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Jair de Souza

Economista formado pela UFRJ, mestre em linguística também pela UFRJ

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Deus, religião e humanismo

Reflexão discute o uso da fé para justificar guerras e defende o humanismo como princípio comum capaz de unir crentes e não crentes diante da violência

Pessoas em frente a prédios danificados após ataque a delegacia de polícia em Teerã, Irã 4 de março de 2026 Majid Asgaripour/WANA via REUTERS (Foto: Majid Asgaripour/WANA via REUTERS)

A violenta agressão que está sendo perpetrada por forças conjuntas dos Estados Unidos e Israel contra o Irã colocou o tema da religião na ordem do dia. Assim, alguns consideram corretos os ataques em curso, visto que se opõem ao perigo representado pelo fanatismo religioso daqueles que vêm comandando a nação iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979.

Já outros, curiosamente, se apegam a argumentos nitidamente religiosos para justificar os sangrentos golpes que estão sendo desfechados contra toda a população desse país. Em sintonia com o entendimento dessa gente, é justo tolerar e aceitar até mesmo o monstruoso bombardeio com mísseis Tomahawk realizado sobre uma escola infantil no primeiro dia do conflito, o qual redundou no assassinato de cerca de 180 crianças do ensino primário.

Os justificadores dessa horrenda matança de tantas crianças indefesas se amparam em passagens do Velho Testamento bíblico (1 Samuel; Deuteronômio), que nos mostram situações em que o próprio Deus determinou que medidas semelhantes fossem tomadas por seus seguidores contra o povo que habitava as terras de Canaã. Ali, estão claramente explícitas as ordens para que fossem exterminados todos seus habitantes, sem poupar sequer mulheres e crianças.

É impossível negar que o assassinato de crianças inocentes é uma ação vil, perversa, monstruosa e diabólica, representativa da pior maldade imaginável. Porém, ainda muito mais diabólico é tentar justificá-la usando o nome de Deus. Se fosse em nome do Diabo, daria para aceitá-la, sem problemas. Mas, invocando a figura de Deus, jamais!

Primeiramente, convém ressaltar que Deus não tem nenhuma culpa pela ocorrência de crimes tão abomináveis como os praticados contra as meninas escolares do Irã. Não é de hoje que seu nome vem sendo empregado como forma de possibilitar que a perversidade e a ganância de certos seres humanos se sobreponham sobre os direitos dos outros. Então, sejamos ou não religiosos, creiamos ou não na existência de um Ser Supremo, a responsabilidade por essas atrocidades nunca deveria ser atribuída a ele. Nas linhas seguintes, vou procurar expor as razões disto.

O mundo foi criado e é regido por um único Deus, por vários, ou por nenhum? Como sabemos, há partidários das três alternativas postuladas. Entretanto, independentemente de não concordarem em relação às opções citadas, isto não implica necessariamente em nenhum impedimento para que os adeptos dessas variadas concepções convivam harmoniosamente. Entretanto, para que esta harmonia de fato se imponha, é imperativo que uma outra categoria esteja presente em todos: o humanismo.

E por que o humanismo seria capaz de unificar pessoas com diversas concepções dentro de crenças religiosas e, até mesmo, as que não aderem a nenhuma?

Bem, se, num primeiro momento, a questão recém planteada parece ser de difícil resolução, sua compreensão tenderá a se tornar muito mais simples a partir da definição que estabeleceremos para o significado do termo humanismo. Então, tendo em conta a enorme relevância que estamos atribuindo a este conceito, vamos tentar defini-lo do modo mais claro possível.

De todos os seres vivos por nós conhecidos, somente os humanos estão dotados da razão. Portanto, são os únicos que têm a capacidade de analisar as circunstâncias com as quais se deparam, de refletir e ponderar sobre as mesmas antes de fazer seus julgamentos e tomar suas decisões. Em outras palavras, nós, humanos, contamos com o dom exclusivo de raciocinar, um atributo que nos possibilita avaliar quais podem ser os efeitos e as consequências de nossos atos. Em termos práticos, isto equivale a poder distinguir o bem do mal.

Assim, os que acreditam que o mundo e todos os seres nele presentes foram gerados por um único, onipotente e supremo Criador devem creditar a ele esta capacidade excepcional da qual a espécie humana goza. Analogamente, os que admitem que são várias as divindades responsáveis por nossa existência atribuirão a esse conjunto de seres as qualidades e potencialidades que nos são inerentes. Por sua vez, os que entendem a vida humana como resultado da evolução natural das condições sócio-materiais que nos circunscrevem consideram o raciocínio como um produto da natureza.

Não obstante o posicionamento que tenhamos a respeito da questão que acabamos de mencionar, todos nós estamos aptos a analisar cada situação e cada problema que surgem diante de nós e, após haver refletido, atuar em conformidade com nossa avaliação. Se, além disso, considerarmos que tanto um Deus único e onipotente, como as diversas divindades das religiões politeístas só têm sentido e merecem ser respeitados e obedecidos em função do bem e da justiça, fica-nos mais do que evidente que nunca, em nenhuma hipótese, poderiam propor-nos que perpetrássemos ou aceitássemos ações que claramente apontam em sentido contrário. Se assim o fizessem, não mereceriam de verdade ser considerados como divinos.

Felizmente, como estamos todos imbuídos da exclusiva faculdade de raciocinar, o ponto unificador para toda a humanidade é guiar-se pelo rumo do humanismo, levando em conta que isto significa buscar o bem para todos os seres humanos, sem discriminação de caráter racial ou nacional, tendo a justiça e a solidariedade como os principais balizadores de nosso comportamento. Em consequência, é um dever moral de todos, independentemente de ter ou não alguma crença religiosa, condenar com veemência os crimes atrozes que estão sendo cometidos contra o povo do Irã, em particular contra suas crianças.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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