Da América de Hamilton à China moderna: o papel das tarifas na construção do poder econômico
Uso inteligente e focado de barreiras comerciais pode ser compatível com o desenvolvimento econômico sustentável e com maior soberania industrial para o Brasil
A decisão do governo brasileiro de elevar impostos de importação sobre cerca de 1.250 produtos — sobretudo máquinas, equipamentos industriais e itens de tecnologia — é uma resposta estratégica à crescente dependência de importações e ao esvaziamento da capacidade produtiva doméstica. Produtos importados já representam níveis elevados no consumo desses bens, ameaçando a base industrial do país e a segurança produtiva nacional. Essa medida não é isolada nem arbitrária: ela se insere numa lógica de política industrial ativa, em que o Estado usa instrumentos de comércio para preservar e fortalecer setores considerados estratégicos à soberania econômica.
Esse tipo de política tem precedentes históricos sólidos. No final do século XVIII, Alexander Hamilton, primeiro Secretário do Tesouro dos EUA, argumentou que um país recém-independente precisava proteger “indústrias nascentes” para não ficar permanentemente preso à exportação de matérias-primas e à importação de produtos manufaturados mais avançados. Hamilton defendia tarifas temporárias sobre produtos importados justamente para dar tempo às indústrias locais se desenvolverem e alcançarem escala e competitividade. Sem essa proteção inicial, jovens economias ficam vulneráveis à concorrência externa dos países já industrializados.
Experiências europeias reforçam essa lógica. No Reino Unido, por exemplo, políticas protecionistas foram utilizadas sob monarcas como Henrique VII e mais tarde no início do crescimento industrial inglês para incentivar a manufatura doméstica de tecidos e outros bens, evitando que o país se tornasse um mercado puramente consumidor de produtos estrangeiros. Essa estratégia histórica mostra que barreiras tarifárias, quando bem calibradas, podem ser usadas para construir capacidades produtivas internas antes de uma integração mais aberta ao comércio global.
A Alemanha também empregou políticas semelhantes em sua trajetória de industrialização e consolidação econômica. No século XIX, tarifas protecionistas sobre produtos importados ajudaram a proteger a nascente indústria alemã frente às potências mercantis de então, contribuindo para o surgimento de um parque fabril competitivo em setores como siderurgia e engenharia pesada. Mais recentemente, economias como a China combinaram tarifas com subsídios e políticas dirigidas de investimento público e privado para acelerar a modernização tecnológica e ganhar participação em mercados de alta tecnologia e capital intensivo.
Portanto, a medida brasileira de reequilibrar impostos de importação deve ser interpretada não como um retorno acrítico ao protecionismo do passado, mas como um instrumento pragmático de política industrial contemporânea: ela busca proteger capacidades produtivas estratégicas, reduzir vulnerabilidades de dependência externa e estimular a produção local de bens de maior valor agregado. Ao situar essa política no contexto histórico de Estados-nação que usaram tarifas de forma temporariamente estratégica — de Hamilton aos casos europeus e asiáticos — fica claro que um uso inteligente e focado de barreiras comerciais pode ser compatível com o desenvolvimento econômico sustentável e com maior soberania industrial para o Brasil no longo prazo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



