Dados de varejo surpreendem nos EUA e no Brasil
Economias resilientes, com consumo surpreendentemente forte, o que tende a limitar o espaço para cortes de juros tanto no Fed quanto no Banco Central do Brasil
Os setores de varejo dos Estados Unidos e do Brasil registraram resultados acima do esperado em suas mais recentes divulgações, reforçando a resiliência das duas economias diante de um cenário de pressão inflacionária e juros elevados.
Nos Estados Unidos, o índice de vendas no varejo de abril avançou 0,5% — em linha com as projeções —, mas o dado excluindo automóveis surpreendeu ao subir 0,7%, elevando a variação anual ao maior patamar em oito meses. O resultado contrasta com o ambiente de preços em alta: os índices de inflação ao consumidor e ao produtor registraram avanços de 6% e acima de 3% em termos anualizados, respectivamente, reflexo do choque disseminado de preços decorrente da alta do petróleo.
O dado robusto de varejo aumenta a probabilidade de que o Federal Reserve mantenha os juros no patamar atual por mais tempo — e, para alguns analistas, já começa a abrir espaço para uma discussão sobre eventual alta. O cenário ganha contornos adicionais com a confirmação, pelo Senado americano, de Stephen Mirren como novo presidente do Fed em substituição a Kevin Warsh. Ao contrário do antecessor, Mirren é visto como um perfil mais hawkish, o que reforça a percepção de que o banco central americano não deverá afrouxar a política monetária no curto prazo.
No Brasil, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada pelo IBGE, apontou alta de 0,5% no varejo restrito em março na comparação com fevereiro, com ajuste sazonal — terceira leitura positiva consecutiva. Na comparação anual, o avanço foi de 4%, bem acima da mediana das expectativas, que era de 2,8%. O varejo ampliado — que inclui veículos e material de construção — também veio forte, com ambos os segmentos em máximas históricas.
Das oito atividades pesquisadas, cinco registraram crescimento, com destaque para material de informática, produtos farmacêuticos, veículos, material de construção e atacado de alimentos. O resultado consolida uma visão positiva para o PIB do primeiro trimestre, que caminha para algo próximo de 0,5% de crescimento na comparação trimestral — trajetória reforçada também pelo desempenho favorável da produção industrial em março.
A força do consumo doméstico, mesmo diante de uma Selic estratosférica, é atribuída em parte ao robusto conjunto de transferências de renda do governo federal — que incluem programas como o Pé de Meia, Gás para Todos, Minha Casa Minha Vida reformado e a proposta de isenção do Imposto de Renda. Esses mecanismos sustentam a demanda das famílias de menor renda e mantêm o consumo aquecido, desafiando o efeito contracionista esperado da política monetária.
O panorama dos dois países aponta na mesma direção: economias resilientes, com consumo surpreendentemente forte, o que tende a limitar o espaço para cortes de juros tanto no Fed quanto no Banco Central do Brasil. No caso brasileiro, o mercado já precifica a Selic em torno de 14% ao ano como patamar terminal do atual ciclo de aperto monetário.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




