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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Da arquibancada à transmissão: a reinvenção televisiva da Copa do Mundo

O futebol tornou-se espetáculo de massas. Por essa condição, evidentemente, ele não escaparia a essa lógica da espetacularização pelo capital

Copa do Mundo de 2026 (Foto: Bredan Mcdermid/Reuters)
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Durante o século XX, os pensadores da chamada Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno e Max Horkheimer, já alertavam para os impactos daquilo que denominaram “indústria cultural”: a transformação da cultura em mercadoria padronizada, produzida em larga escala para consumo das massas. Décadas depois, em 1967, o filósofo francês Guy Debord radicalizaria essa interpretação ao afirmar que o próprio conjunto da vida social havia sido capturado pela lógica da representação e das imagens. Em A Sociedade do Espetáculo, Debord sustenta que as relações humanas passam a ser mediadas pelo consumo permanente de representações, transformando a realidade em espetáculo.

O futebol tornou-se espetáculo de massas. Por essa condição, evidentemente, ele não escaparia a essa lógica da espetacularização pelo capital. A Copa do Mundo contemporânea talvez seja uma das expressões mais acabadas daquilo que Debord identificou ainda nos anos 1960. O torneio já não pode ser compreendido apenas como uma competição esportiva. Trata-se de um acontecimento midiático global, planejado em detalhes para o consumo audiovisual em escala planetária.

Hoje, dezenas de câmeras espalhadas pela “arena” de jogo capturam cada movimento dos atletas, da comissão técnica e da torcida. A própria ideia de “estádio” parece insuficiente para definir os espaços do futebol moderno. Hoje, as arenas são construídas para atender prioritariamente às exigências da televisão, das plataformas digitais, dos patrocinadores e da indústria do entretenimento.

O árbitro de vídeo possui suas próprias imagens, ângulos e interpretações. Nada pode escapar à lógica da revisão permanente. Tudo deve ser reproduzido em câmera lenta, ampliado em alta definição e transformado em conteúdo instantâneo. Não por acaso, os cartões amarelo e vermelho foram incorporados ao futebol justamente para facilitar a comunicação universal nas transmissões televisivas no final dos anos 1960. Os uniformes são desenhados para melhorar a identificação dos jogadores pelos narradores e telespectadores. A bola precisa ter destaque na tela. O gramado deve parecer impecável. Até as comemorações já nascem pensando na câmera correta.

Ser um espetáculo tornou-se parte estrutural do futebol

A Copa do Mundo movimenta bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade, marketing esportivo, apostas e engajamento digital. Cada partida é simultaneamente jogo, produto e evento midiático. Cada jogador é também uma marca global. Cada torcedor transforma-se em audiência, consumidor e produtor de conteúdo.

Talvez a Copa do Mundo ainda preserve algo que o futebol globalizado não conseguiu dissolver completamente: a capacidade de mobilizar símbolos nacionais, memórias coletivas e sentimentos de pertencimento. As bandeiras continuam ocupando as arquibancadas, os hinos ainda emocionam multidões e as cores nacionais seguem funcionando como elementos de identificação popular em escala planetária. A velha ideia da “pátria de chuteiras”, formulada por Nelson Rodrigues, permanece viva no imaginário das Copas do Mundo. Mesmo em um futebol profundamente mercantilizado, globalizado e cada vez mais padronizado taticamente, o torneio ainda consegue despertar paixões nacionais e produzir a sensação de que, durante noventa minutos, um país inteiro entra em campo. Talvez resida aí uma das forças mais singulares da Copa: transformar um produto global da indústria do entretenimento em experiência coletiva de identidade, memória e emoção popular.

As redes sociais aprofundaram ainda mais essa dinâmica. O jogo não termina no apito final. Ele continua em cortes de vídeo, memes, análises instantâneas, campanhas publicitárias e debates intermináveis nas plataformas digitais. O futebol passou a existir também como fluxo contínuo de imagens e narrativas.

Entretanto, há uma contradição importante nesse processo. O espetáculo não destrói completamente a essência popular do futebol.  Ele depende dela para sobreviver. A emoção autêntica das torcidas, o improviso do drible, o sofrimento coletivo da derrota e a explosão emocional do gol continuam sendo a matéria-prima indispensável da indústria esportiva.

O capital transforma o futebol em mercadoria justamente porque milhões de pessoas ainda o vivenciam como paixão verdadeira. No fundo, a Copa do Mundo contemporânea revela uma das marcas mais profundas do nosso tempo. Já não basta que o futebol aconteça, ele precisa ser permanentemente exibido, narrado, reproduzido e consumido em escala global. O espetáculo tornou-se parte inseparável do jogo.

Ainda assim, existe algo que escapa. Nenhuma câmera consegue prever completamente o improviso de um drible, a dramaticidade de um gol decisivo ou a emoção coletiva que atravessa milhões de pessoas ao mesmo tempo. É justamente nessa tensão entre mercadoria e paixão popular, entre espetáculo e experiência humana, que o futebol continua preservando sua força cultural e política.

Talvez seja essa a grande contradição da Copa do Mundo no século XXI. Ao mesmo tempo em que representa uma das expressões mais sofisticadas da indústria global do entretenimento, ela ainda mobiliza sentimentos genuínos, identidades coletivas e formas de pertencimento que não podem ser totalmente reduzidas à lógica do mercado.

Quando a bola rola, o espetáculo começa. Mas o futebol, felizmente, ainda consegue ser maior do que ele.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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