De alcoólatra a maconheiro
Baseados e fatos reais
Ninguém nunca bebeu na minha família. Meu pai era um cara alto, forte e bonitão, operário de uma fábrica de tintas. No fim do dia, ganhava um copo de leite, um paliativo para o ambiente tóxico que corroía seu fígado. Ele mal sabia ler e escrever, perdia muitos dias de aula na infância por não ter sapatos para ir à escola. Revezava-os com seus cinco irmãos.
Seu pai dedicava-se aos estudos da Torá e do Talmud e só não virou rabino porque não podia dispensar os míseros tostões que ganhava no escritório de uma fábrica que produzia não sei exatamente o que.
Certa vez, seu chefe deu-lhe uma boa notícia. Receberia um bom aumento, mas teria que trabalhar aos sábados. Trabalhar no shabat era expressamente proibido pelas leis mosaicas. E a última coisa que ele queria era brigar com Deus. Continuou vivendo de seu salário magro, insuficiente para comprar os sapatos dos filhos.
Ele, minha avó e os cinco irmãos do meu pai foram assassinados quando, por volta de 1940, os carrascos nazistas transformaram Drogobych, uma pequena cidade tipicamente judaica, berço de rabinos, músicos, escritores num gueto e passaram a fuzilar seus pacíficos habitantes na floresta que ficava nos arredores da cidade ou despachando-os para as câmaras de gás de uma cidade vizinha. Meu pai escapou porque estava no “front”.
Os pais da minha mãe foram deportados para a Sibéria pelos militantes comunistas que ocuparam o vilarejo de Kurilovitz, também majoritariamente judaico, e tomaram na mão grande sua pequena loja de tecidos, na década de 20. Meu avô sobreviveu a um dos lugares mais gelados do planeta, mas minha avó não resistiu.
Quando a Segunda Grande Guerra começou, minha mãe teve que abandonar a Faculdade de Medicina, onde estava perto de se formar, para fugir, junto com sua irmã, o mais longe possível do cenário das operações militares.
Seus irmãos mais velhos tiveram mais sorte. George Davidson tornou-se um importante médico legista em Odessa; Yacha consagrou-se como fotógrafo de guerra, recebeu medalhas por feitos heróicos na luta contra os nazistas e, quando eu tinha cinco ou seis anos, virou fotógrafo oficial de Nikita Kruschev, o ditador que assumiu a URSS após a morte de Josef Stalin.
O irmão mais velho, David, fugiu para o Brasil em 1921, com uma mão na frente e outra atrás e alguns “rublos”, radicou-se em Franca, no interior de São Paulo, onde iniciou a vida como os demais imigrantes judeus, tornou-se um “klaper”.
“Klaper” era o nome da profissão que os imigrantes se davam, que consistia em “bater palmas” de casa em casa, oferecendo “shmates” - cobertores, blusas, colchas, saias e toda sorte de “bagulhos” - a prestações a perder de vista.
Minha mãe era secretária da agência local da KGB, o serviço secreto soviético. Ao contrário do meu pai, tinha pouca estatura e um vasto talento para tudo que parasse em suas mãos. Preparava em casa uma bebida chamada “vishniufka”, feita à base de cerejas, que repousava num galão enorme até ser consumida nos três dias de Ano Novo.
Também para esses dias festivos, quando me colocava em cima da cama e me vestia uma camisa branca, bem passada, que ela mesma bordava com desenhos geométricos nas cores vermelho, azul e verde, matava um porco, que era cevado a partir de janeiro em nosso quintal.
Morávamos no térreo de um sobrado, com direito a dois quartos e uma cozinha, que era compartilhada com a família que morava no andar de cima. Ali havia também dois cômodos e um banheiro, que compartilhava conosco. Mas eu preferia fazer cocô de cócoras, no quintal e me limpar com folhas espalhadas no chão.
TRAUMAS DA INFÂNCIA
Certo dia de inverno, meus amiguinhos e eu brincávamos construindo bonecos gordos com nariz de cenoura e fazendo guerra com bolas de neve, quando o líder da turma teve uma ideia à qual todos, sem exceção, aderiram imediatamente: “Vamos tacar bolas de neve na casa da bruxa!”
