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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Diplomacia e pragmatismo vão predominar na Casa Branca?

Conversa tende a caminhar muito bem

Donald Trump e Lula (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

Lula e Trump reúnem-se nesta quinta-feira (7) na Casa Branca. A reunião bilateral poderá consolidar uma relação civilizada, em que cada país trabalha pelos seus interesses legítimos e em conformidade com as limitações geopolíticas determinadas pelo Direito Internacional. Ou poderá não sê-lo, já que o anfitrião é imprevisível e já ofendeu sem qualquer pudor outros chefes de Estado por ele recepcionados.

Lula tem a seu favor a honestidade intelectual e a qualidade do corpo diplomático brasileiro. Trump pode, é verdade, rebater as recentes críticas feitas pelo brasileiro, em grandes eventos progressistas na Europa, à maneira como os Estados Unidos tem se portado - em síntese, o modo trumpiano é de absoluto desprezo pelas convenções internacionais.

“Do presidente Trump pode-se esperar qualquer tipo de reação, mas me parece que os arroubos contra o Brasil ficaram para trás, especialmente por conta da ação da diplomacia, seja a diplomacia de Estado, seja a diplomacia empresarial, que modificaram as relações entre os governos”, avaliou o professor de Direito Internacional da USP Wagner Menezes, membro do quadro de árbitros da ONU.

Para qualquer chefe de Estado em condição de sanidade, as falas de Lula traduzem sua postura ideológica democrática e humanista, ainda que não divergentes dos posicionamentos oficiais do Brasil. Num encontro como o que ocorrerá amanhã, discursos pretéritos proferidos em eventos, palanques e congêneres costumam ser desconsiderados, a bem do pragmatismo. Venezuela e Irã, certamente, são pontos que podem gerar curto-circuito durante a conversa.

Além de questões comerciais, tarifas, terras raras etc., o governo brasileiro deverá buscar algum tipo de parceria com Washington para combate ao crime organizado, calcada em pontos concretos de atuação, como ações contra a lavagem de dinheiro, o compartilhamento de dados financeiros de suspeitos e a busca por pessoas foragidas. À primeira vista, o gesto pareceria um afrouxamento da soberania nacional brasileira, contrariando o discurso de que não somos um país dominado pelo crime nem aceitamos que outro país venha combater quem quer que seja dentro do nosso território. Mas não é bem assim.

Trata-se, como nos explicou em março o professor Wagner Menezes, de uma linha estratégica: “Eu acho bastante positivo, acho que isso gera um determinado tipo de linguagem diplomática propositiva cujo objetivo é justamente evitar algum tipo de intervenção mais contundente dos Estados Unidos no Brasil. Esse tipo de iniciativa diplomática desarma qualquer narrativa do governo norte-americano nesse campo”.

A conversa, portanto, tende a caminhar muito bem, salvo algum surto imperial e mal-educado do anfitrião. De todo modo, à sua frente estará um chefe de Estado talhado tanto para a negociação quanto para o confronto, respeitado globalmente por sua luta por um mundo mais justo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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