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Fernando Horta

Fernando Horta é historiador

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Das estranhas coincidências que assolam a América Latina

"Tenho insistido que a soberania tecnológica deixou de ser um tema de especialistas para se tornar a questão material de que dependem todas as demais"

Das estranhas coincidências que assolam a América Latina (Foto: IA / Brasil 247)
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Houve um tempo em que a América Latina inteira pareceu adoecer da mesma febre ao mesmo tempo. Brasil em 1964. Bolívia em 1971. Uruguai e Chile em 1973. Argentina em 1976. Some-se a isso o Paraguai de Stroessner, que vinha de antes e atravessaria tudo, a longa série de golpes peruanos, os regimes centro-americanos sustentados a ferro. Entre meados dos anos 1960 e meados dos 1970, um continente que ia da fronteira mexicana à Patagônia caiu, peça por peça, sob botas militares. Na época, explicaram-nos que era reação. Reação popular e institucional à ameaça comunista, dizia-se, como se cada país tivesse, por conta própria e por puro instinto de sobrevivência, chegado à mesma conclusão e tomado a mesma providência no mesmo intervalo de poucos anos. Uma coincidência, portanto. Uma notável, simétrica, conveniente coincidência.

Demorou, mas a história desmontou a coincidência. Com a abertura de arquivos, o trabalho de comissões da verdade e décadas de pesquisa documental, o que era apresentado como espasmo defensivo de sociedades amedrontadas revelou-se outra coisa: um programa. Havia um esforço coordenado — hoje chamaríamos de regime change, termo que então sequer existia — pelo qual o governo dos Estados Unidos financiou desestabilização onde lhe convinha. Dinheiro para protestos. Dinheiro para agitadores. Dinheiro e cobertura para golpes. Pressão sobre instituições, compra e captura de meios de comunicação, mobilização de setores da Igreja católica como aríete ideológico, listas de pessoas a serem eliminadas, treinamento de torturadores, articulação de polícias políticas que mais tarde se coordenariam na Operação Condor. Os golpes militares na América Latina não foram coincidência. As ditaduras não foram coincidência. Foram produzidas, e há papel timbrado provando.

Vale recuperar, a título de método, um episódio anterior e geograficamente distante, porque ele ilumina o que veio depois. No Vietnã do Sul, no começo da Guerra Fria, os Estados Unidos não se contentaram em escolher o lado anticomunista — fabricaram-lhe a vitória. No referendo de 1955 que destituiu o imperador Bao Dai e entronizou Ngo Dinh Diem, a contagem oficial deu a Diem números fisicamente impossíveis: em Saigon, mais votos do que eleitores registrados, com totais que ultrapassavam em centenas de milhares o eleitorado existente. Cédulas falsificadas, urnas infladas, um resultado coreografado de fora para dentro. O ponto não é a fraude em si, que foi grosseira; é a doutrina que ela inaugura. Quando a urna não entrega o resultado desejado, fabrica-se o resultado e chama-se aquilo de democracia. A democracia vira embalagem; o conteúdo é decidido alhures.

O ensaio venezuelano

Tenho escrito, ao longo dos últimos meses, sobre a Venezuela — e não apenas sobre os bloqueios e sanções que já a sufocavam há anos, corroendo salários a poucos dólares mensais e empurrando milhões para o exílio econômico. O que me interessava descrever era algo mais novo, uma engenharia de intervenção eleitoral que parecia menos um improviso e mais um protótipo. O roteiro, tal como o reconstruí, tem etapas reconhecíveis. Primeiro, a descredibilização sistemática do sistema eleitoral do país-alvo, repetida à exaustão muito antes de qualquer voto ser depositado, para que a derrota da oposição já chegue pré-explicada como fraude. Segundo, o financiamento de uma oposição apresentada como legítima — suas ações ilegais escondidas, seus quadros pintados como puros defensores da democracia. Terceiro, no dia da eleição, a perturbação técnica: um ataque cibernético que altere ou apenas atrase a totalização, porque o atraso já basta para injetar incerteza onde deveria haver número. E, por fim, o não reconhecimento do resultado, agora "justificado" pela incerteza fabricada nas etapas anteriores, forçando a troca de regime.

Na Venezuela o plano não fechou — não por virtude do desenho, mas por dois acidentes. Maduro agiu com dureza direta, e a oposição era frágil, sem o lastro popular que a propaganda lhe atribuía. Ainda assim, vimos as engrenagens girando. "Especialistas" em estatística foram contratados para produzir relatórios que, quando se olhava de perto, não encontravam sustentação nos fatos que diziam analisar. E, do dia para a noite, a oposição materializou um "repositório" de atas que supostamente provaria a fraude do governo — um acervo montado às pressas que, examinado, vinha ele próprio recheado de adulterações: atas inconsistentes, assinaturas que não fechavam, mesas e pessoas que não batiam. A prova da fraude alheia estava, ela mesma, fraudada. O detalhe não é menor. Numa disputa em que o resultado se decide pela credibilidade dos registros, fabricar registros é a própria arma.

E, como se sabe, o episódio venezuelano não terminou na urna. Terminou em janeiro de 2026 com bombardeios sobre Caracas e a extração de Maduro do país, levado por agentes da DEA a uma cela em Nova York. Diante do tribunal, ele resumiu o que ocorrera numa frase: disse que fora sequestrado e que seguia sendo o presidente. Sequestrado é a palavra exata para o gesto — o ponto extremo a que o império recorre quando as etapas anteriores não bastam para fazer valer seus interesses.

