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Negros têm 49% mais risco de morrer por homicídio no Brasil, aponta pesquisa

Estudo da USP revela que desigualdade racial persiste mesmo entre pessoas com perfil social e contexto territorial semelhantes

Ato contra o racismo (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

247 - Pessoas negras apresentam um risco significativamente maior de morrer por homicídio no Brasil quando comparadas a pessoas brancas, mesmo em situações em que fatores sociais e territoriais são semelhantes. A conclusão é de um estudo acadêmico que analisou dados nacionais de mortes violentas e utilizou métodos estatísticos avançados para eliminar distorções na comparação entre grupos populacionais. A pesquisa indica que a cor da pele segue sendo um fator determinante na letalidade no país, evidenciando a persistência da desigualdade racial na violência urbana, segundo reportagem da Folha de São Paulo.

O levantamento foi realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e teve como base os registros de homicídios ocorridos em 2022. Ao todo, foram examinados 42.441 casos em todo o território nacional. A análise traçou o perfil das vítimas e mostrou que a maioria era composta por homens, que representaram 91,4% dos mortos. A faixa etária predominante foi a de jovens adultos entre 20 e 59 anos, que responderam por 83,3% das vítimas. Pessoas solteiras e com baixa escolaridade também concentraram a maior parte dos casos.

Do ponto de vista racial, o estudo revelou um cenário ainda mais desigual. Pessoas pardas e pretas somaram quase 78% das vítimas de homicídio registradas no país naquele ano, enquanto pessoas brancas representaram pouco mais de 21% das mortes violentas. A discrepância se torna ainda mais evidente quando os dados são analisados a partir da distribuição territorial da violência.

Para aprofundar a análise, os pesquisadores aplicaram técnicas de georreferenciamento e identificaram áreas com alta e baixa incidência de homicídios. Os municípios foram classificados como hotspots, com grande concentração de mortes violentas, ou coldspots, com taxas significativamente menores. Nos municípios considerados hotspots, a taxa padronizada de homicídios chegou a 43,2 mortes por 100 mil habitantes, número quase cinco vezes superior ao observado nos coldspots, onde a taxa foi de 8,8 por 100 mil.

Nessas áreas de maior violência, a desigualdade racial se mostrou ainda mais acentuada. Quase 90% das vítimas de homicídio nos hotspots eram pessoas negras, com predominância de pessoas pardas. O mapeamento espacial indicou que essas regiões mais violentas se concentram principalmente no Nordeste, além de áreas do Norte e de partes específicas da Amazônia. Em contraste, municípios das regiões Sul e Sudeste aparecem majoritariamente entre aqueles com os menores índices de homicídio.

Para verificar se o fator geográfico, por si só, explicaria a diferença racial nas mortes violentas, os autores recorreram a uma técnica estatística conhecida como escore de propensão. O método permite comparar grupos de pessoas com características equivalentes, considerando variáveis como sexo, idade, escolaridade, estado civil e tipo de município onde ocorreu o óbito. Mesmo após esse ajuste rigoroso, a cor da pele permaneceu associada a um risco mais elevado de homicídio.

No cenário mais conservador da análise, pessoas negras apresentaram 49% mais chance de morrer por homicídio do que pessoas brancas. Em modelos estatísticos menos restritivos, essa probabilidade chegou a ser duas vezes maior. Para os pesquisadores, os resultados reforçam a ideia de que a morte violenta no Brasil tem um padrão seletivo, atingindo de forma desproporcional a população negra.

O estudo também destaca que a combinação entre análise territorial e métodos estatísticos amplia a compreensão do fenômeno da violência letal. Segundo os autores, esse tipo de abordagem permite identificar áreas prioritárias para a formulação de políticas públicas e demonstra que a desigualdade racial persiste mesmo quando outras variáveis sociais são controladas.

Além disso, a pesquisa aponta a existência de possíveis vazios estatísticos: regiões cercadas por municípios violentos, mas que não se enquadram claramente como áreas de alta ou baixa incidência de homicídios. Esses vazios podem refletir tanto o efeito de políticas locais de segurança quanto problemas de subnotificação de ocorrências. Para os pesquisadores, incorporar de forma sistemática análises espaciais à avaliação dos dados de mortalidade pode contribuir para uma distribuição mais eficiente de recursos e para estratégias mais eficazes de enfrentamento da violência letal no Brasil.

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