Digam alô ao diplo-Talibã

Empregando capacidades diplomáticas refinadas, de Doha a Moscou, o Talibã de 2021 tem pouco a ver com sua encarnação de 2001

Combatentes do talibã celebram cessar-fogo em Ghanikhel, na província afegã de Nangarhar
Combatentes do talibã celebram cessar-fogo em Ghanikhel, na província afegã de Nangarhar (Foto: Parwiz Parwiz / REUTERS)
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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Uma reunião muito importante e praticamente secreta teve lugar em Moscou, na semana passada. Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança russo, recebeu Hamdullah Mohib, consultor de segurança nacional do Afeganistão. 

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Não houve vazamentos significativos. Uma declaração bastante branda apontou o óbvio: Eles "focaram na situação de segurança no Afeganistão durante a retirada dos contingentes militares ocidentais e a escalada da situação militar-política na região norte do país".

A história real é muito mais nuançada. Mohib, representando o tão criticado Presidente Ashraf Ghani, fez todo o possível para convencer Patrushev de que o governo de Cabul representa a estabilidade. Isso não é verdade, como demonstraram os avanços subsequentes do Talibã. 

Patrushev sabia que Moscou não poderia oferecer qualquer apoio significativo ao atual sistema de Cabul porque isso queimaria as pontes que os russos teriam que cruzar no processo de engajar o Talibã. Patrushev sabe que a permanência da Equipe Ghani no poder seria absolutamente inaceitável para o Talibã - qualquer que venha a ser a configuração de um futuro acordo de divisão do poder.

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Por essa razão, Patrushev, segundo fontes diplomáticas, decididamente não se deixou impressionar. 

Nesta semana, conseguimos entender por quê. Uma delegação do setor político do Talibã foi a Moscou principalmente para discutir com os russos a rápida evolução do mini-tabuleiro de xadrez do norte do Afeganistão. O Talibã já havia estado em Moscou quatro meses antes, para debater com troika ampliada (Rússia, Estados Unidos, China e Paquistão) a nova equação do poder afegão.

Nesta viagem mais recente, eles garantiram enfaticamente a seus interlocutores que o Talibã não tem qualquer interesse em invadir o território de seus vizinhos da Ásia Central. 

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Não seria exagero, tendo em vista o quanto eles vêm sendo  hábeis no jogo político, chamar o Talibã de raposas do deserto. Eles entenderam perfeitamente bem o que o Chanceler Sergey Lavrov vem repetindo: qualquer turbulência vinda do Afeganistão será recebida com uma reação direta partindo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva.

Além de enfatizar que a retirada dos Estados Unidos - que na verdade é um reposicionamento - representa o fracasso de sua "missão" no Afeganistão, Lavrov tocou nos dois pontos realmente importantes:

  • O Talibã vem aumentando sua influência nas áreas de fronteira do norte do Afeganistão e 
  • O fato de Cabul se recusar a formar um governo de transição vem "gerando uma solução beligerante" para uma situação já dramática. O que implica que Lavrov espera muito mais flexibilidade tanto de Cabul quanto do Afeganistão na sisífica tarefa de divisão de poder que ambos têm pela frente. 

E então, aliviando a tensão, quando perguntado por um jornalista russo se Moscou irá enviar tropas ao Afeganistão, Lavrov transformou-se no Mr. Cool: "A resposta é óbvia".

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Shaheen fala

Mohammad Suhail Shaheen é o articulado porta-voz do setor político do Talibã. Ele afirma categoricamente que "tomar o Afeganistão com força militar não é nossa política. Nossa política é encontrar uma solução política para a questão afegã, como vem ocorrendo em Doha". Resumindo: "Reconfirmamos, aqui em Moscou, nosso compromisso com uma solução política".

Isso é absolutamente correto. O Talibã não quer um banho de sangue. Eles querem ser aceitos. Como enfatizou Shaheen, seria fácil conquistar as maiores cidades - mas haveria derramamento de sangue. Nesse meio tempo, o Talibã já controlou praticamente toda a fronteira com Tajiquistão.

O Talibã de 2021 tem muito pouco em comum com sua encarnação terrorista do pré-guerra de 2001. O movimento evoluiu, de uma insurreição guerrilheira rural, em grande parte pashtun ghilzai, a um acordo mais inter-étnico, que inclui tajiques, uzbeques e até mesmo hazarasa xiitas – este último um grupo impiedosamente perseguido nos anos 1996-2001 pelo Talibã. 

São raras as figuras confiáveis, mas 30% do Talibã, hoje, talvez seja formada por não-pashtuns. Um dos principais comandantes é um tajique étnico, o que explica a "brandura" da rapidíssima blitzkrieg no norte do Afeganistão, em território tajique.

