Pepe Escobar avatar

Pepe Escobar

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

424 artigos

HOME > blog

O Irã entregou aos Estados Unidos uma ordem de despejo

A maioria absoluta do planeta, incluindo um bom número de atores das terras vassalas, já culpa os Estados Unidos pelo colapso da economia global

Uma miniatura impressa em 3D do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a bandeira do Irã são vistas nesta ilustração feita em 9 de janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Foto de arquivo.)

O novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, 57 anos, escolhido pela Assembleia dos Peritos, até agora não pronunciou uma palavra sequer em público.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) vem falando por ele. Já de partida, Mojtaba era o candidato preferido para suceder ao Aiatolá Khamenei, o homem que planejou em detalhes minuciosos como quebrar a espinha do Império.

O IRGC, agora, vem demonstrando a todo o planeta, em especial ao Sul Global, o que se ocultava por trás do "comedimento" há anos aconselhado por Khamenei.

Em questão de dias, o IRGC cegou radares dos Estados Unidos por todo o espectro do Oeste Asiático, fez uso bélico do Estreito de Ormuz, espalhando pânico por toda a economia global, e entregou a Washington aquilo que, para todos os fins práticos, representa uma intimação à rendição.

Essas são apenas algumas das condições mais importantes para um possível cessar-fogo — supondo-se que Teerã venha a confiar que os Estados Unidos sejam capazes de cumprir o acordo:

  1. Retirada de todas as sanções contra o Irã e liberação de todos os ativos iranianos congelados.
  2. Reconhecimento do direito do Irã a enriquecer urânio em seu próprio solo.
  3. Indenização pela totalidade dos danos causados pela guerra imposta.
  4. Extradição dos quinta-columnistas iranianos vivendo no exterior e fim das campanhas midiáticas orquestradas contra Teerã.
  5. Fim dos ataques ao Hezbollah, no Líbano, e ao Ansaralá, no Iêmen.
  6. Desmonte de todas as bases militares dos Estados Unidos no Oeste Asiático.

Pensem bem. Aqui temos o Irã dizendo aos que, de forma hiperbólica, se dizem as forças militares mais poderosas da história do mundo que, essencialmente, se rendam.

Agora, acrescentem a isso o Comandante da Força Aeroespacial do IRGC, Majid Mousavi, anunciando que "após a neutralização das camadas de defesa aérea dos Estados Unidos na região, o Irã fará a transição para uma nova doutrina de mísseis. De agora em diante, nenhum míssil portará ogivas mais leves que uma tonelada. As ondas de ataques de mísseis serão mais frequentes e mais amplas".

Isso já vem se traduzindo na prática no lançamento, pelo IRGC, de mais mísseis balísticos Kheibar Shekan, de combustível sólido e médio alcance, como ocorreu no início desta semana contra Tel Aviv e contra a Quinta Frota dos Estados Unidos, em Bahrain.

O código para essa primeira operação, de forma significativa, foi "Labbayk ya Khamenei", significando "A seu serviço, ó Khamenei". Essa pode ser vista como a primeira operação iraniana explicitamente dedicada ao Novo Líder Supremo.

O Kheibar Shekan — de alcance de 1.450 quilômetros — é transportável por estrada, pode ser lançado de um caminhão em menos de 30 minutos, voa guiado por satélite e tem um veículo de reentrada manobrável que executa evasão terminal em zigue-zague a velocidades que o IRGC afirma serem equivalentes às do Mach 10.

E, sim: daqui por diante portando ogivas de uma tonelada. O que duplica o raio de explosão e o poder destrutivo de cada míssil, tanto quanto duplica, triplica ou quadruplica o Interceptador Hell dos Estados Unidos e Israel.

Um Interceptador Patriot PAC-3 custa quatro milhões de dólares. Um interceptador THAAD custa 12,7 milhões. Um Arrow-3, 3,5 milhões. Todos eles vêm sendo constante e metodicamente destruídos pelo IRGC.

