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Henrique Pinheiro

Henrique Pinheiro é economista e executivo do mercado financeiro com mais de quatro décadas de atuação no Brasil e no exterior. Trabalhou em instituições como Merrill Lynch e Wells Fargo, e atualmente atua na Bolton Global Capital, em Miami. É autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor e produtor do documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

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Enquanto você vê o escândalo na TV, R$ 46 bilhões saem do seu bolso para acalmar o mercado

A maior intervenção desde a pandemia mostra como o país paga caro para continuar de pé — enquanto a conta cresce silenciosamente

Moedas de reais - 15/10/2010 (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)

Imagine uma família já endividada que precisa pedir mais dinheiro ao banco para pagar as contas do mês. O lógico seria o banco cobrar menos juros para ajudá-la a se recuperar. Mas acontece o contrário: quanto mais endividada a família está, mais caro fica o empréstimo. Foi exatamente isso que aconteceu com o Brasil nesta semana. O governo colocou cerca de R$ 46 bilhões no mercado em apenas dois dias — a maior intervenção desde a pandemia — para evitar que os juros subissem ainda mais e contaminassem toda a economia.

 Em termos simples, foi um pagamento para acalmar quem empresta dinheiro ao país. Esse dinheiro não surgiu do nada. Ele vem dos impostos, da inflação e da dívida que será paga no futuro. Em última instância, vem da sociedade. Enquanto isso, o noticiário foi dominado por escândalos políticos, delações e disputas partidárias. Assuntos que fazem barulho, mas que pouco explicam o que realmente pesa sobre o bolso dos brasileiros. 

Operações bilionárias como essa acontecem de forma silenciosa, embora tenham impacto direto sobre crescimento, emprego e serviços públicos. Quando investidores percebem mais risco — seja por guerra, inflação ou dúvidas sobre as contas do país — passam a exigir juros mais altos para continuar emprestando. E o governo, que precisa desse dinheiro para funcionar, acaba aceitando. Não porque quer, mas porque não tem alternativa imediata. É como entrar no cheque especial para pagar despesas básicas: resolve o problema de hoje, mas torna o amanhã mais pesado. 

Parece injusto, mas essa é a lógica do sistema financeiro. Quem parece mais arriscado paga mais caro. O problema é que juros altos tornam a dívida ainda maior, criando um círculo difícil de quebrar. No limite, é como pagar um cartão de crédito com outro cartão. A conta não desaparece — apenas cresce e vai sendo empurrada para frente. O cenário internacional ajudou a aumentar a tensão. A guerra no Oriente Médio elevou o preço do petróleo, pressionando a inflação no mundo todo.

 No Brasil, isso pesa ainda mais porque transporte e energia dependem fortemente de combustíveis. Além disso, a possibilidade de paralisação de caminhoneiros aumenta a insegurança econômica, já que o país depende quase totalmente das estradas para abastecimento. Quando o risco sobe, o custo do dinheiro sobe junto. 

No curto prazo, a intervenção evita uma turbulência maior e mantém o sistema funcionando. No longo prazo, porém, a conta continua crescendo. E essa conta aparece em menos investimentos, menos serviços públicos e menor capacidade de crescimento. 

Quanto mais se gasta com juros, menos sobra para saúde, educação, infraestrutura e geração de empregos. Enquanto isso, quem financia a dívida recebe rendimentos elevados e seguros. Não é ilegal nem misterioso. É simplesmente a forma como o sistema funciona. 

No fundo, parte da riqueza produzida pelo país é transferida continuamente para quem tem capital para emprestar ao governo. O Brasil não está apenas pagando sua dívida. Está pagando para continuar funcionando. E quando um país precisa gastar tanto apenas para não piorar, sobra cada vez menos para melhorar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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