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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Cuba sob asfixia e a pergunta de Primo Levi: "é isto um homem?"

Quando o cerco econômico deixa de ser diplomacia e passa a operar como punição coletiva em escala continental

Bandeiras dos Estados Unidos e de Cuba (Foto: Alexandre Meneghini/Reuters)

Em É isto um homem?, — título do livro referência global sobre o Holocausto —, o escritor italiano Primo Levi vai além de um depoimento sobre horrores já conhecidos.  

Sobrevivente de Auschwitz, Levi formulou uma pergunta que atravessaria gerações: é isto um homem? Não era apenas uma pergunta sobre os carrascos. Era sobre o sistema que permite que a desumanização se torne política de Estado. 

Décadas depois, essa interrogação ressurge em outro cenário. Não nos campos de extermínio da Europa, mas no Caribe. Não com câmaras de gás, mas com sanções, bloqueios e estrangulamento econômico. 

Diante do recrudescimento do embargo de mais de 60 anos contra Cuba — intensificado por medidas recentes do governo dos Estados Unidos — a pergunta retorna com força incômoda: 

Quando uma potência global decide asfixiar economicamente um país inteiro, atingindo energia, transporte, saúde e alimentação, que tipo de humanidade sustenta essa política? 

Que tipo de política exige esse custo humano? 

É isto um homem? 

Ou estamos diante de uma forma prolongada de punição coletiva contra um povo inteiro? 

O embargo na vida real: energia, comida e sobrevivência 

O embargo a Cuba não é um conceito diplomático abstrato. Ele se manifesta no cotidiano. 

Falta combustível → falta transporte. 

Falta transporte → falta alimento. 

Falta energia → hospitais entram em crise. 

Falta o essencial à vida. 

A crise energética recente marca um ponto de inflexão. A interrupção do petróleo que historicamente vinha da Venezuela — agravada por pressões externas para impedir novos fornecedores — lançou a ilha em uma fase aguda de escassez. 

Sem combustível suficiente: 

apagões se multiplicam; 

voos são cancelados; 

a distribuição de alimentos se torna irregular; 

serviços públicos entram em regime de emergência; 

hospitais operam sob tensão permanente. 

Não é apenas economia. É infraestrutura civil básica. Energia é o sistema nervoso de qualquer sociedade. Quando ela falha, a vida civil entra em colapso. 

A população cubana vive há décadas sob restrições financeiras e comerciais que encarecem importações e dificultam acesso a crédito e tecnologia médica. O recrudescimento recente transformou esse quadro em crise aberta. 

E o ponto central é este: o embargo não atinge apenas um governo. 

Atinge a vida cotidiana de milhões de homens, mulheres, idosos e crianças. 

O bloqueio ao petróleo e a nova fase do cerco 

A fase atual do cerco não é apenas financeira ou comercial. Ela é energética. Após a interrupção do envio de petróleo venezuelano e o endurecimento das sanções norte-americanas, Washington deixou claro que pretende impedir que outros países abasteçam Cuba. 

Na prática, criou-se um bloqueio indireto global. Qualquer país que forneça petróleo à ilha pode sofrer sanções, tarifas ou retaliações financeiras. Não é preciso proibir formalmente. Basta tornar arriscado demais ajudar. O resultado é um sistema de dissuasão que vai além da relação bilateral EUA-Cuba. 

É um cerco que tenta impedir terceiros de aliviar a crise. 

Quem ajuda — e quem não ajuda 

Venezuela — Foi, por décadas, a principal fornecedora de petróleo para Cuba. Com a interrupção do envio, a base energética da ilha colapsou.  

Rússia — Anunciou disposição para enviar combustível e aliviar a escassez. A ajuda existe, mas é cercada por cautela diplomática e pressão externa. 

China — Mantém cooperação econômica e crédito. Ajuda a amortecer impactos, mas atua com cautela diante do risco de sanções secundárias.                                       

Espanha e México também estão na lista dos principais países que fornecem algum tipo de ajuda humanitária ao povo cubano. 

