Ditaduras, ditaduras... e proliferam ditaduras
Os liberais encontraram sua última trincheira retórica: gritar "ditadura" para tudo que não se molda exatamente ao modelo da democracia liberal
O mundo está mudando. Nisso, todos parecem concordar. Mas qual é, afinal, a natureza dessa mudança? A resposta que ecoa pelos corredores da mídia hegemônica, das universidades liberais e dos think tanks ocidentais é quase uníssona: proliferam as ditaduras. Venezuela, Nicarágua, China, Rússia, Irã — a lista cresce ao sabor das conveniências geopolíticas. Porém, essa narrativa esconde mais do que revela. O que realmente colapsa diante de nossos olhos não é a democracia em si, mas os parâmetros do liberalismo como régua universal para julgar as configurações sociopolíticas do planeta.
Trump não é a causa dessa transformação. Ele é seu sintoma mais recente e, talvez, mais escancarado. Quando o presidente da autoproclamada maior democracia do mundo ameaça anexar territórios de aliados, usar força militar contra vizinhos e governar por decretos que desafiam a própria Constituição americana, fica difícil sustentar que o problema são os "regimes autoritários" do Sul Global.
A agonia liberal: de 2008 ao presente
O liberalismo — ou neoliberalismo, para quem prefere maior precisão conceitual — tenta se reinventar desde a crise dos derivativos de 2008 nos Estados Unidos e a subsequente crise da zona do euro. Ali, algo fundamental se rompeu. Quando Obama comprou participações em empresas americanas falidas com dinheiro público, relativizou-se silenciosamente o dogma central do credo liberal: o Estado como problema, nunca como solução. De repente, o Estado podia ser uma "rede de proteção". Parece pouco. Mas era mais do que se permitia ao poder público ser até então.
O conjunto de valores da democracia liberal — a separação "técnica" e "distante" dos poderes, o equilíbrio institucional como fim em si mesmo, o mercado como motor natural do progresso — foi sendo corroído pela crítica pragmática dos fatos. De 2008 para cá, o mercado se mostrou incapaz de gerar crescimento sustentável, incapaz de reduzir a desigualdade econômica que corrói o tecido social e incapaz de salvar o planeta da catástrofe climática que suas próprias engrenagens produzem.
A pandemia de Covid-19 foi o teste final. Em momentos de crise existencial, o capitalismo entrou em modo de sobrevivência — e o resultado foi a produção acelerada de super-bilionários, amparados na violência estrutural contra o restante da população. Enquanto milhões morriam sem oxigênio, as fortunas de Musk, Bezos e seus pares se multiplicavam. O mercado não salvou ninguém. O Estado, capturado, salvou apenas quem já tinha tudo.
A esquerda institucionalista e a direita fascista
Diante desse cenário de decomposição, as respostas políticas se bifurcaram de maneira reveladora.
A esquerda mundial, em grande medida, tornou-se institucionalista. Passou a defender poderes constituídos, a invocar a "democracia" — aceitando docilmente os adjetivos liberais que a qualificam: representativa, social, inclusiva. Adjetivos que funcionam como álibis para um substantivo que se mostrou incapaz de resolver os problemas que o próprio mercado cria. Defender as instituições contra o fascismo é necessário, sem dúvida. Mas confundir a defesa tática das instituições com um projeto estratégico de transformação é o caminho mais curto para a irrelevância histórica.
A direita mundial, por sua vez, fez renascer a solução histórica do fascismo. Negou a continuidade do Estado liberal, negou a ideia de sociedade igualitária e trouxe de volta a "lei do mais forte" — agora travestida de "meritocracia", de "empreendedorismo", de "liberdade individual". O projeto é claro: autocracia oligárquica com verniz democrático, militarismo como política externa e violência como gestão social.
O grito liberal: "Ditadura!"
