Haddad não quer imprimir à sua carreira, o rótulo de perdedor
Haddad, se tem planos futuros na política, já entendeu que não pode e não deve entrar numa corrida eleitoral para governador e sair derrotado pela quarta vez
Em 2022, assim que Lula foi eleito, ele partiu para o Egito, onde participou da Conferência do Clima. Havia especulações em torno da nomeação do ministro da Fazenda. Um dos nomes cotados foi o de Fernando Haddad. Ao vê-lo partir junto com Lula para viagem de tamanha importância, ficou claro que seria ele o nomeado para a pasta.
Agora, que anunciou a sua saída do ministério já em janeiro, mas foi ficando, deixou transparecer que fez o anúncio sem muita convicção. Quer sair, mas vai ficando, o que passa a impressão de que as especulações em torno do seu nome têm fundamento. Como até as chapas de concreto da rampa do Planalto sabem, a pressão é para ele: ou se candidatar ao governo de São Paulo, ou ao senado, pelo mesmo estado. Seu nome para esta opção, a do senado, está muito bem-posicionado, enquanto para o cargo de governador, vem sempre acompanhado do apêndice: mas Tarcísio está praticamente eleito.
Esse comentário repetido à exaustão à esquerda, à direita e entre comentaristas de ambos os lados, virou um mantra que permitirá a Tarcísio, praticamente, a nem precisar fazer campanha. Nos tornamos todos seus cabos eleitorais. Maior propagando não há.
Haddad dá mostras de que está cansado e um tanto agastado com disputas. Talvez os embates com o ministro da Casa Civil, Rui Costa – um dos pretendentes (sem nenhum carisma) a substituir Lula, em 2030, daí os enfrentamentos -, o tenham exaurido. Ou, hipótese mais viável, Haddad sonhou com a chapa puro sangue já para a eleição vindoura. Por vaidade? Não. Por discussões com o presidente Lula que nós nem imaginamos o conteúdo. Quem sabe até mesmo a possibilidade de entrar em campo inesperadamente nesse pleito.
Lula está bem-disposto, apostando todas as fichas na preparação física na esteira, mas apaixonado e com pouco tempo para desfrutar da vida ao lado de sua companheira, Janja da Silva. Quem garante que esse dado não tenha rolado pelas conversas entre ambos? Haddad é como um filho para Luiz Inácio, que vê nele alguém da sua estrita confiança. Por esse conjunto de fichas, é de se compreender que o ritmo tem sido lento. Tanto o da decisão de Haddad, quanto nas articulações de Lula, que se por um lado botou fogo na militância, pedindo que vá à guerra nas redes sociais, por outro imprimiu dúvidas e discussões estratégicas em torno da vaga de vice.
Tudo isso será evidenciado com a ida ou não de Haddad para a longa viagem à Índia, com retorno por Washington, onde a pauta será basicamente econômica. Como citei acima, a viagem ao Egito, em 2022, logo após a eleição, foi definidora para a escolha de Fernando Haddad para ministro da Fazenda. Desta vez, essa longa viagem vai ser o momento em que saberemos que rumo o ainda ministro irá tomar. Se partir com Lula, deixará a porta aberta para aceitar a candidatura. Ao senado, que fique claro.
Haddad, se tem planos futuros na política, já entendeu que não pode e não deve entrar numa corrida eleitoral para governador e sair derrotado pela quarta vez, a um cargo majoritário. Com que moral chegará a 2030? Levará, de forma inclemente o título de perdedor, o que não é construtivo para a biografia de nenhum político. Quando se recusa – e com todas as razões -, a candidatura para governador de São Paulo, está evitando o rótulo, nada edificante para o seu currículo de pretendente a substituto de Lula.
Em 2012 Fernando Haddad foi eleito prefeito no município de São Paulo em segundo turno com 55,5% dos votos válidos (3.387.720). Seu adversário foi José Serra (PSDB), que conseguiu 44,43% (2.708.768) dos votos na disputa eleitoral. Fez bonito, ganhou prêmio internacional pela atuação na prefeitura, apesar de ter sido mal avaliado, deixando a prefeitura com um índice de aprovação na casa de 14%. Daí por diante, porém, suas corridas eleitorais não obtiveram sucesso.
Como destacou matéria da CNN, após a eleição, em 2022, na sequência, na esteira de denúncias que atingiram o PT e motivaram o impeachment de Dilma, em 2016, Haddad acabou perdendo em sua tentativa de reeleição, terminando em segundo lugar, com 16,70% dos votos válidos. O eleito foi João Doria, que alcançou 53,29% e venceu ainda no primeiro turno.
Há quem vá argumentar que Lula também competiu e perdeu três vezes, sendo eleito apenas na quarta. Mas uma coisa é ser Lula, e persistir. A outra é concorrer à reeleição como prefeito – quando não passou para o segundo turno – e governador. Marca muito. Haddad quer se preservar. Sabe que construiu uma carreira sólida na vida pública e quer preservá-la.
Por toda a cumplicidade que tem com o presidente Lula, Haddad não vai recusar um pedido dele. Tampouco vai se bater pé e, por qualquer atropelo, ser acusado amanhã de ter se negado a colaborar. Tampouco vai desbancar Geraldo Alckmin da vice-presidência, tendo sido ele a costurar a chapa para 2022.
Vamos aguardar os próximos movimentos. Lula vai precisar da competência de seu ministro da Fazenda na conversa com Donald Trump, na volta da viagem à Índia. Caso embarque, na volta teremos Haddad em campanha para o senado. O mundo dá voltas, a política também.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



