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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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É bom preservar o Supremo. Vai que Deus tirou folga e caiu na folia

"A fragilização das instituições, ainda mais a última instância de poder do Judiciário, não interessa à sociedade"

Supremo Tribunal Federal (Foto: Gustavo Moreno/STF)

Ao ser recebido no dia 27 de abril de 2018, pela presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, o ex-presidente do Chile, (morto em um acidente de helicóptero em 6 de fevereiro de 2024) Sebastián Piñera, indagou em tom descontraído, a quem se poderia recorrer quando a Corte falha em suas decisões.

A pergunta causou breve desconforto entre os ministros do Supremo presentes ao encontro – além de Cármen, os ministros Dias Toffoli e Edson Fachin -, mas foi logo respondida pelo próprio Piñera: "À instância suprema", disse, apontando para cima, em referência a Deus.

Ao que parece, no dia 12/02, Deus parece ter tirado folga para se preparar para o carnaval. Não compareceu à reunião a portas fechadas – com funcionários dispensados, incluindo copeiros -, onde o coro comeu. Dois dos personagens presentes ao encontro com Piñera, na ocasião, estavam agora, ali e se colocaram firmes pelo afastamento do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, durante a reunião. Isso, depois de chegar às mãos do ministro e presidente da Corte, Edson Fachin, um calhamaço de 200 páginas contendo investigações da Polícia Federal, pedidas "por ninguém", sobre relações de Toffoli com o dono do banco, Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel.

A reunião foi presencial, contando com Edson Fachin, Carmem Lúcia, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Nunes Marques (além de Toffoli). Nessa reunião, André Mendonça e Luiz Fux participaram de forma virtual, enquanto os demais estavam presencialmente em uma mesma sala.

Conforme já sabido e publicado, houve vazamento de falas significativas e a suspeita de ter gravado a reunião, pelo resultado – Toffoli recebeu apoio de todos os colegas, com exceção dos acima citados -, recaiu sobre ele, que ajeitaria a própria imagem, caso o assunto caísse na opinião pública. Afastado da relatoria por gesto próprio, apesar do resultado positivo registrado em nota, o algoritmo escolheu o ministro André Mendonça para substituí-lo.

Mendonça não podia imaginar que seria o próximo relator. Mendonça tem proximidade e afinidades com o ministro Toffoli. Mendonça é, como sabido, bolsonarista. Mendonça participou online da reunião. E daí? E daí que a reunião, que foi online, deve ter sido gravada para entrar para os anais do Supremo Tribunal Federal (STF). E se houve participação online...

Levando em conta tudo o que já se debitou na comanda do ministro Toffoli, melhor não esmiuçar o seu caso aqui, pois gastaria espaço precioso. Sim, ele puxou o caso para o Supremo. Sim, ele manteve silêncio sobre a sua participação na empresa Maridt. Sim, Toffoli fez manobras estranhas depois da coleta de material das investigações da PF...

Mas, a preocupação geral e, em particular, da ministra Carmem Lúcia, é que "Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo". O problema, ministra, não se restringe aos taxistas. Antes deles vêm as ações da mídia, se é que a senhora me entende.

E o fenômeno não é novo. Para os mais atentos, o vazamento contínuo, insistente e em decibéis acima do normal, na mídia, trouxe de volta o fantasma dos desmandos da Lava-Jato, operação que levou ao descrédito os políticos e abriu caminho para a lorota do "outsider" Jair Bolsonaro, que acabou se esborrachando na cadeira de presidente, sem saber o que fazer com ela.

É preciso ter em mente, porém, que sempre que o país está polarizado, ou a corda se estica em ano de eleição, saem da toca os radicais de plantão para "semear" uma narrativa demolidora, ou monta-se uma usina de boatos que tenta varrer de cena a democracia.

Foi assim, em 1937, com a divulgação do "Plano Cohen", um documento apócrifo distribuído aos órgãos de imprensa, atribuído ao general Olympio Mourão Filho (o que iniciou o golpe de 1964), e que serviria para justificar a implantação do Estado Novo. O mesmo se deu entre 1962/1964, com a verdadeira usina de boatos montada pelo Ipês – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais -, até a queda de João Goulart. E não foi diferente quando se planejou a derrubada de Dilma Rousseff, aí sim, com vazamentos da Operação Lava-Jato.

Vazamentos seletivos, em ritmo frenético, até que as notícias engrenam e um clima de insatisfação se estabelece na população, que passa a querer o que os jornais querem: a derrubada ou a troca de poder. Estamos apenas no início desse processo. A fragilização das instituições, ainda mais a última instância de poder do Judiciário, não interessa à sociedade, nesse momento, em que o país se prepara para eleger o próximo presidente da República.

A saída da ribalta de Dias Toffoli, não pode ser a primeira de outras enxovalhadas em nomes do Supremo. Já se sabe desde 2025, que o plano da ultradireita é dominar o Senado para conseguir o impeachment dos envolvidos na prisão dos golpistas de oito de janeiro, Alexandre de Moraes à frente. De acordo com "fontes" de O Globo, ele seria o próximo.

Passo seguinte, a libertação descarada de Bolsonaro e seus cúmplices, a tempo de subir nos palanques de Flavio, e completar o serviço tentado desde junho de 2022. Vamos apostar nesse desfecho, ou vamos ter em mente que é bom preservar o Supremo? É bom preservar o Supremo. Vai que Deus tirou folga e caiu na folia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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