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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Condenados pela cor da pele

Racismo estrutural explica por que desigualdades raciais persistem no Brasil moderno mesmo sem leis segregacionistas explícitas

Condenados pela cor da pele (Foto: Leonardo Lucena)

Há uma tentação recorrente — confortável e enganosa — de tratar o racismo no Brasil como exceção moral, desvio individual ou falha de caráter. Como se ele surgisse apenas quando alguém ofende, agride ou discrimina de modo explícito. Essa leitura é insuficiente. 

O racismo brasileiro não é um acidente de percurso. Ele é método. É arquitetura. É estrutura e daquelas com muito cimento e muito ferro, com durabilidade a perder de vista. Infelizmente.

O conceito de racismo estrutural descreve um fenômeno mais profundo: trata-se de um sistema histórico, social, econômico e simbólico que organiza oportunidades, distribui vulnerabilidades e naturaliza desigualdades a partir da raça, mesmo quando ninguém “declara” ser racista. 

Ele opera antes da intenção individual e sobrevive a ela.

No Brasil, o racismo não nasceu com o preconceito — nasceu com o projeto de país.

Desde a colonização, a sociedade brasileira foi desenhada sobre uma hierarquia racial rígida. 

A escravidão não foi apenas um regime de trabalho forçado; foi uma pedagogia social. Durante mais de três séculos, o Estado, a Igreja, a economia e a cultura ensinaram — diariamente — quem mandava, quem obedecia, quem valia mais e quem podia ser descartado. 

Quando a escravidão acabou formalmente, em 1888, nada foi feito para desmontar essa lógica. Libertaram-se corpos, mas preservaram-se as engrenagens.

Darcy Ribeiro (1922–1997) foi um dos intelectuais que melhor enxergaram esse impasse fundador. Em tom cortante, afirmava que “a marca mais profunda da sociedade brasileira é o racismo disfarçado, que se recusa a dizer seu nome enquanto organiza todas as desigualdades”

Para Darcy, pessoa que tenho orgulho de ter privado da amizade por longos anos nos tempos em que conversávamos amiúde no Senado, o Brasil não fracassou por excesso de miscigenação, como repetiram elites racistas, mas por nunca ter assumido o dever histórico de integrar plenamente aqueles que construiu como subalternos.

O país aboliu a escravidão sem reforma agrária, sem políticas de integração, sem acesso à educação, sem proteção social. Ao mesmo tempo, incentivou a imigração europeia com o discurso explícito do “branqueamento” da população. 

O recado era claro: negros estavam livres, mas não eram desejados. 

Entendo que é essa a contradição que funda o racismo estrutural brasileiro — um sistema que exclui sem precisar declarar exclusão. 

Existe algo mais perverso do que isso?

Com o passar do tempo, o racismo foi se tornando mais sofisticado. Saiu da lei e entrou nos costumes. Deixou de ser gritado e passou a ser sussurrado. Transformou-se em piada, em suspeita automática, em expectativa rebaixada, em estatística previsível. 

Normalizou-se.

A literatura brasileira tem sido um dos raros espaços onde essa história ganha corpo, voz e memória. O romance Defeito de Cor, da escritora Ana Maria Gonçalves, é exemplar nesse sentido.

O livro narra a trajetória de Kehinde, mulher africana escravizada que atravessa o Atlântico, resiste à violência colonial, reconstrói laços, preserva memória e identidade, revelando a escravidão pelo olhar feminino, negro e insurgente, ausente da história oficial brasileira. Recomendo a leitura e, um tempo depois, a releitura.

A normalização do racismo estrutural é talvez sua face mais cruel. Ele se sustenta porque se apresenta como “ordem natural das coisas”. 

Quando a maioria dos pobres é negra, isso vira “questão social”. 

Quando a maioria dos mortos pela polícia é negra, vira “combate ao crime”. 

Quando a maioria dos presos é negra, vira “mérito negativo”. 

O sistema cria as condições e depois culpa as vítimas pelos resultados.

E esse mecanismo se reproduz de geração em geração não apenas pela herança econômica, mas pela herança simbólica. Crianças negras crescem vendo quem ocupa os lugares de poder, quem é tratado como suspeito, quem aparece nos livros, quem protagoniza as histórias, quem é silenciado. Aprendem cedo que precisam ser duas vezes melhores para chegar à metade. Crianças brancas, por sua vez, aprendem — muitas vezes sem perceber — que seu lugar é o centro, que sua presença é neutra, que seus erros são individuais, nunca coletivos.

O racismo estrutural não precisa de vilões caricatos. Ele funciona com pessoas “de bem”, instituições respeitáveis e discursos aparentemente técnicos. Uma rápida explicação: hoje pega muito mal usar a expressão “pessoa de bem”, porque essas assim rotuladas são exatamente os pigmeus éticos de nossos tempos.

Há momentos, porém, em que o racismo estrutural se revela de corpo inteiro, sem disfarce.

O primeiro deles está na abordagem policial. Jovens negros são parados, revistados, interrogados e mortos em proporções infinitamente superiores às de jovens brancos. Não porque cometem mais crimes, mas porque são vistos como ameaça antes de qualquer ação. O racismo aqui antecede o fato. O corpo negro é lido como risco. A farda apenas executa uma suspeita que a sociedade inteira já ensinou.

O segundo aparece no mercado de trabalho. Pessoas negras, mesmo com escolaridade equivalente, recebem salários menores, ocupam menos cargos de chefia e enfrentam mais barreiras para ascender. Quando chegam ao topo, são tratados como exceção, nunca como regra. 

A competência do negro é sempre colocada sob suspeita; a do branco, presumida. Isso não é coincidência. É estrutura operando em silêncio.

O terceiro se impõe no sistema de justiça. 

A cor da pele influencia quem é preso, quem aguarda julgamento em liberdade, quem recebe penas mais duras. Crimes semelhantes têm desfechos distintos conforme o réu. 

O direito, que deveria ser cego, no Brasil enxerga — e enxerga muito bem. A toga não neutraliza a história; frequentemente a reproduz.

É nesse ponto que a reflexão ética precisa ir além da denúncia sociológica. O sábio persa ‘Abdu’l-Bahá (1844–1921) ofereceu uma metáfora de extraordinária potência simbólica: comparou as pessoas negras à pupila do olho — negra, central, essencial. É por ela que a luz entra. É nela que o mundo se reflete. Embora cercada pelo branco, a pupila é o centro da visão. Assim também a humanidade: sem reconhecer as pessoas negras como núcleo vital, espiritual e histórico, a sociedade perde a capacidade de enxergar a si mesma. 

Não se trata de tolerar o outro, mas de entender que a diversidade humana é o que sustenta e dá sentido à nossa existência coletiva.

Tratar aqui nesse veículo de grande audiência em racismo estrutural, portanto, não é acusar indivíduos isolados, mas questionar uma engrenagem inteira. É compreender que boa vontade não basta, que neutralidade não existe e que silêncio é cumplicidade involuntária. É reconhecer que igualdade formal não corrige desigualdade histórica.

O Brasil só se tornará uma democracia plena quando encarar, sem rodeios, a verdade incômoda: o racismo não é um problema à margem da sociedade. Ele é um dos seus eixos centrais. 

Reconhecê-lo não divide o país. O que divide — há séculos — é fingir que ele não existe.


* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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