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Henrique Pinheiro

Henrique Pinheiro é economista e executivo do mercado financeiro com mais de quatro décadas de atuação no Brasil e no exterior. Trabalhou em instituições como Merrill Lynch e Wells Fargo, e atualmente atua na Bolton Global Capital, em Miami. É autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor e produtor do documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

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A República das Madrugadas

"No Brasil, porém, muitas vezes parece haver outra lógica em funcionamento"

Congresso Nacional (Foto: Antônio Cruz/Ag. Brasil )

O Brasil às vezes se revela de maneira involuntária. Não nos discursos preparados. Não nas notas oficiais cuidadosamente redigidas. Nem nas entrevistas concedidas com gravata ajustada e frases ensaiadas. O país real aparece em outro lugar. Nas conversas privadas. Nos diálogos banais. Nas mensagens trocadas no celular entre um compromisso e outro. Foi assim que recentemente se abriu uma pequena janela para observar um pedaço da nossa vida institucional. Ali estavam diálogos entre um banqueiro e sua companheira.

Nada particularmente elaborado. "Wow." "Sentiram o golpe." "Esse filme daria um Oscar." Frases curtas. Exclamações juvenis. Comentários típicos de quem narra acontecimentos como se estivesse assistindo a um reality show. O detalhe curioso é o contexto. Entre uma exclamação e outra surgem referências a encontros com personagens centrais da República. Dirigentes do Congresso. Autoridades do Judiciário. Presidentes de instituições financeiras. E até menções ao próprio presidente da República. Tudo contado com uma informalidade surpreendente. Reuniões que deveriam carregar o peso institucional do Estado brasileiro aparecem descritas como episódios de uma agenda social particularmente animada. Em certos momentos, os relatos sugerem algo ainda mais peculiar: contatos informais que varam madrugadas.

Conversas tardias. Mensagens trocadas fora do horário institucional. Discussões que misturam política, negócios e estratégias como se tudo fizesse parte de um mesmo círculo de intimidade. Não se trata apenas de indiscrição. Trata-se de uma cultura. Em democracias institucionalmente maduras, encontros entre empresários e autoridades são tratados com certa liturgia. Há formalidade. Há reserva. Há consciência de que o poder público não pode ser confundido com relações pessoais. No Brasil, porém, muitas vezes parece haver outra lógica em funcionamento. A política se mistura com o privado. O acesso vira moeda de prestígio. E reuniões institucionais acabam narradas como conquistas pessoais. Mais curioso ainda é quando, no meio dessa informalidade, surge uma preocupação aparentemente nobre com a concentração do sistema bancário.

Sugere-se que um banco não deveria ser vendido por um valor simbólico para não fortalecer ainda mais os grandes conglomerados. O argumento soa bonito. Quase republicano. Mas carrega uma ironia difícil de ignorar. O sistema bancário brasileiro já é um dos mais concentrados do planeta. Décadas de fusões e crises consolidaram um ambiente dominado por poucos gigantes. E raramente essa concentração pareceu causar grande inquietação nos corredores do poder. O que realmente impressiona nesses diálogos não é apenas o conteúdo. É o tom.

A leveza com que assuntos de Estado são tratados. A naturalidade com que o poder circula entre conversas pessoais. A banalidade com que temas institucionais aparecem misturados a comentários triviais. No fundo, essas mensagens revelam algo que muitos no mercado já conhecem há décadas: o Brasil funciona em grande parte através de relações. Relações pessoais. Relações informais. Relações que atravessam instituições, cargos e interesses. E que, às vezes, atravessam também madrugadas. Talvez essa seja a verdadeira fotografia de uma parte das nossas elites. Um país onde o poder não desaparece — apenas muda de sala. Sai do gabinete. Entra no celular. E termina transformado em diálogo doméstico.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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