A Guerra do Paraguai ao contrário
'O que Trump, Rubio, Milei e Peña ensaiam contra a soberania brasileira', analista o colunista Fernando Horta
Há um vício na maneira como o Brasil lê Donald Trump: tratamos o fato dele ser errático como sinônimo de irracionalidade. Quem ele chama de amigo pela manhã pode ser inimigo à tarde, e a lista de parceiros e ameaças aos Estados Unidos parece depender do café da manhã do presidente. Tudo isso é verdade. Mas confundir volatilidade de estilo com ausência de estratégia é o erro analítico mais perigoso que podemos cometer neste momento. Trump não é burro — e aprendeu, no Oriente Médio, uma lição precisa sobre como mover um adversário regional sem disparar o gatilho de uma guerra ampla.
A lição é cirúrgica: para golpear um país relevante de um bloco como os BRICS sem que o bloco reaja, bastam três ingredientes. Primeiro, algum apoio das elites internas do próprio país-alvo. Segundo, duas ou três mentiras convertidas em “teses” de circulação internacional, repetidas à exaustão em redes cujos algoritmos amplificam o que é conveniente a Washington. Terceiro, dois ou três vizinhos dispostos a emprestar território, retórica e, no limite, exércitos. É exatamente esse tabuleiro que se monta na América do Sul — e o roteiro tem um nome histórico que deveríamos reconhecer de imediato.
Os três movimentos da semana
Tomemos os fatos, não as impressões. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado classificou Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, com a designação de “organizações terroristas estrangeiras” entrando em vigor em 5 de junho. No dia 2 de junho, o USTR divulgou a determinação da investigação da Seção 301 sobre o Brasil — investigação aberta em julho de 2025 e cujo cardápio inclui, nominalmente, “comércio digital e serviços de pagamento eletrônico”, isto é, o PIX —, com audiência marcada para 6 de julho e prazo estatutário de ação em 15 de julho. E, no mesmo 2 de junho, em audiência no Senado, Marco Rubio listou o Brasil entre as exceções à América Latina “repleta de aliados” dos EUA, ao lado de Venezuela, Nicarágua e Cuba.
Três movimentos, três frentes: a criminalização (o Brasil como santuário de terroristas), a economia (o Brasil como praça desleal, com o PIX no centro) e a diplomacia (o Brasil como pária regional alinhado às “autocracias” do continente). Quem insiste em ler cada peça isoladamente perde o desenho. Juntas, elas não descrevem três irritações comerciais avulsas; descrevem a construção deliberada de um casus belli político.
Por que “Guerra do Paraguai ao contrário”
A Guerra do Paraguai comporta leituras divergentes. Quer se aceite a tese de Francisco Doratioto, que relativiza o papel britânico, ou a de Júlio José Chiavenato, que o enfatiza, é difícil negar que o Brasil operou, em alguma medida, como instrumento do hegemon da época — a Inglaterra — para o exercício de controle sobre o Prata. E é indiscutível que, no Paraguai, a perspectiva lopista se sustenta até hoje: Solano López é herói e mártir, e o país nunca processou plenamente o que viveu como genocídio brasileiro. Essa memória não é folclore; é capital político disponível.
A inversão que proponho é esta: desta vez o Paraguai — somado à Argentina de Milei — ocuparia o lugar do alinhado ao hegemon, montaria uma coligação ao seu redor e devolveria ao Brasil uma “derrota”, não necessariamente pela via de uma invasão clássica, mas pela via de servir de retaguarda, plataforma e álibi a um movimento de desestabilização. Não é especulação solta: em 31 de outubro de 2025, Santiago Peña assinou decreto designando PCC e CV como organizações terroristas internacionais; a Argentina fez o mesmo, enquadrando-os como narcoterroristas, decretou alerta máximo na fronteira e deslocou o Exército, com blindados, helicópteros e tropas de montanha para a Tríplice Fronteira. Declarar que facções brasileiras “ameaçam a soberania e o território” paraguaio e argentino é, em linguagem de direito internacional, abrir a porta para a alegação de que o Brasil deixa produzir um mal que transborda suas fronteiras.
