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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Copom adota tom cauteloso e indica juros elevados por mais tempo em meio a pressões inflacionárias

Postura do Banco Central reflete cautela diante de inflação resistente, riscos fiscais e cenário externo volátil, indicando cortes de juros mais lentos

Prédio do Banco Central em Brasília 11/06/2024 REUTERS/Adriano Machado

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (24), reforçou uma mensagem que já vinha sendo sinalizada pelo Banco Central: embora o ciclo de queda da taxa de juros tenha sido iniciado, a política monetária deverá permanecer restritiva por um período prolongado.

Após a redução da taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano, a expectativa do mercado é de novos cortes graduais nas próximas reuniões. Ainda assim, o documento indica que o ritmo de flexibilização será limitado pelas condições inflacionárias e pelo ambiente de incerteza, tanto no Brasil quanto no exterior.

Um dos principais pontos de atenção destacados pelo Copom é a deterioração das expectativas de inflação, que voltaram a subir para horizontes mais longos. Esse movimento é visto como um fator de risco relevante, na medida em que dificulta o processo de convergência da inflação para a meta.

Apesar de sinais de desaceleração da atividade econômica ao longo dos últimos meses, o Banco Central observa que o mercado de trabalho segue aquecido. A combinação de renda em alta e inflação de serviços persistente indica que ainda há pressão do lado da demanda, o que reforça a necessidade de manter os juros em nível elevado.

Dados recentes, no entanto, mostram uma leve recuperação da atividade no início do ano, especialmente em janeiro, o que adiciona complexidade ao cenário. Para o Copom, esse comportamento reforça a avaliação de que a economia segue resiliente, ainda que em trajetória de moderação.

Outro ponto de preocupação é o risco fiscal. A ata menciona a possibilidade de aumento da demanda agregada via expansão de gastos públicos, o que poderia pressionar ainda mais a inflação, elevar a trajetória da dívida pública e afetar o comportamento do câmbio.

No cenário externo, o agravamento das tensões no Oriente Médio trouxe novos elementos de incerteza. A recente alta do preço do petróleo, que voltou a se aproximar de US$ 105 por barril, pode gerar impactos adicionais sobre a inflação global e doméstica, especialmente por meio dos preços de combustíveis.

Além disso, o Copom também observa os efeitos de políticas comerciais mais restritivas, como as medidas tarifárias associadas ao ex-presidente Donald Trump, que contribuem para um ambiente internacional mais volátil.

Nesse contexto, o Banco Central sinaliza que deverá manter uma postura conservadora na condução da política monetária, priorizando a ancoragem das expectativas de inflação, mesmo diante de sinais de desaceleração econômica.

A próxima reunião do Copom já deverá incorporar, de forma mais completa, os efeitos recentes do choque nos preços do petróleo. Antes disso, o mercado acompanhará a divulgação do Relatório de Política Monetária, prevista para quinta-feira, que trará mais detalhes sobre os cenários e projeções da autoridade monetária.

Também está no radar a divulgação do IPCA-15, que fornecerá uma leitura atualizada da inflação no período de meados de fevereiro a meados de março, sendo um indicador relevante para calibrar as expectativas sobre os próximos passos da política monetária.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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