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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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Ele não é um filho de Goebbels

O publicitário Stalimir Vieira lança “Provocações”

Stalimir Vieira (Foto: Arquivo pessoal | Reprodução/Instagram/@stalimirvieira)

Muitos garotos dos anos 70, inclusive eu, desistiram da profissão depois que um dos gurus da época, o diretor teatral Zé Celso Martinez Corrêa, proclamou que “os publicitários são filhos de Goebbels”. Nem todos fizeram como eu, é claro.

Apesar de ser filho de um casal filiado ao Partidão e ser batizado em homenagem a Stalin, que morreu no ano em que ele nasceu, Stalimir (“Stalin” mais “mir”, que é “paz” em russo) Vieira não deu bola para isso. Ele está lançando “Provocações”, livro em que retrata meio século de propaganda brasileira e sua convivência com a DPZ, onde começou.

“O primeiro trabalho que caiu para mim foi um anúncio da General Motors estimulando o racionamento de gasolina. Isso foi no começo de um ano, nós estávamos perto do carnaval. Você lembra que antigamente era muito comum, no carnaval, se fantasiar de árabe? Aí eu pedi para botar aquela foto do pessoal pulando o carnaval, com um cara de árabe em destaque, e a frase: ‘nesse carnaval não confunda fantasia com realidade, economize gasolina’. O Washington Olivetto aprovou com entusiasmo, mas o cliente, não. É sempre meio delicado mexer com certos assuntos. A grande diferença da DPZ era essa. Ela não estava preocupada se o cliente ia aprovar. O grande desafio era fazer aquilo que a DPZ fosse aprovar!”.

Não foi seu único “conflito” com o Oriente Médio:

“Eu peguei um anúncio de lançamento do Kibe Sadia. Quando eu era criança, um vinho tinha um slogan que era assim: ‘feito como manda a Bíblia’. Não tive dúvida, tasquei: ‘Kibe Sadia, feito como manda o Alcorão’. Todo mundo aprovou, o Washington adorou, o Petit, todo mundo... Ainda bem que o Roberto Duailibi viu primeiro, antes de levar para o cliente. E o Roberto vetou, mas sumariamente. E nos livrou de um vexame terrível”.

O subtítulo do livro é “99 artigos de um publicitário que perdeu emprego, perdeu cliente, mas não perdeu opinião”.

“À medida que avançava na profissão”, escreve ele à página 30, “mais notava que se disseminavam termos como ‘sangue nos olhos’ e ‘faca nos dentes’ como atributos dos vencedores. Mas o que era para ser apenas a dramatização de uma atitude focada em resultados acabou por ditar um comportamento incompatível com uma convivência civilizada”.

Ele não faz média com anunciantes, seja qual for o tamanho:

“Quando fiquei sabendo que a Monja Coen, celebridade budista que cobra até R$ 15 mil por uma palestra, tinha sido contratada pela Ambev para ser ‘embaixadora da moderação’”, escreve à página 68, “seja o que isso justifique, fiquei matutando sobre qual parte da anedota eu não tinha entendido”.

Outra:

“O McDonald’s e o Burger King tentaram vender gato por lebre. Os nomes McPicanha e Whopper Costela obrigam que sejam servidos picanha e costela ao cliente. Se não, é propaganda enganosa”. (Página 90)

E mais outra:

“Sou cliente do Bradesco há uns 30 anos e não vou deixar de ser por isso. Mas me sinto na obrigação de expressar a minha estupefata surpresa com o novo slogan que o banco acaba de adotar. ‘Entre nós, você vem primeiro’. Primeiro, há que se descobrir quem são os ‘nós’. Seríamos eu (cliente) e ele (o banco)? Tomemos que assim seja. Nesse caso, eu (cliente) viria primeiro do que ele (banco) em qualquer circunstância, inclusive no uso da vaga da diretoria no estacionamento”.

E segue dissecando o insólito slogan:

“Suponhamos que eu solicite um empréstimo, mas não tenha garantias suficientes para oferecer. O gerente, diante dos fatos, seguindo o preceito da assinatura da marca, deveria me dizer: ‘a sua situação creditícia não é compatível com o valor solicitado, mas, como entre nós você vem primeiro, o empréstimo lhe será concedido, sem maiores exigências’".

E arremata:

“O Bradesco lucrou R$ 7 bilhões no primeiro semestre. Com essa inversão espetacular de prioridade, nós, os que vêm ‘primeiro’, passaremos a dividir uma dinheirama estupenda. Ou é isso ou esse slogan é uma espécie de McPicanha bancária”. (Página 94)

Por aí se vê que a profecia de Zé Celso era tão enganosa quanto muitas propagandas. Stalimir Vieira não é um filho de Goebbels.

A entrevista completa vai ao ar hoje, às 21h no programa “Cessar-fogo”. O livro pode ser comprado aqui.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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