Na prática, de agora em diante, o Sindicato Epstein precisará usar um número maior de interceptadores — que ele não tem — para cada míssil entrante, para talvez atingir a mesma probabilidade de sucesso.

E há também os mísseis Khorramshahr-4: de combustível líquido, alcance de 2.000 a 3.000 quilômetros, portando ogivas ainda mais pesadas, de 1.500 a 1.800 quilogramas, equipadas com veículos de reentrada manobráveis e com poder de propulsão.

Estamos falando das ogivas convencionais mais pesadas do arsenal iraniano, lançadas juntamente com os Kheibar Shekans aperfeiçoados.

Tudo em nome de "Labbayk ya Khamenei". A simbologia fala em volumes incomensuráveis.

Humilhação, não Negociação

Esses são os fatos inegáveis mais recentes do campo de batalha.

Supondo-se que alguém de Washington com um QI acima da temperatura ambiente tenha se dado o trabalho de esclarecer esses fatos à Casa Branca, não é de admirar que Trump, agora, esteja se gabando de que a guerra está "muito completa". Incidentalmente, isso aconteceu depois — itálicos meus — de seu telefonema de uma hora ao Presidente Putin, solicitado pela Casa Branca.

O comunicado de Moscou, lido pelo imperturbável consultor presidencial Yuri Ushakov, contém a seguinte pérola de jade:

"O Presidente russo expressou algumas ideias destinadas a alcançar uma resolução rápida e diplomática para o conflito iraniano, incluindo levar em conta os contatos mantidos por ele com os dirigentes dos estados do Golfo, com o Presidente do Irã e com os dirigentes de diversos outros países".

Em diplomatês isso quer dizer que Putin está comunicando aos americanos alguns duros fatos da vida e se prontificando a encontrar aquela tão elusiva rampa de saída.

Supondo-se que Teerã queira participar do jogo.

Segundo as intermináveis narrativas de Washington, os proverbiais puxa-sacos do Beltway vêm insistindo em que Trump "formule um plano de retirada da guerra", anunciando que "os militares, em grande medida, alcançaram seus objetivos" — apesar de isso não ser verdade.

O fato é que a Casa Branca já pediu à Turquia, ao Qatar e a Omã que retransmitam a Teerã as propostas de cessar-fogo americanas.

A resposta iraniana veio encapsulada na fala de Abbas Araghchi, o chanceler iraniano: "Negociações com os Estados Unidos não estão mais na agenda".

Palavras do Presidente do Parlamento Mohammad Ghalibaf: "De modo algum estamos em busca de um cessar-fogo. Acreditamos que o agressor deva ser atingido na boca, para que ele aprenda a lição e não volte jamais a sequer pensar em atacar o Irã".

O que nos traz de volta à questão de por que Trump, com sua infindável bravata de "estamos vencendo", teria, no fragor da batalha, ligado para o presidente russo poucas horas depois de Putin ter proclamado seu "inabalável apoio" ao Irã e a seu novo Rahbar ("Líder"), Mojtaba Khamenei.

A resposta é que Trump, sem dúvida alguma, está procurando uma rampa de saída. A maioria absoluta do planeta, incluindo um bom número de atores das terras vassalas, já culpa os Estados Unidos pelo colapso da economia global.

E isso porque a sucessão do governo posta em marcha pelo Aiatolá Khamenei assassinado tem a máxima certeza de que será capaz de colocar de joelhos o ensanguentado Sindicato Epstein.

O Aiatolá Khamenei conseguiu construir o que talvez entre para a História como a maior ruptura da geopolítica do século XXI. Todo o mérito vai para sua clareza de visão, sua resistência, seu autossacrifício e o estarrecedoramente meticuloso planejamento da estratégia de defesa em mosaico hoje em vigor.

O que o Irã sob Mojtaba Khamenei — e esse é um consenso nacional — quer agora é uma vitória inequívoca. O Império do Caos, do Saques e dos Ataques Permanentes, com seu ethos de "se eu não gostar de você eu te mato", tem que ser submetido a uma total humilhação.

*Tradução de Patricia Zimbres

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados