Dossiê Tarcísio: os números que desmentem o "bom gestor"
Documento produzido pela bancada do PT na ALESP confronta o discurso do governador com dados das próprias fontes oficiais do Estado
Tarcísio de Freitas construiu sua imagem sobre um pilar central: a competência técnica. O governador de São Paulo se apresenta como gestor eficiente, responsável fiscalmente e comprometido com resultados. É uma narrativa poderosa e, segundo dossiê produzido pela bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo, profundamente falsa.
O documento confronta o discurso oficial com dados das próprias fontes do Estado — SEFAZ, CNES, TCE, IDEB e revela um padrão consistente: promessas infladas, números manipulados, serviços degradados e transferência sistemática de recursos públicos ao setor privado.
Na saúde, o governo afirmou ter criado 8 mil novos leitos SUS. Os dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde mostram o oposto: houve redução de 440 leitos entre 2022 e 2025. Para sustentar a narrativa, a Secretaria da Saúde inventou a categoria de "leitos equivalentes", calculados pelo número de internações e não pela capacidade instalada real. Enquanto isso, o TCE identificou falta crônica de pessoal em hospitais estaduais e o número de leitos indisponíveis cresceu 80% em cinco anos.
Na educação, o governador afirmou publicamente que 30% dos alunos do ensino médio estavam em cursos técnicos. Os dados oficiais apontam 17,9%. O IDEB caiu a patamares piores do que durante a pandemia. Quase meio bilhão de reais foram gastos em plataformas digitais sem qualquer melhora comprovada nos indicadores, beneficiando o setor privado de tecnologia, com o conflito de interesses explícito do secretário Renato Feder. O Programa Escola Cívico-Militar, aprovado sem debate com educadores, paga R$ 6 mil a monitores policiais enquanto professores partem de um piso 46,5% abaixo do nacional.
Na segurança pública, o uso da força como política central produziu resultados contrários ao prometido. O número de jovens entre 10 e 19 anos mortos por policiais cresceu 120% — de 35 para 77 vítimas entre 2022 e 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dentro das corporações, 653 policiais foram afastados por causas psiquiátricas em 2024 e mais de 1.300 coletes balísticos vencidos continuam em uso. O déficit de efetivo supera 27 mil vagas entre PM e Polícia Civil. O feminicidio no estado aumentou em quase 300% durante a gestão de Tarcísio de Freitas.
Nas privatizações, a entrega da Sabesp e da EMAE ao mercado financeiro produziu piora da qualidade da água nas periferias, tarifas acima da inflação, precarização dos serviços e do trabalho.
No caso da EMAE, o dossiê descreve uma operação financeira elaborada envolvendo o Fundo Phoenix, ligado à Faria Lima, com ações artificialmente valorizadas em 840% entre abril e outubro de 2024. Recursos de fundos de pensão de trabalhadores foram usados para financiar a operação. Houve inadimplência intencional de debêntures para viabilizar a transferência do controle da EMAE à Sabesp — consolidando nas mãos de um grupo privado o controle dos mananciais da RMSP, do fluxo dos Rios Pinheiros e Tietê e de quatro usinas geradoras de energia elétrica.
As Operações Carbono Oculto e Compliance da Polícia Federal confirmaram suspeitas de lavagem de dinheiro do PCC através de fundos ligados a essa mesma teia de interesses.
No setor agrário, o "presente" para os grandes latifundiários seguiu em ritmo acelerado em 2025, com descontos de até 90% no valor de terras devolutas, enquanto a reforma agrária e o apoio à agricultura familiar foram virtualmente paralisados.
Na corrupção, o "Propinão do ICMS" — esquema de fraude fiscal facilitado por decreto assinado pelo próprio Tarcísio — produziu empresas de fachada com crescimento patrimonial de R$ 411 mil para R$ 1 bilhão em três anos. O TCE aponta que 90% das renúncias fiscais do governo beneficiam apenas 2,5% dos contribuintes, com projeção de R$ 85,6 bilhões em 2026.
O bom gestor não existe nos dados. Existe um projeto político coerente baseada no marketing político, na austeridade para trabalhadores, na precarização aos acessos dos serviços públicos por parte da população, principalmente, a mais vulnerável e generosidade sem critério para o mercado. O dossiê da bancada petista na ALESP é um alerta para que essa narrativa não chegue às eleições de 2026 sem ser confrontada com a realidade que ela ajudou a construir.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



