Dois pesos e duas medidas: Wagner é massacrado enquanto Flávio Bolsonaro e Ibaneis seguem blindados
Autorizada por André Mendonça, operação da PF levanta dúvidas sobre critérios de investigação e o uso político do sistema de justiça
A operação da Polícia Federal que teve como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, produziu um forte impacto político e midiático. Não apenas pela relevância institucional do parlamentar, um dos principais articuladores do governo no Congresso, mas também pelos elementos conhecidos até agora da investigação.
Pelo que foi divulgado da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, não teria sido apontado um ato de ofício praticado por Jaques Wagner em benefício do Banco Master ou de qualquer outro interessado. Trata-se de um dado relevante. Em investigações envolvendo agentes públicos, a demonstração de uma contrapartida concreta vinculada ao exercício do cargo costuma ser elemento essencial para caracterizar eventual favorecimento indevido.
Isso não significa que a investigação não deva prosseguir ou que novos fatos não possam surgir. Significa apenas que, até o momento, o debate público parece ter sido influenciado mais pelo impacto visual da operação do que pela apresentação de elementos objetivos contra o senador.
As imagens dos dólares e euros apreendidos em um cofre utilizado por Wagner em Brasília ganharam destaque nacional. As cédulas organizadas em fileiras produziram o efeito simbólico desejado por qualquer operação de grande repercussão: a associação imediata entre dinheiro em espécie e suspeita de irregularidade.
Mas o espetáculo visual não substitui a prova.
A explicação apresentada pelo senador é, ao menos em tese, plausível e verificável. Segundo sua defesa, os 55 mil dólares e 33 mil euros encontrados pela Polícia Federal correspondem a diárias recebidas do Senado Federal para missões oficiais no exterior. Como as despesas teriam sido realizadas com cartão de crédito, os valores não foram utilizados e permaneceram guardados. Wagner afirma possuir documentação capaz de comprovar a origem legal dos recursos.
O mesmo ocorre em relação ao apartamento mencionado na investigação. O senador sustenta que o imóvel jamais integrou seu patrimônio e afirma que a proposta apresentada a Augusto Lima envolvia a aquisição de uma unidade ainda em construção para posterior recompra por sua filha.
São alegações defensivas que precisarão ser confrontadas com as provas.
Outro aspecto chama atenção. A investigação parece buscar conexões com fatos ocorridos muito antes do surgimento do próprio Banco Master. A privatização da rede Cesta do Povo, por exemplo, ocorreu em 2017. O Banco Master só seria criado dois anos depois, em 2019. A distância temporal entre os eventos não impede investigações, mas suscita questionamentos sobre a centralidade desses fatos dentro de um caso que tem origem em operações financeiras muito mais recentes.
E é justamente nesse ponto que surge uma pergunta incômoda.
Existem episódios contemporâneos e diretamente relacionados ao universo financeiro do Banco Master que, ao menos aparentemente, teriam prioridade investigativa. O principal deles envolve as operações entre o banco e o BRB, que alcançaram cifras bilionárias e geraram enorme repercussão pública, incluindo questionamentos sobre ativos de alto risco e negócios estimados em cerca de R$ 12 bilhões.
Entretanto, não se viu até agora o mesmo aparato ostensivo direcionado a personagens políticos associados a essas operações.
A comparação é inevitável. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, não foi alvo de buscas ou medidas semelhantes. Tampouco houve operação de igual repercussão envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, apesar da divulgação de mensagens e áudios relacionados a pedidos de apoio financeiro para o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Evidentemente, a simples diferença de tratamento não prova perseguição política. Mas a ausência de critérios aparentes e uniformes alimenta dúvidas legítimas.
Numa democracia, a credibilidade das instituições depende não apenas da legalidade de seus atos, mas também da percepção de imparcialidade. Quando determinados agentes públicos são submetidos a operações de alto impacto midiático e outros personagens ligados ao mesmo ambiente de interesses permanecem fora do foco ostensivo, abre-se espaço para questionamentos sobre seletividade.
Talvez seja injusto concluir que exista motivação política. Mas também seria ingênuo ignorar que a política brasileira está repleta de investigações que, ao longo da história recente, produziram efeitos políticos antes mesmo de produzirem sentenças.
A própria nota divulgada pela assessoria de Jaques Wagner procura enfatizar esse aspecto ao lembrar que o senador "não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados". A defesa também afirma que "o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar" e que os valores apreendidos são "fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais".
A palavra final caberá à Justiça.
Mas a política não espera o fim dos processos.
Por essa razão, Jaques Wagner deveria considerar um afastamento temporário da liderança do governo no Senado. Não como admissão de culpa, mas como gesto de responsabilidade institucional. O precedente existe. Em 1993, o então ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, acertou com o presidente Itamar Franco seu licenciamento do cargo para dedicar-se integralmente à própria defesa diante de denúncias que surgiram contra ele. A lógica era simples: preservar o governo enquanto os fatos eram esclarecidos. Posteriormente inocentado, Hargreaves retornou ao cargo com sua reputação restabelecida.
O mesmo raciocínio poderia ser aplicado agora.
Se Jaques Wagner está convicto de sua inocência — e sua nota pública demonstra essa confiança —, um afastamento temporário da liderança lhe permitiria concentrar-se na apresentação de documentos e esclarecimentos, sem transferir ao governo Lula o desgaste político decorrente da investigação.
A presunção de inocência deve ser preservada. Mas a prudência política também é uma virtude republicana.
Num momento em que pairam dúvidas não apenas sobre os fatos investigados, mas também sobre os critérios adotados para investigar, a melhor resposta talvez seja aquela que fortalece simultaneamente a defesa do senador e a estabilidade do governo: transparência, serenidade e um afastamento temporário até que a verdade prevaleça.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




