iraque e Líbia para alertar contra uma nova escalada militar na região. “A política do governo atual dos Estados Unidos está contra aquilo a que aspira a sociedade norte-americana”, afirmou.

Maduro também declarou que a motivação real seria a apropriação das riquezas venezuelanas: “Qual é a meta do governo atual dos Estados Unidos? Eles já disseram… pegar todo o petróleo da Venezuela. O ouro. As terras raras”.

Narcotráfico: “modelo perfeito” e aeronaves abatidas

Em resposta às acusações de que a Venezuela seria um país produtor de cocaína, Maduro afirmou que o governo tem um “modelo perfeito” de combate ao narcotráfico e que o principal problema regional seria a produção colombiana. “Toda a cocaína que circula nesta região é produzida na Colômbia. Toda. Toda a cocaína”, disse.

Ele afirmou que o país teria abatido 40 aeronaves estrangeiras e colombianas e alcançado o total de 431 aeronaves de narcotráfico abatidas, seguindo leis de interdição. “Com a lei na mão… e depois, pim pum pam, os foguetes dos Sukhoi”, afirmou.

Maduro voltou a dizer que estaria disposto a negociar com os EUA: “Se eles querem petróleo da Venezuela, a Venezuela está pronta para investimentos norte-americanos como com a Chevron, quando quiserem, onde quiserem e como quiserem”.

Conversa com Donald Trump e apelo por paz

A entrevista traz ainda uma confirmação relevante: Maduro afirmou ter recebido uma ligação direta do presidente Donald Trump — a quem se referiu como o atual presidente dos Estados Unidos — e disse que não houve segunda conversa, apesar das especulações.

“Nós tivemos… uma única conversa. Ele me ligou na sexta-feira, 21 de novembro passado, desde a Casa Branca… Conversamos 10 minutos… respeitosa… cordial”, relatou. E descreveu como se cumprimentaram: “A primeira coisa que ele me disse foi ‘Senhor Presidente Maduro’. E eu lhe disse, ‘Senhor Presidente Donald Trump’”.

Apesar do tom cordial, Maduro afirmou que os desdobramentos posteriores foram negativos. Ainda assim, insistiu em uma mensagem direta ao povo norte-americano: “O povo dos Estados Unidos deve saber que aqui tem um povo amigo, amistoso, pacífico, e tem também um governo amigo”. E resumiu o lema repetido ao longo da entrevista: “Sem guerra, sim à paz”.

“Meu bunker infalível: Deus Todo-Poderoso”

Encerrando a conversa, Ramonet perguntou como Maduro vivia pessoalmente a pressão externa. O presidente respondeu com forte conteúdo religioso e simbólico: “Eu tenho um bunker infalível: Deus Todo-Poderoso. Eu entreguei a Venezuela ao Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Ele disse que o povo é o maior escudo do governo e que sua liderança representa um processo histórico: “Eu sou Guaicaipuro, eu sou Zamora, eu sou Chávez, porque eu sou o povo”. E concluiu: “A vitória da paz nos pertence… Se Deus está conosco, quem estará contra?”.

A entrevista, segundo Ramonet, teve duração total de 1 hora e 4 minutos em vídeo, mas foi editada para a versão escrita, preservando os trechos mais ligados à atualidade internacional.

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