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Robson Sávio Reis Souza

Doutor em Ciências Sociais e pós-doutor em Direitos Humanos

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Democracia, esperançar e bem viver: o recado de São Bernardo do Campo

O campo democrático deve comunicar verdade, acolhimento e projeto de futuro

São Bernardo do Campo (Foto: Prefeitura de São Bernardo do Campo)

O 13º Encontro Nacional de Fé e Política, realizado em São Bernardo do Campo neste final de semana (24 e 26 de abril), acontece em hora crucial. Promovido pelo Movimento Nacional de Fé e Política, o evento reuniu lideranças eclesiais, políticas e sociais de todo o Brasil, com o tema "Fortalecer a democracia, o esperançar e o bem viver". Num ano eleitoral, a escolha não foi casual. O encontro assumiu a tarefa de ler e procurar entender o tempo presente e municiar o campo progressista para o enfrentamento de um cenário sociopolítico cada vez mais complexo, disruptivo e violento.

O diagnóstico que atravessou os debates é claro: vivemos o adensamento da extrema-direita, que converteu a religião em estratégia central de mobilização e engajamento eleitoral. Não se trata de fé ou religiosidade, mas do uso instrumental do sagrado para disputa do poder político. Púlpitos viram palanques, líderes religiosos são cabos eleitorais e o Evangelho é recortado sob medida para justificar projetos de poder que negam sua radicalidade. Essa captura não é nova, mas ganha escala inédita com a popularização das mídias digitais.

A disputa eleitoral transformou o eleitor em seguidor irracional e venal. Algoritmos criminosamente manipulados pelas bigthecs, cortes descontextualizados da realidade e lives com cunho religioso criaram um ecossistema onde a política virou performance e o debate público virou uma "guerra santa". É nesse terreno que se consolida um populismo reacionário digital disruptivo, que opera junto a um populismo religioso despudorado. Sua plataforma é conhecida: desinformação em escala industrial, moralismo,  amplificação do medo e do ódio como afetos políticos, demonização do adversário e promessa de salvação via um líder ungido. O paradoxo é cruel: essa máquina mobiliza multidões para as urnas, mas imobiliza mentes e corações para a empatia, a crítica e a construção coletiva. Mina a democracia e se articula na desesperança.  

Por isso, o encontro de São Bernardo do Campo importa. Diante da sofisticação do campo adversário e suas estratégias, não basta indignação. É preciso leitura crítica da conjuntura, formação política consistente e estratégia comunicacional que dispute sentido, nesse cenário marcado por múltiplas formas de manipulação. Conhecer a fundo os mecanismos do ódio digital, compreender como as teologias da prosperidade e do domínio se casam com o neoliberalismo e o autoritarismo e como a linguagem religiosa é sequestrada para legitimar a violência política são condições necessárias para que lideranças sociais, políticas e religiosas do campo progressista atuem com assertividade neste ano que,  novamente, está em risco a democracia.

"Fortalecer a democracia" hoje significa, também, disputar o imaginário popular. "Esperançar" é verbo político: organizar a esperança contra o fatalismo do medo. "Bem viver" é horizonte civilizatório que confronta a lógica da guerra e do hiperindividualismo de todos contra todos. O recado que vem de São Bernardo é claro: a fé comprometida com a paz, a democracia e a justiça não pode se ausentar do debate público, nem terceirizar a disputa das narrativas sobre o mundo em que vivemos.

O campo democrático deve comunicar verdade, acolhimento e projeto de futuro. O encontro ajudou os participantes nas estratégias de enfrentamento ético e qualificado com os grupos políticos reacionários, que profissionalizaram a mentira, o ódio e a manipulação da fé como instrumentos de disputa do poder.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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