A “bruxa”, uma vizinha velha e rabugenta, morava sozinha a alguns metros da minha casa. Pela janela aberta, notei que ela estava passando roupa quando o ataque começou. As bolas de neve atingiam as roupas passadas, uma atrás da outra. E meus amiguinhos vibravam com sua pontaria certeira.
"Quando ela saiu para ver o que estava acontecendo, fula de raiva, meus amiguinhos fugiram às pressas e desapareceram entre as árvores. Eu, que não tinha atirado bola alguma, apenas assistia, achei que não tinha motivo para fugir.
Permaneci estático até mesmo ao ver a pobre mulher correr em minha direção e, aos brados e vitupérios agarrar minha orelha e me arrastar até a minha casa.
Minha orelha ardia quando ela chamou a minha mãe e me denunciou:
“Este pequeno delinquente estragou minhas roupas atirando bolas de neve na minha casa. Além de castigá-lo como merece, a senhora deve pagar meu prejuízo”.
Eu neguei tudo, jurei por tudo o que é sagrado, clamei inocência, mas a minha algoz só largou minha orelha quando minha mãe tirou da gaveta nossos últimos trocados e os entregou, em lágrimas, sabendo, no íntimo, que ela estava mentindo.
Minha mãe sabia que, se a “bruxa” me denunciasse à polícia, as consequências seriam ainda piores para a nossa família. Afinal, éramos judeus, cercados de gentios por todos os lados.
Numa terrível noite de verão, o mundo parecia desabar. Relâmpagos e trovões varriam o céu, produzindo assustadores clarões elétricos e estrondos mais fortes do que rochedos batendo uns nos outros.
Meus pais correram para fora de casa. Subiram na charrete o mais depressa que puderam. Queriam salvar as poucas batatas que plantavam na roça. Corri atrás deles, de mãos dadas com a babá, chorando e implorando para ir junto.
“Não pode, é perigoso”, gritava meu pai com todas as forças dos pulmões, tentando superar o barulho do trovão.
“Vamos voltar logo, volte para casa”, bradava a mamãe.
Mas eu estava fora de mim. Chorava e gritava, gritava e chorava, me meti na frente do cavalo, que ficou mais assustado comigo do que com os relâmpagos.
Eu não queria, não podia deixá-los partir. Tinha certeza que estava sendo abandonado.
"Nós vamos ao cinema” disseram meus pais, num domingo à noite, quando eu já estava na cama, debaixo do cobertor. “Temos entradas grátis. Voltaremos logo”.
“Não, vocês não vão”, protestei. “Não quero ficar sozinho.”
“Seu irmão mais velho está com você. Nada pode acontecer”.
“Não e não”, insisti. “Tenho medo”.
“Você é mesmo um maricas”, gracejou meu irmão, “veja como estou tranquilo, não há perigo, papai e mamãe merecem se divertir”.
Aos poucos me acalmei. Parei de soluçar.
“Mas não demorem”, pedi. “Não vou pegar no sono enquanto não voltarem”.
Minha mãe me beijou na testa.
“Até logo mais”, despediu-se.
Minha cama de ferro ficava ao lado da porta da rua. Nos meus piores pesadelos, eu imaginava que, se dormisse com os pés descobertos, alguém entraria e me arrastaria, pelos pés, para fora de casa.
Certifiquei-me que o cobertor cobria completamente meus pés e me deitei, de olhos abertos, apontados para o abajur de tecido vermelho que pendia do teto do quarto em frente, que era ao mesmo tempo a sala de jantar e o quarto dos meus pais.
Não me lembro quanto tempo se passou, foram, com certeza poucos minutos, quando vi, estarrecido, o abajur em chamas. Gritei, meu irmão acordou e gritou também. Não podíamos fazer nada para combater o fogo, que já enegrecia parte do teto.
Ficamos paralisados de pavor, à espera do fogo nos atingir.
De repente, ouvi o barulho da chave e a porta da rua abriu. Logo ao entrar, meu pai abafou as chamas com panos molhados, enquanto minha mãe assistia, tremendo dos pés à cabeça.
Eles voltaram para pegar os ingressos, que tinham esquecido na gaveta da cômoda.
Perderam o filme, mas nos salvaram.
(Continua amanhã.)
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.





