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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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E falou o “dono do mundo”

O nacionalismo é inflamado quando convém ao discurso doméstico, mas torna-se silencioso diante de manifestações vindas da Casa Branca

Donald Trump (Foto: Daniel Torok/Casa Branca)
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As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política brasileira revelam a dificuldade do imperialismo norte-americano em aceitar que outros países sejam capazes de decidir seus próprios destinos sem tutela externa.

Ao comentar a situação política do Brasil durante a reunião do G7, o líder republicano afirmou que o país estaria se tornando "politicamente perigoso" e fez referências confusas à família Bolsonaro, chegando a mencionar a suposta prisão de um dos filhos do ex-presidente — algo que sequer ocorreu. O episódio seria apenas mais uma demonstração de desinformação, não fosse o simbolismo que carrega.

A questão central não é o querer de bem entre Trump e Bolsonaro. Em uma democracia, líderes políticos podem ter afinidades, alianças e preferências. O problema surge quando essas preferências atravessam a fronteira da diplomacia e passam a tangenciar a tentativa de interferência em assuntos internos de outra nação.

Foi justamente esse ponto que Lula destacou ao responder que Trump pode gostar "do pai, do filho ou do neto", mas não deve se meter nas eleições brasileiras. Independentemente de concordâncias ou divergências políticas, trata-se de uma observação alinhada a um princípio básico do direito internacional: a soberania dos Estados.

O curioso é que muitos dos que costumam se apresentar como defensores intransigentes da pátria, da bandeira e da independência nacional demonstram uma tolerância surpreendente quando a ingerência vem de Washington. O nacionalismo, nesses casos, parece funcionar com seletividade. É inflamado quando convém ao discurso doméstico, mas torna-se silencioso diante de manifestações vindas da Casa Branca.

A história latino-americana oferece exemplos suficientes para justificar cautela. Durante décadas, a região conviveu com pressões econômicas, interferências diplomáticas e tentativas explícitas de influência política promovidas por governos estrangeiros. Por isso, a defesa da soberania não deveria ser uma bandeira de esquerda ou de direita. Deveria ser um consenso mínimo entre todos os que valorizam a democracia.

Outro aspecto preocupante é a naturalização da desinformação no debate político internacional. Quando um chefe de Estado reproduz informações incorretas sobre outro país, especialmente sobre processos judiciais e eleitorais, contribui para ampliar ruídos, alimentar narrativas conspiratórias e enfraquecer a confiança pública nas instituições. Em tempos de redes sociais e polarização extrema, palavras presidenciais atravessam fronteiras com velocidade e impacto muito maiores do que no passado.

O Brasil tem inúmeros problemas a resolver, como desigualdade, violência, crescimento econômico, emprego e desenvolvimento. Nenhum deles será solucionado por líderes estrangeiros opinando sobre quem deve ou não disputar eleições. Essa é uma escolha que cabe exclusivamente aos brasileiros e às brasileiras, dentro das regras estabelecidas pela Constituição e pelas instituições do país.

Em uma ordem internacional cada vez mais marcada por disputas geopolíticas e tentativas de influência, defender a soberania nacional continua sendo uma necessidade democrática. Não porque governos sejam infalíveis, mas porque nenhum país pode abrir mão do direito de decidir seu próprio futuro.

Afinal, democracia só existe plenamente quando o voto pertence aos cidadãos e às cidadãs de uma nação — e não aos interesses, preferências ou caprichos de governantes estrangeiros.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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