O Irã entregou aos Estados Unidos uma ordem de despejo
A maioria absoluta do planeta, incluindo um bom número de atores das terras vassalas, já culpa os Estados Unidos pelo colapso da economia global
O novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, 57 anos, escolhido pela Assembleia dos Peritos, até agora não pronunciou uma palavra sequer em público.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) vem falando por ele. Já de partida, Mojtaba era o candidato preferido para suceder ao Aiatolá Khamenei, o homem que planejou em detalhes minuciosos como quebrar a espinha do Império.
O IRGC, agora, vem demonstrando a todo o planeta, em especial ao Sul Global, o que se ocultava por trás do "comedimento" há anos aconselhado por Khamenei.
Em questão de dias, o IRGC cegou radares dos Estados Unidos por todo o espectro do Oeste Asiático, fez uso bélico do Estreito de Ormuz, espalhando pânico por toda a economia global, e entregou a Washington aquilo que, para todos os fins práticos, representa uma intimação à rendição.
Essas são apenas algumas das condições mais importantes para um possível cessar-fogo — supondo-se que Teerã venha a confiar que os Estados Unidos sejam capazes de cumprir o acordo:
- Retirada de todas as sanções contra o Irã e liberação de todos os ativos iranianos congelados.
- Reconhecimento do direito do Irã a enriquecer urânio em seu próprio solo.
- Indenização pela totalidade dos danos causados pela guerra imposta.
- Extradição dos quinta-columnistas iranianos vivendo no exterior e fim das campanhas midiáticas orquestradas contra Teerã.
- Fim dos ataques ao Hezbollah, no Líbano, e ao Ansaralá, no Iêmen.
- Desmonte de todas as bases militares dos Estados Unidos no Oeste Asiático.
Pensem bem. Aqui temos o Irã dizendo aos que, de forma hiperbólica, se dizem as forças militares mais poderosas da história do mundo que, essencialmente, se rendam.
Agora, acrescentem a isso o Comandante da Força Aeroespacial do IRGC, Majid Mousavi, anunciando que "após a neutralização das camadas de defesa aérea dos Estados Unidos na região, o Irã fará a transição para uma nova doutrina de mísseis. De agora em diante, nenhum míssil portará ogivas mais leves que uma tonelada. As ondas de ataques de mísseis serão mais frequentes e mais amplas".
Isso já vem se traduzindo na prática no lançamento, pelo IRGC, de mais mísseis balísticos Kheibar Shekan, de combustível sólido e médio alcance, como ocorreu no início desta semana contra Tel Aviv e contra a Quinta Frota dos Estados Unidos, em Bahrain.
O código para essa primeira operação, de forma significativa, foi "Labbayk ya Khamenei", significando "A seu serviço, ó Khamenei". Essa pode ser vista como a primeira operação iraniana explicitamente dedicada ao Novo Líder Supremo.
O Kheibar Shekan — de alcance de 1.450 quilômetros — é transportável por estrada, pode ser lançado de um caminhão em menos de 30 minutos, voa guiado por satélite e tem um veículo de reentrada manobrável que executa evasão terminal em zigue-zague a velocidades que o IRGC afirma serem equivalentes às do Mach 10.
E, sim: daqui por diante portando ogivas de uma tonelada. O que duplica o raio de explosão e o poder destrutivo de cada míssil, tanto quanto duplica, triplica ou quadruplica o Interceptador Hell dos Estados Unidos e Israel.
Um Interceptador Patriot PAC-3 custa quatro milhões de dólares. Um interceptador THAAD custa 12,7 milhões. Um Arrow-3, 3,5 milhões. Todos eles vêm sendo constante e metodicamente destruídos pelo IRGC.
Na prática, de agora em diante, o Sindicato Epstein precisará usar um número maior de interceptadores — que ele não tem — para cada míssil entrante, para talvez atingir a mesma probabilidade de sucesso.
