Distritão é retrocesso antidemocrático

O "distritão" faz com que os partidos se concentrem somente nos candidatos mais fortes. Isso dificulta a renovação nas próximas eleições, personaliza ainda mais o voto e se torna interessante apenas aos líderes partidários e aos candidatos famosos ou ricos. É mais uma barreira para a participação popular, mais um grande retrocesso para a nossa já tão surrada democracia

Vista geral do plenário da Câmara dos Deputados 2/8/2017 REUTERS/Adriano Machado
Vista geral do plenário da Câmara dos Deputados 2/8/2017 REUTERS/Adriano Machado (Foto: Reginaldo Lopes)

O modelo político chamado de "distritão", que será votado na semana que vem em Plenário na Câmara dos Deputados é mais um retrocesso disfarçado de modernização. A tese de que o modelo acabaria com os chamados "puxadores de voto" simplesmente com a eleição dos mais votados pode soar bem aos ouvidos, mas não passa de mais uma arma da velha política, justamente o que tem que ser combatido. Um truque. Arrisco dizer: mais um golpe.

Os partidos, como se sabe, passam por uma profunda crise de representatividade, que o "distritão" só faz aprofundar, uma vez que os enfraquece ainda mais. Uma democracia sólida exige partidos organizados, fortes e com um projeto claro a ser apresentado à sociedade. O que querem aprovar destrói um importante instrumento de participação coletiva na política em detrimento do individualismo e dos interesses econômicos.

A Reforma Política que o país precisa deve apontar para a necessidade de ressignificar os partidos, combater a corrupção, além de acabar com as siglas de aluguel, ressignificando, também, a própria democracia.

É justo que as legendas mais votadas tenham maior representação nos parlamentos. Isso ajuda a estabilidade política e obriga os partidos a se posicionarem claramente perante a um determinado governo ou determinada proposta. Assim, o muro não ficaria tão largo para caber tantos partidos em cima dele. Seria necessário um posicionamento não meramente fisiológico. Os votos dados a uma corrente de pensamento devem ajudar a eleger o máximo de deputados e vereadores possíveis daquela corrente e não se concentrar em um ou dois candidatos mais conhecidos.

O "distritão" faz com que os partidos se concentrem somente nos candidatos mais fortes. Isso dificulta a renovação nas próximas eleições, personaliza ainda mais o voto e se torna interessante apenas aos líderes partidários e aos candidatos famosos ou ricos. É mais uma barreira para a participação popular, mais um grande retrocesso para a nossa já tão surrada democracia.

A contribuição histórica dada pelo Partido dos Trabalhadores foi, sem dúvidas, a inclusão social e política que resultou em maiores demandas sociais, cujas consequências exigiram uma maior democratização do poder político. Uma massa de novos consumidores- cerca de 40 milhões de pessoas- ajudou o Brasil a ganhar confiança em si e promover seu despertar na comunidade internacional, firmando-se como partícipe influente na nova geopolítica global. Um chamado player.

O golpe político das elites visou barrar esse movimento social renovador, por diferentes frentes. Impedir o avanço progressista se tornou a principal agenda daqueles que mais se beneficiam do modelo de desenvolvimento econômico concentrador de renda e poupador de mão de obra.

Os trabalhadores expulsos do mercado de trabalho já alcançam os 20% da população economicamente ativa, se levarmos em consideração os formais e informais, sucateados pela bárbara política em marcha.

Emergiu, no lugar da prioridade ao social, a missão antissocial e antinacional de favorecer interesses externos, empenhados na privatização dos nossos principais ativos; como as estatais de eletricidade, petróleo, gás, terras, biodiversidade e energias diversificadas, bem como nosso processo de industrialização, pelo empobrecimento econômico, refletido na destruição do poder de compra dos salários.

O governo ilegítimo e neoliberal de Temer é a cara do "distritão", como regra de promoção da exclusão social na representação política.

Trata-se da consagração da elite, cuja estratégia econômica, leva o Brasil para o passado, para a República Velha, quando os direitos sociais e econômicos eram considerados questão de polícia.

Defendemos um sistema eleitoral inclusivo, com base ampla de participação da nossa população em sua diversificação social. A fixação da paridade de gêneros, é um exemplo disso.

Nada disso é possível, se prevalecer os interesses da maioria parlamentar conservadora, interessada, prioritariamente, em elitizar a representação legislativa, que sustenta o governo ilegítimo, cuja missão, no poder, há 13 meses, é a de segregar social e economicamente o país.

Desse modo, não podemos, de jeito nenhum, concordar com proposta do "distritão", modelo eleitoral elitista, que visa, sobretudo, barrar tudo aquilo que construímos, para o avanço da nossa democracia.

Teremos, com o "distritão", um Congresso ainda mais conservador, mais voltado à maior concentração de renda, mediante rendição aos interesses do mercado financeiro especulativo, como já se evidencia pelas ações da maioria parlamentar que aprovou a contrarreforma trabalhista e se prepara para aprovar a Reforma da Previdência.

Nosso Congresso, com essa tentativa de eternizar prioridade à elitização política, se afundará, ainda mais, no descrédito popular, marchando na contramão dos interesses populares, cuja principal demanda é, sem dúvida, democratização do poder político.

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