O Brasil não enviou petróleo a Cuba até o momento. Não por incapacidade técnica, mas porque o novo cerco energético tornou qualquer envio potencial alvo de retaliação. Há pressões políticas internas. Há debate sobre cooperação humanitária. Mas o custo de desafiar o cerco é alto.                                                                           A Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), representando a força de trabalho que move a Petrobras, convocou a classe trabalhadora para erguer uma campanha no sentido de pedir ao governo brasileiro que desenvolva ação de solidariedade concreta: “o fornecimento imediato de petróleo e combustíveis à Cuba.” 

Mais médicos: quem ajudou quem 

Há um contraste raramente enfatizado. Mesmo sob embargo, Cuba construiu uma das maiores redes de cooperação médica do mundo. Médicos cubanos atuaram em dezenas de países pobres. 

No Brasil, o programa Mais Médicos levou profissionais a regiões aonde o Estado não chegava. A cooperação foi interrompida no governo Bolsonaro e retomada em 2023. Ou seja: um país sob sanções continuou exportando serviços de saúde para o mundo mais vulnerável. 

Agora, esse mesmo país enfrenta escassez de combustível e insumos básicos. E clama por ajuda. A ironia geopolítica é brutal. 

A dimensão continental: disciplina geopolítica 

A política externa norte-americana volta-se com intensidade renovada para o Caribe. O alvo imediato é Cuba. O sinal é regional. Não se trata de ameaça militar. 

Trata-se de controle geopolítico. Cuba simboliza autonomia no hemisfério. 

E símbolos importam. O endurecimento do cerco envia mensagem clara: 

quem desafia a ordem econômica dominante pode enfrentar estrangulamento prolongado. Sanções tornam-se instrumento de disciplina continental. 

E a mensagem é inequívoca: autonomia tem custo. 

O jornalista Breno Altman, em entrevista divulgada na terça-feira, 17, alertou: “O troféu que Trump e a direita norte-americana desejam não é Venezuela, não é Colômbia, é Cuba.” E ressalta que Cuba tem um lugar estratégico no avanço das pressões dos Estados Unidos na América Latina 

Ao final da análise, o Breno alerta que, mesmo sem clareza sobre os próximos passos de Washington, Cuba entrou definitivamente no centro da disputa geopolítica atual. “Eu não tenho dúvida que Cuba passa a ser a bola da vez”, concluiu, ao apontar que a ilha enfrenta um cenário de crescente pressão no contexto da política externa dos Estados Unidos. 

Genocídio ou não? 

Nenhum tribunal internacional declarou que o embargo a Cuba constitui genocídio. A definição jurídica exige intenção específica de destruir um grupo nacional. Mas o debate não se encerra aí. 

A pergunta de Primo Levi que volta do século XX

É nesse ponto que a pergunta de Primo Levi deixa de ser apenas memória histórica e volta a ser interrogação do presente. O título do seu livro É isto um homem? não é apenas uma pergunta literária. É uma interrogação moral dirigida à própria condição humana quando a desumanização passa a ser administrada como política de Estado.

Ao formulá-la, Primo Levi falava dos prisioneiros reduzidos à degradação extrema, mas também do sistema que tornava isso possível. Auschwitz não foi apenas um lugar. Foi um método de demolição do humano. Essa pergunta retorna sempre que políticas deliberadas produzem sofrimento massivo previsível e prolongado.

Não se trata de equiparar contextos históricos distintos.

Trata-se de reconhecer mecanismos. Quando decisões de Estado empurram populações inteiras para a escassez estrutural de energia, alimentos, medicamentos e mobilidade; quando a infraestrutura civil se torna alvo indireto de pressão geopolítica; quando o cotidiano de milhões passa a depender de decisões tomadas fora de seu território; a pergunta de Levi volta a ecoar.

E quando colocada diante de decisões que produzem sofrimento previsível e persistente, ela deixa de ser apenas memória histórica e volta a ser julgamento do presente:

É isto um homem?

No cenário atual de estrangulamento econômico imposto a Cuba, intensificado pelo bloqueio energético e pela tentativa de impedir que terceiros países abasteçam a ilha, essa pergunta ganharia destinatários políticos concretos. Entre eles, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo governo determinou o recrudescimento das medidas que atingem, há 60 anos, diretamente a vida de milhares de homens, mulheres, idosos e crianças cubanas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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