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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Desexilio

O sociólogo Emir Sader escreve sobre um cenário entre o exílio e o regresso nas páginas de Mario Benedetti

Ato contra a ditadura civil-militar uruguaia (Foto: Divulgação / Youtube / Parabólica)

A palavra foi criada pelo genial escritor uruguaio Mario Benedetti, no seu livro “Andaimes”. Benedetti, que subia ao ônibus que nos levaria, todas as manhas, do bairro de Alamar, perto do centro de Havana, ao Parque Central, para daí tomar outro ônibus para o Vedado, onde ele ia trabalhar na Casa das Américas, eu no trabalho do Mir chileno.

Ele foi o poeta do nosso exílio. Junto com Eduardo Galeano, dois gênios que o Uruguai nos deu ao mesmo tempo. Como pode um país tão pequeno produzir dois gênios simultaneamente? Mas já tinham ganho três mundiais de futebol, um contra nós, de virada no Maracanã! Um País capaz disso tudo e de muito mais, do que não seria capaz?

Benedetti ele usa como prólogo uma citação de outro escritor genial, este português: Fernando Pessoa:

“O lugar a que se volta é sempre outro. A gare a que se volta é sempre outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.”

Reencontrando o meu exemplar, reproduzo apenas o que eu sublinhei. Acho que dá ideia do que seja o livro e do que seja o desexílio, que tantos de nós vivemos e ainda vivemos.

“Este livro trata dos sucessivos encontros e desencontros de um desexiliado.”

“Não pretende ser uma interpretação psicológica, sociológica, menos ainda antropológica, de uma repatriação mais ou menos coletiva, mas algo mais lúdico e flexível: a restauração imaginaria de um regresso individual.”

“O desexiliado aludido não se enfrenta com um conglomerado social nem um País oficial ou oficioso, mas sim seu País pessoal, esse país que levava dentro de si e o aguardava fora de si. Daí o inevitável cotejo do País próprio de antes com o País de agora, do presente que foi com o presente que virá, visto e entrevisto desde o presente que é.”

“Busca seus pontos e pautas particulares de referência, e aqui e ali vai comprovando a validade ou a invalidade de suas saudades, como uma forma rudimentar de verificar até onde e desde quando seu país pessoal mudou e comprovar que tampouco ele é o mesmo de anos atrás.”

“Cada capítulo deste livro pode ou quer ser um andaime, ou seja, um elemento restaurador, às vezes distante dos outros andaimes.”

“O exílio nos uniu e agora o desexílio nos separa.”

“Não tem confiança na invulnerabilidade da democracia, acredita que em qualquer momento tudo pode se desmoronar e não se sente com ânimo para recomeçar de novo e do zero, outro percurso de angústias. “Se antes foi difícil, me dizia, imagina agora que somos doze anos mais velhos.”

“Foram várias etapas. Uma primeira em que você se nega a desfazer as malas, porque tem a ilusão de que o regresso será amanhã.”

“Não te nego que é bom saber que estamos vivos e a salvo.”

“A pátria, esse lugar em que não estou.”

“Quino diz que um uruguaio é um argentino sem complexo de inferioridade. Também pode ser que um argentino pode ser um uruguaio sem o complexo de inferioridade.”

“E logo virá o silêncio, primeiro de um, logo do outro e, por último, de ambos, e esse silêncio compacto, esse mutismo a duas vozes, essa trégua não acordada, bom, essa é a verdadeira solidão.”

“Sim, desde Madrid a pátria era o Uruguai em que eu não estava. Mas agora aqui a pátria é o lugar em que eu estou? Não sei, mas ficou muito amargurado de não sabê-lo. Às vezes acho que o recuperei, mas outras vezes me sinto também um exilado.”

“Nos confundem com o Paraguai, que nem sequer foi campeão do mundo, nem olímpico, nem mundial.”

“O esquerdismo já não é, como diziam os clássicos, a doença infantil do comunismo, mas a doença, ponto.”

“O medo é a condição prévia da coragem. Ninguém e’ valente se não passa antes pelo medo, a coragem vem de sobrepor-se ao temor.”

“Algo que nos revelava Roque Dalton: “Os mortos estão cada vez mais indóceis. Hoje se põem irônicos/ perguntam. Me parece que se dão conta que são cada vez mais a maioria.”

“No entanto, o futuro será o que dizermos dele.”

“A única desculpa que Deus tem é que ele não existe.”

“Mas que hora desta era não foi um derrotado? San Martín, Bolívar, Martí, Sandino, Che Guevara, todos derrotados.”

“Oh memória, inimiga mortal do meu descanso!”

“Um torturador não se redime, suicidando-se. Mas já é alguma coisa.”

“Não há Marx que não venha para o bem.”

“É verdade que nós perdemos, mas os ganhadores também perderam.”

“Durante muitos anos o país esteve amputado de muitas coisas e eu estive amputado do país. Tudo é questão de tempo. Pouco a pouco eu vou entendendo um passado que ainda está aqui, ao alcance da dúvida.”

“Nas casas de câmbio se pode trocar pesetas por pesos, mas não pode trocar frustrações por nostalgias.“

“Valeu a pena arriscar a vida por esta derrota? Há seguros de vida, seguros contra roubos. Mas na política e muito menos na revolução, não há seguros contra a derrota.”

“É difícil esvaziar de medos a memória.” “O desexiliado sempre causa receios em quem ficou.”

Que essas citações tenham lhes dado a ideia do que é esse livro delicioso do Mario Benedetti: “Andaimes”, publicado pela Editora Mundaréu.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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