Visitei muitos desses lugares geologicamente espetaculares em inícios da década de 2000.  Os habitantes, todos primos entre si e de língua dari, estão hoje entregando suas aldeias e cidades ao Talibã tajique por uma questão de confiança. Muito poucos - ou talvez nenhum - pashtuns de Kandahar ou Jalalabad estão envolvidos, o que ilustra o absoluto fracasso do governo central de Cabul.    

Os que não se juntam ao Talibã simplesmente desertam - como fizeram as tropas de Cabul que controlavam o posto de checagem próximo à ponte sobre o rio Pyanj, às margens da rodovia Pamir. Eles escaparam sem luta para território tajique, usando a própria rodovia Pamir. O Talibã hasteou  sua bandeira sem disparar um único tiro.  

O comandante do Exército Nacional Afegão, General Wali Mohammad Ahmadza, que acaba de assumir o cargo por nomeação de Ghani, tenta manter as aparências: a prioridade do ENA é proteger as principais cidades (até agora, tudo bem, porque o Talibã não está atacando nenhuma delas), a travessia de fronteiras (isso já não está indo tão bem) e as rodovias (com resultados mistos, até agora). 

Essa entrevista com Suhail Shaheen é bastante esclarecedora – na medida em que ele se sente obrigado a ressaltar que "não temos acesso à mídia", lamentando a "injustificada" artilharia cerrada de  propaganda disparada contra nós", o que implica que a mídia ocidental deveria admitir que o Talibã mudou.

Shaheen aponta que "não seria possível tomar 150 distritos em uma semana com luta", o que se conecta ao fato de que as forças de segurança "não confiam no governo de Cabul". Ele jura que em todos os distritos conquistados "as tropas vieram ao Talibã de forma voluntária". 

Shaheen faz uma declaração que poderia ter vindo diretamente do Ronald Reagan de meados da década de 1980: O "Emirado Islâmico do Afeganistão" é o verdadeiro combatente pela liberdade". Isso pode se converter em objeto de infindáveis debates por todas as terras do Islã.

Mas um fato é inegável: O Talibã está se atendo ao acordo assinado com os Estados Unidos em 29 de fevereiro de 2020. O que implica uma total retirada norte-americana: "Se eles não cumprirem os compromissos assumidos, temos o claro direito de retaliação". 

Antevendo o tempo "em que um governo islâmico estiver instalado", Shaheen insiste em que haverá  "boas relações" com todos os países e que embaixadas e consulados não serão atacados.

O "objetivo do Talibã é claro: por fim à ocupação". O que nos leva à manobra esperta das tropas turcas incumbidas da "proteção" do aeroporto de Cabul. Shaheen é meridianamente claro: "Não haverá tropas da OTAN - o que significaria a continuidade da ocupação", proclama ele. "Quando tivermos um país islâmico independente, então assinaremos com a Turquia qualquer acordo que for mutuamente benéfico".

Shaheen participa das complicadíssimas negociações atualmente em curso em Doha, de modo que ele não pode se permitir assumir, em nome do Talibã, compromissos relativos a futuros acordos de divisão de poder". O que ele afirma, embora os avanços em Doha ocorram com muita lentidão, é que, ao contrário do que foi previamente noticiado pela mídia de Qatar, o Talibã não irá apresentar uma proposta formal por escrito a Cabul ao final do mês.  As conversações continuam.

Ficando híbrido?

Digam o que disserem as negativas não-negativas de "Missão Cumprida" divulgadas pela Casa Branca, algumas coisas já estão claras no front da Eurásia.

Os russos, por um lado, já estão conversando detalhadamente com o Talibã, e é possível que logo venham a retirá-los de sua lista de organizações terroristas. 

Os chineses, por outro, estão seguros de que, se o Talibã se comprometer a permitir o ingresso do Afeganistão na Iniciativa Cinturão e Rota, conectando-o ao Corredor Econômico China-Paquistão, o ISIS-Khorasan não terá permissão para intensificar sua atuação no Afeganistão, incentivados pelos jihadis uigur atualmente em Idlib.

E, quando se trata de sabotar a ICR, nada está fora de questão para Washington. Silos de importância crucial espalhados pelo Deep State já devem estar em funcionamento para substituir a guerra eterna do Afeganistão por uma guerra híbrida, como a da Síria. 

Lavrov tem pleno conhecimento de que os mercadores de poder de Cabul não diriam "não" a um novo acerto de guerra híbrida. Mas o Talibã, por seu lado, vem sendo muito eficiente na tarefa de evitar que as diversas facções afegãs deem apoio à Equipe Ghani.

Quanto aos "istãos" da Ásia Central, nenhum deles quer guerras, nem eternas nem híbridas, num futuro próximo. 

Apertem os cintos: a estrada é acidentada. 

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