Peru e Colômbia, à luz do que já vimos

Olhemos agora para duas eleições recentíssimas com esse aprendizado na mão.

Há uma diferença de tom que precisa ser registrada antes de tudo. Nos anos 1960 e 1970, a ingerência era envergonhada, negada, escondida atrás de eufemismos. Hoje não há mais pudor. Perguntado sobre o Brasil depois do G7, Trump declarou, com a franqueza de quem não teme registro, que jogam pesado por aqui — "mas ninguém joga mais pesado do que os Estados Unidos". Disse que o Brasil ficou "perigoso politicamente". A ameaça é dita em voz alta, em entrevista, sem rodeios. O que antes exigia arquivos secretos para ser provado agora é anunciado em coletiva.

A Colômbia é o caso que mais se aproxima do roteiro. Iván Cepeda, do Pacto Histórico, chegou favorito e terminou derrotado no segundo turno por margem mínima: 49,66% contra 48,70% para Abelardo de la Espriella. E quem é o vencedor? Um advogado-empresário outsider que se apresenta como "El Tigre", sócio de escritório com sede em Miami, portador de tripla nacionalidade — entre elas a norte-americana — e apoiado publicamente por Trump e por figuras do Partido Republicano. O fiel da balança foi o voto do exterior, e em especial o dos Estados Unidos, onde residia o maior contingente de colombianos habilitados e onde De la Espriella varreu com 72% no primeiro turno. Uma eleição decidida no detalhe, com o detalhe vindo de fora. O presidente Petro questionou o processo, apontando atas subindo ao sistema sem a assinatura dos jurados; a Registraduría sustentou a lisura. Mas a forma do desfecho — esquerda à frente, derrota apertada, voto externo decisivo, vencedor com cidadania e padrinho estadunidenses — desenha um contorno familiar.

O Peru completa o quadro por um caminho distinto. Lá o esgotamento institucional já vinha de antes e independe de qualquer ciclo externo: oito presidentes em dez anos, vacância virada rotina, um país onde derrubar o ocupante do Palácio se tornou hábito parlamentar. Mas a eleição de 2026 trouxe os mesmos sintomas que aprendemos a reconhecer. O segundo turno foi decidido no fio da navalha — pouco mais de duas décimas de ponto separando os finalistas. A apuração, lenta e atravessada de denúncias, levou horas a mais do que o previsto para cruzar limiares triviais; mesas abriram com horas de atraso, algumas só votaram no dia seguinte, num episódio sem precedentes; o chefe da autoridade eleitoral renunciou sob acusação de fraude que ninguém comprovou com documento. E, de novo, o voto do exterior pesando num resultado que de outro modo seria indistinguível de um empate. Acrescente-se que tanto o Peru quanto a Colômbia operam sistemas eleitorais menos robustos que o brasileiro e, sobretudo, dependentes de tecnologia e de empresas estrangeiras para transportar os pacotes de informação eleitoral de um ponto a outro da contagem. Não digo que houve fraude nessas duas eleições. Digo que a arquitetura está montada para que, se houvesse, seria difícil prová-la — e que isso, por si só, deveria nos deixar atentos.

A soberania que se decide na urna

Tenho insistido, em outros textos, que a soberania tecnológica deixou de ser um tema de especialistas para se tornar a questão material de que dependem todas as demais. Na seara eleitoral, ela é simplesmente decisiva. Um sistema de votação não é só a urna onde se aperta o botão; é toda a cadeia que carrega o resultado dali até a totalização nacional — os pacotes de dados, os trechos de transmissão, os servidores, o software que conta e o software que transporta. Quando qualquer elo dessa cadeia roda sobre tecnologia controlada por empresas estrangeiras, a contagem deixa de ser inteiramente nacional. E aqui está o ponto que deveria tirar o sono de quem governa: numa eleição decidida por décimos, não é preciso adulterar uma nação inteira de votos. Meia dúzia de seções. Meia dúzia de pacotes de informação modificados ou atrasados na transmissão. Isso basta para roubar uma eleição inteira sem que quase ninguém perceba, porque o crime se esconde exatamente na margem onde o resultado já era apertado.

Sei como isso soa. Soa a paranoia, a teoria da conspiração. Mas convém lembrar quem mais ouviu esses mesmos adjetivos. Foram exatamente as palavras usadas, nos anos 1960 e 1970, contra quem apontava a mão norte-americana por trás dos golpes — e que estavam certos, como os arquivos depois mostraram. Foram as palavras com que se desqualificou, na própria ONU, quem denunciou a fraude nas eleições asiáticas do início da Guerra Fria — fraude que era real. "Conspiração" tem sido, com notável frequência, o nome que se dá à verdade antes de ela ter documentos. Os documentos costumam chegar; chegam tarde, quando o estrago já se consumou e os responsáveis já morreram em suas camas.

Por isso desconfio que guardamos surpresas para um futuro próximo. Esta nova onda de vitórias "apertadas" da extrema direita pela América Latina — sempre no detalhe, sempre no voto de fora, sempre com o vencedor sorrindo para o norte — talvez venha a ser lida, daqui a alguns anos, com a mesma clareza retrospectiva com que hoje lemos 1964 ou 1973. Embaladas, agora, por uma submissão digital que o continente sequer percebe que aceitou. A coincidência, afinal, raramente se repete tantas vezes seguidas no mesmo sentido. Quando isso acontece, costuma ser porque nunca foi coincidência.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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