Encurralados entre uma esquerda que se aceita pajem e uma direita que rasga regras, os liberais encontraram sua última trincheira retórica: gritar "ditadura" para tudo que não se molda exatamente ao modelo da democracia liberal. O checklist é conhecido: submissão completa às instituições liberais, submissão aos pactos jurídicos internacionais (tratados, constituições, leis moldadas pelo consenso de Washington), aceitação da propriedade privada como sacrossanta e intocável.
Mobilizam-se todas as redes de comunicação, universidades e aparatos culturais para denunciar o "neopopulismo", a "ruptura institucional", a "ameaça autocrática". Mas essa cruzada serve, sobretudo, para esconder um fato incômodo: os países que efetivamente avançam para transformar a ordem mundial são todos "não liberais". A China, com seu modelo de socialismo de mercado sob direção do Partido. A Rússia, com uma autocracia historicamente centrada em lideranças fortes. E agora os próprios Estados Unidos, que elegeram Trump justamente para abandonar as amarras liberais e entrar nessa disputa de poder nu e cru.
Trump transforma os EUA em um híbrido de negação liberal com autocracia personalista, usando abertamente os meios militares para pressionar aliados e adversários. Já vimos esse filme. Chamava-se período entreguerras.
A hipocrisia seletiva
A Venezuela "é uma ditadura". O Irã "é uma ditadura". A Nicarágua "é uma ditadura". Os gritos liberais se despejam por todos os jornais, em todas as línguas. Mas sobre a França de Macron, que ignorou o resultado das últimas eleições legislativas e governa contra a maioria parlamentar, silêncio constrangido. Sobre a União Europeia, que desde o final dos anos 1990 acumula críticas sobre seu "déficit democrático" e segue tomando decisões monumentais sem qualquer participação popular efetiva, silêncio cúmplice.
Torce-se o nariz para China, Vietnã, Cuba — países que, com todas as suas contradições, tiraram centenas de milhões da pobreza extrema. Mas esconde-se a queda da própria ordem liberal. Esconde-se que o rei está nu.
Não há mais centro
É preciso dizer com clareza, especialmente para o Brasil: não existe mais "centro político". O que se apresenta como centro em nosso país é um espaço de fake news política, sistematicamente utilizado pela extrema direita para legitimar suas posições e cooptar incautos. O famoso "centrão" brasileiro não é um projeto político: é um balcão de negócios que se vende ao melhor pagador. E hoje é o fascismo que paga.
O que existe, de fato, é uma disputa entre dois projetos antagônicos: de um lado, o projeto inclusivo e igualitário que busca superar a democracia liberal por meio da ampliação radical da participação popular e da democratização da economia — defendido, com maior ou menor coerência, pelas esquerdas. De outro, o projeto autocrático, militarista e belicista da extrema direita — que não quer "reformar" a democracia liberal, mas substituí-la por uma oligarquia abertamente autoritária.
2026: saber pelo que lutamos
Que não cometamos, no Brasil, o erro de fazer uma campanha eleitoral "de amor", convidando o eleitorado a se virar para um "centro" que não existe. Que combatamos a autocracia da extrema direita em suas mais variadas formas — desde a loucura intervencionista de Trump, que reverbera por aqui, até a autocracia flatulenta do bolsonarismo, com sua mistura de milícias, pastores e saudosismo da ditadura.
2026 será, sim, um ano de muita luta. Mas precisamos saber pelo que lutamos. O mundo está mudando, mas é preciso compreender a natureza da mudança.
Requiescat in pace, ordem política e social liberal. O capitalismo luta para manter o controle sobre a ordem econômica — mas já aceita não ser liberal, desde que continue sendo oligárquico. A questão que resta é se a alternativa será construída pelos povos, em seu próprio interesse, ou se será mais uma vez imposta de cima, com tanques, algoritmos e bilionários.
A resposta depende, em boa medida, de abandonarmos a ilusão de que defender a democracia liberal é defender a democracia. E de compreendermos que gritar "ditadura" para todo lado é, hoje, a forma preferida de esconder que a verdadeira ditadura — a do capital financeiro globalizado — nunca precisou de generais para governar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



