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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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De alcoólatra a maconheiro (2)

Baseado em fatos reais

Escombros na Ucrânia (Foto: Nações Unidas )

(continuação)

Meu tio da América

“São Paulo, 14/1/1957

Minha querida irmã:
Se esta carta chegar às suas mãos (não é a primeira que escrevo), quero que saiba que hoje sou um próspero comerciante no Brasil, em condições de trazer você, seu marido e seus filhos para cá. Não se preocupe com nada. Vou cuidar de todos os papéis, pagar as passagens de avião e dar todo o apoio nos primeiros dias após a sua chegada. Aqui é uma democracia, todos têm liberdade para trabalhar no que quiserem, e nós, judeus, não somos perseguidos. O povo brasileiro é muito acolhedor, não rejeita estrangeiros; ao contrário, trata-os como seus conterrâneos e ajuda no que pode, apesar de a maioria não dispor de meios para levar uma vida digna. Tenho duas filhas, a mais velha formou-se em Química e casou-se com um rapaz formado em Física. Eles pretendem continuar seus estudos nos Estados Unidos, para onde vão viajar em breve. A minha filha menor está no último ano da Faculdade de Odontologia e está noiva de um rapaz muito simpático, prestes a se formar engenheiro. Espero que você aceite meu convite, pois meu maior desejo é tirá-los o mais depressa possível da Ucrânia.

Seu irmão, David”

Minha mãe, quando acabou de ler a carta, estava em prantos. Sair daquele inferno era o que ela mais queria. Não suportava a ideia de que eu e meu irmão, aos dezoito anos, teríamos de servir o Exército, serviço obrigatório do qual muitos não voltavam para casa. Não aguentava mais sair da cama em plena madrugada para enfrentar uma fila enorme na frente do açougue estatal, por horas a fio, com temperaturas de menos 15 graus e, ao chegar sua vez, não haver mais um grama de carne. Não queria mais ficar à espera do meu pai, quando saía, nas sombras, para pintar as paredes da casa de algum conhecido, em troca de alguns rublos, rezando para ele não ser denunciado pelos vizinhos por trabalhar por conta própria, o que era terminantemente proibido pelas autoridades e podia resultar em deportação para a Sibéria.

Nos dias seguintes, começamos os preparativos para a incerta e suposta viagem, incerta e suposta porque ninguém tinha autorização para sair da Ucrânia. Além de novas cartas, recebemos fotos da família do seu irmão, em poses que me pareceram lembrar príncipes das histórias de fada. Meu tio, já grisalho, vestia um terno escuro, muito bem cortado; a filha menor, sorridente e simpática, parecia atriz de cinema; a outra, mais contida, transmitia ares de sabedoria; no rosto de sua mulher havia traços de cansaço e, ao mesmo tempo, a tranquilidade de que o pior tinha ficado para trás.

Na minha imaginação, meu tio era uma espécie de comandante de navio e morava numa cabana rústica cercada de palmeiras tropicais.

Passamos a acompanhar a “Voz da América”, num velho rádio cujo chiado abafava os locutores que, em russo, davam as últimas notícias do Novo Mundo. Temerosa de que nossos vizinhos nos denunciassem por traição à Pátria, mamãe nos obrigava a escutar as transmissões embaixo da cama de casal, num volume quase inaudível.

O que é democracia?

De mão dada com a mamãe, atravessei a rua para a calçada onde se localizava o maior magazine da cidade. E então pus para fora uma dúvida que insistia em martelar na minha cabeça infantil.

“Mamãe, o que é democracia?”

Ela não respondeu de cara; só depois de um breve momento de reflexão, ponderou:

“Na democracia, meu filho, você entra numa loja como essa, pega o que precisar e não paga nada”.

Fiquei empolgado. O único bem que eu possuía era uma bola de borracha, de duas cores, azul e vermelho, com a qual treinava dribles e chutes com o meu irmão.

Estação Polônia

Meu pai descobriu, alertado por um colega de trabalho, que cidadãos poloneses podiam voltar à sua terra natal com suas famílias, e assim pegamos um trem, com nossas bagagens dentro de vários caixotes, rumo a Walbjegh. Foi uma solução muito peculiar. A cidade natal de papai era Drogobych, que, quando nasceu, pertencia à Polônia.

“Vocês vão ficar por lá no máximo uma semana”, garantiu meu tio, “até que eu consiga os papéis para a viagem ao Brasil”.

A semana durou quase um ano, o qual atravessamos num pequeno apartamento situado no último andar, o sexto, de um prédio cinzento e triste, sem elevador.

Tive de aprender o idioma polonês enquanto frequentava uma escola onde os judeus não eram bem-vindos. Eu me recusava a falar em polonês, chorava por esse e outros motivos. Um dia, a professora, magra de ruim que era, me chamou à frente da classe.

“Por que você não me cumprimentou quando cruzou comigo, na rua, ontem à noite?”, perguntou em voz alta, expondo-me aos gracejos dos meus coleguinhas. A seguir, me puniu puxando minhas orelhas até arderem.

Brincando na praça

“Vamos visitar nossos amigos, do outro lado da cidade. Fique aqui na praça, brincando e esperando por nós. Não vamos demorar”.

Desse modo, papai e mamãe se despediram de mim numa tarde gelada de novembro.

Não sei onde estava meu irmão mais velho, talvez na casa de um amiguinho, talvez na escola. Não sei.

Não chorei dessa vez, nem tive medo de ficar sozinho. Experimentei, ao contrário, uma sensação de liberdade. Eles confiam em mim, pensei, não sou mais aquele pequeno chorão, cresci, sou quase tão adulto quanto meu irmão.

Aquecido pelos últimos raios de sol, pulei de brinquedo em brinquedo. Me diverti no balanço, dei voltas e mais voltas no gira-gira, construí bonecos de areia sem ser perturbado; a praça estava totalmente vazia.

Só me dei conta de que papai e mamãe estavam demorando a voltar quando, de repente, o sol sumiu e o céu, agora pintado de preto, mostrou a sua face mais tenebrosa.

Perdi a vontade de brincar. Sentei no banco duro, de madeira, acabrunhado e infeliz. Voltei a ser assaltado pela mesma sensação da noite em que eles correram para salvar as batatas, em meio à tempestade. Não pude evitar pensamentos negativos. “Eles não vão voltar nunca mais. Vou ficar aqui para sempre”.

Eu já estava conformado com meu destino, minha sorte madrasta, quando avistei dois vultos vindo em minha direção. Não podem ser papai e mamãe, pensei, não são eles.

Só a poucos metros de distância mudei de ideia. Eram eles, sim. Não protestei, nem derramei uma só lágrima. Aguentei firme; eles me abraçaram, deram-se as mãos e, tal como todos os dias, escalamos os degraus dos seis andares do prédio e, acomodados nos caixotes da mudança, sempre neles, nos deliciamos com a sopa que mamãe tinha preparado.

A fruta misteriosa

Chegamos, afinal, ao aeroporto de Recife, depois de uma viagem inesquecível. Em meio a uma terrível turbulência, o quadrimotor da KLM despencou muitos metros em direção à terra. Foram instantes que me pareceram horas de mergulho no vazio.

No restaurante do aeroporto, serviram-nos uma fruta que nunca vimos antes.

“É uma banana”, decifrou a mamãe, a mais instruída de nós.

Tudo bem, mas como se come?

“Com garfo e faca”, ela explicou, apontando os talheres ao lado do prato.

Foi a primeira vez na história em que uma reles banana foi degustada como num banquete de príncipes.

(Continua amanhã)

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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