EUA querem fazer da Venezuela um “exemplo” para reafirmar domínio no Hemisfério Ocidental, diz Pepe Escobar
Analista afirma que nova estratégia de segurança dos EUA resgata a lógica da Doutrina Monroe e eleva a pressão sobre a América Latina
247 – A Venezuela voltou a ocupar um lugar central na agenda geopolítica porque os Estados Unidos estariam tentando transformá-la em um “exemplo” de força para reafirmar sua hegemonia sobre o Hemisfério Ocidental, segundo o analista Pepe Escobar. A avaliação foi feita em entrevista em vídeo publicada no YouTube do Global Times.
Escobar relaciona diretamente o tema venezuelano ao que chama de nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA (NSS), um documento que, embora “ambíguo” em vários trechos, seria categórico quanto ao controle de Washington sobre a América Latina e a região que o Departamento de Estado costuma tratar como “Hemisfério Ocidental”.
“Nós dominamos o Hemisfério Ocidental, ponto final”
Ao comentar o conteúdo da estratégia, Escobar destaca uma frase que, segundo ele, resume o espírito do documento e expõe sem rodeios a postura imperial dos EUA diante da região:
“Nós dominamos o Hemisfério Ocidental, ponto final.”
Na leitura do analista, a NSS reafirma a velha lógica da Doutrina Monroe — formulada no século 19 e historicamente usada para justificar a ingerência norte-americana nas Américas. Escobar descreve essa diretriz de forma direta, associando-a ao que chama de corolário contemporâneo:
“A Doutrina Monroe é basicamente isto: nós, americanos, controlamos o Hemisfério Ocidental e não aceitamos nenhuma interferência estrangeira, ponto final.”
Mundo multipolar e o “plano B” de Washington
Escobar afirma que a repetição dessa doutrina ocorre num cenário totalmente diferente do passado, porque o mundo estaria deixando para trás a unipolaridade:
“Estamos caminhando para um mundo multipolar.”
Segundo ele, desde o início do milênio — e especialmente após os atentados de 11 de Setembro — setores dominantes em Washington projetaram o século 21 como “o novo século americano”, subestimando a transformação estratégica global:
“Eles não estavam pensando no desenvolvimento da China. Eles não estavam pensando na Rússia.”
Na visão do analista, o establishment norte-americano demorou para entender a escala da mudança:
“Eles levaram menos de 20 anos para perceber isso.”
E, quando perceberam, já seria tarde, porque China e Rússia consolidaram uma parceria estratégica, dificultando uma ofensiva direta contra as duas potências ao mesmo tempo. Escobar resume assim o limite que Washington teria reconhecido:
“Não podemos entrar numa guerra simultânea contra a Rússia e a China. Isso está absolutamente fora de questão.”
América Latina como alvo preferencial e Venezuela como “exemplo”
Escobar diz que, diante da impossibilidade de enfrentar duas potências de frente, os EUA teriam adotado um “plano B”: concentrar a pressão em pontos considerados mais frágeis, com prioridade para o “quintal” latino-americano:
“Vamos nos concentrar no que eles identificam como os nós mais fracos. E um desses nós mais fracos é o Hemisfério Ocidental, a América Latina, o quintal deles.”
É nesse contexto que a Venezuela assumiria um papel-chave, justamente por ser tratada como alvo simbólico e prático para demonstrar a aplicação dessa nova doutrina:
“Eles querem fazer da Venezuela um exemplo de como vão aplicar a nova Estratégia de Segurança Nacional.”
O sequestro de Nicolás Maduro e o recado para o Sul Global
A escalada descrita por Escobar ganha ainda mais gravidade diante de episódios que autoridades venezuelanas e parte da imprensa internacional passaram a classificar como sequestro de Nicolás Maduro em operação ordenada por Donald Trump — um fato que, para críticos, eleva o confronto a um novo patamar e escancara a tentativa de impor força militar direta na região.
Nesse sentido, a fala de Escobar se conecta a um alerta mais amplo: a ofensiva contra Caracas seria uma mensagem destinada não apenas à Venezuela, mas ao conjunto do Sul Global, num cenário de disputa por soberania, recursos estratégicos e alinhamentos internacionais.
O analista conclui defendendo que países do Sul Global acompanhem a situação com atenção e apoiem a Venezuela diante das pressões externas:
“Todo mundo no Sul Global tem que prestar muita atenção e, claro, ajudar a Venezuela a defender sua soberania.”