E há também os mísseis Khorramshahr-4: de combustível líquido, alcance de 2.000 a 3.000 quilômetros, portando ogivas ainda mais pesadas, de 1.500 a 1.800 quilogramas, equipadas com veículos de reentrada manobráveis e com poder de propulsão.
Estamos falando das ogivas convencionais mais pesadas do arsenal iraniano, lançadas juntamente com os Kheibar Shekans aperfeiçoados.
Tudo em nome de "Labbayk ya Khamenei". A simbologia fala em volumes incomensuráveis.
Humilhação, não Negociação
Esses são os fatos inegáveis mais recentes do campo de batalha.
Supondo-se que alguém de Washington com um QI acima da temperatura ambiente tenha se dado o trabalho de esclarecer esses fatos à Casa Branca, não é de admirar que Trump, agora, esteja se gabando de que a guerra está "muito completa". Incidentalmente, isso aconteceu depois — itálicos meus — de seu telefonema de uma hora ao Presidente Putin, solicitado pela Casa Branca.
O comunicado de Moscou, lido pelo imperturbável consultor presidencial Yuri Ushakov, contém a seguinte pérola de jade:
"O Presidente russo expressou algumas ideias destinadas a alcançar uma resolução rápida e diplomática para o conflito iraniano, incluindo levar em conta os contatos mantidos por ele com os dirigentes dos estados do Golfo, com o Presidente do Irã e com os dirigentes de diversos outros países".
Em diplomatês isso quer dizer que Putin está comunicando aos americanos alguns duros fatos da vida e se prontificando a encontrar aquela tão elusiva rampa de saída.
Supondo-se que Teerã queira participar do jogo.
Segundo as intermináveis narrativas de Washington, os proverbiais puxa-sacos do Beltway vêm insistindo em que Trump "formule um plano de retirada da guerra", anunciando que "os militares, em grande medida, alcançaram seus objetivos" — apesar de isso não ser verdade.
O fato é que a Casa Branca já pediu à Turquia, ao Qatar e a Omã que retransmitam a Teerã as propostas de cessar-fogo americanas.
A resposta iraniana veio encapsulada na fala de Abbas Araghchi, o chanceler iraniano: "Negociações com os Estados Unidos não estão mais na agenda".
Palavras do Presidente do Parlamento Mohammad Ghalibaf: "De modo algum estamos em busca de um cessar-fogo. Acreditamos que o agressor deva ser atingido na boca, para que ele aprenda a lição e não volte jamais a sequer pensar em atacar o Irã".
O que nos traz de volta à questão de por que Trump, com sua infindável bravata de "estamos vencendo", teria, no fragor da batalha, ligado para o presidente russo poucas horas depois de Putin ter proclamado seu "inabalável apoio" ao Irã e a seu novo Rahbar ("Líder"), Mojtaba Khamenei.
A resposta é que Trump, sem dúvida alguma, está procurando uma rampa de saída. A maioria absoluta do planeta, incluindo um bom número de atores das terras vassalas, já culpa os Estados Unidos pelo colapso da economia global.
E isso porque a sucessão do governo posta em marcha pelo Aiatolá Khamenei assassinado tem a máxima certeza de que será capaz de colocar de joelhos o ensanguentado Sindicato Epstein.
O Aiatolá Khamenei conseguiu construir o que talvez entre para a História como a maior ruptura da geopolítica do século XXI. Todo o mérito vai para sua clareza de visão, sua resistência, seu autossacrifício e o estarrecedoramente meticuloso planejamento da estratégia de defesa em mosaico hoje em vigor.
O que o Irã sob Mojtaba Khamenei — e esse é um consenso nacional — quer agora é uma vitória inequívoca. O Império do Caos, do Saques e dos Ataques Permanentes, com seu ethos de "se eu não gostar de você eu te mato", tem que ser submetido a uma total humilhação.
*Tradução de Patricia Zimbres
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