E o desenho tem autor declarado. Ainda como senador, o próprio Rubio publicou a ideia de uma coalizão de presidentes conservadores latino-americanos para conter “ditaduras e populismos de esquerda”, citando explicitamente Milei e Peña como a nova geração de líderes pró-americanos. A peça que faltava — colocar o Brasil do lado errado dessa coalizão — foi encaixada esta semana.
O PIX como “oleoduto” e o caldeirão narrativo
O elo entre as frentes é o PIX. Transformá-lo, na retórica, num “oleoduto para transportar valores criminosos” faz dois serviços ao mesmo tempo. Atende ao interesse imediato das bandeiras de cartão e dos bancos norte-americanos, incomodados com um meio de pagamento público, gratuito e soberano que lhes fechou um mercado gigantesco — e isso já está positivado na Seção 301, sob a rubrica de “serviços de pagamento eletrônico”. E, simultaneamente, oferece a ponte narrativa entre a frente econômica e a frente criminal: se o PIX “financia o terror”, então regular o PIX, vigiar o PIX, sancionar quem opera o PIX vira “segurança”, e não protecionismo.
A partir daí, monta-se o caldeirão: misturam-se supostos recebimentos de ministros do STF, os pagamentos de figuras como Vorcaro a governadores de direita e o que mais servir, até produzir uma confusão geopolítica em que a fronteira entre combate ao crime e ingerência externa se dissolve. O resultado pretendido não é jurídico; é político — a erosão da soberania brasileira e, no limite, um golpe de fato contra um governo Lula 3 ou eventual Lula 4, vestido com a fantasia conveniente à extrema direita: a um só tempo luta “contra o comunismo” e “contra o terrorismo”.
O prêmio e o custo
Por que o Brasil, e não Cuba? Porque o cálculo de Trump é de apostador, e ele conhece bem o vocabulário do pôquer: as “odds” compensam. Recolonizar economicamente o Brasil — arrancá-lo dos BRICS e recolocá-lo sob tutela — enfraquece Rússia e China num só lance e abre, de imediato, o acesso de Washington e de suas empresas a terras raras, água, petróleo, população, mercado e a uma massa enorme para uso do dólar. Submeter Cuba não dá nada disso. Se os EUA vão pagar o preço de subjugar um país, calculam que é melhor que seja um país do tamanho do prêmio.E qual é o custo? Conhecendo a tentação golpista de parte de nossas Forças Armadas, o neofascismo bolsonarista ainda vivo e a irritação de elites financeiras sem candidato próprio, o custo interno é menor do que gostaríamos de admitir. O custo estaria, sobretudo, na comunidade internacional. Mas aqui mora a parte mais sombria da aposta: o que se viu com o Irã sugere que ninguém virá em socorro do Brasil. E é precisamente essa a função reservada à Argentina de Milei e ao Paraguai de Peña — fazer parecer, perante o mundo, que o Brasil é o rogue state da América Latina, o foco de instabilidade que a “coalizão de amigos” precisa conter.
O que está em jogo
Pode ser que nada disso se concretize. A erraticidade de Trump é real e pode desmanchar o tabuleiro tão rápido quanto o montou. Mas a análise séria não trabalha com o que desejamos; trabalha com a configuração de forças efetivamente posta. E a configuração posta nesta semana é inequívoca: o hegemon nomeou o alvo, os dois vizinhos já se declararam ameaçados, o material bélico já cruzou suas fronteiras, a frente econômica já tem data e o PIX já está no centro da mira. Sob o olhar satisfeito de Trump e de Rubio, ensaia-se uma América do Sul integralmente fascistizada.
O Brasil tem uma vantagem que o Paraguai de Solano López não teve: sabe a tempo o roteiro que se escreve sobre ele. Reconhecer a Guerra do Paraguai ao contrário antes que o primeiro tiro — econômico, jurídico ou diplomático — seja disparado é a condição para não repeti-la do lado perdedor. A soberania, como sempre, não se defende quando a guerra começa. Defende-se agora, no terreno em que ela está sendo de fato travada: o da narrativa, o da economia e o da diplomacia regional.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




