Entre Maduro e Trump, quem apanha é Lula
Mesmo diante da intervenção na Venezuela, uma parte da esquerda prefere concentrar sua fúria em Lula
Nas primeiras horas da manhã de sábado, uma parte da mídia progressista e de um segmento da esquerda que gosta de se apresentar como referência moral se apressou em construir uma narrativa sobre a prisão de Nicolás Maduro. Esse campo, acostumado à lógica da pureza política, tratou o episódio não como um ataque grave à soberania de um país, mas como mais uma oportunidade para transformar a política externa brasileira em tribunal ético. Em vez de olhar para a escalada intervencionista dos Estados Unidos, preferiu localizar o inimigo dentro de casa e apontar para Lula como o grande responsável pelo desfecho da crise.
Essa pressa em atribuir culpa não nasce da análise do cenário internacional. Ela se organiza dentro do mesmo ambiente que descrevi em outros textos, onde a vida pública é conduzida pela suspeita, pela desconfiança e por um moralismo que substitui a política por rituais de acusação. Em vez de observar as forças em disputa e os interesses que operam sobre a região, certos setores preferem transformar qualquer acontecimento em confirmação da própria superioridade ética. É o reflexo que converte divergências táticas em ofensa moral e que se alimenta do desgaste como forma de se afirmar.
Há grupos que não constroem alternativas, não sustentam processo e não assumem responsabilidade histórica. Preferem o gesto performático, o comentário que produz ruído e a indignação que se apresenta como coragem. Sua economia política é a do colapso.
O que aparece agora é apenas a continuidade desse padrão. Diante de uma ação militar externa, com implicações graves para a América do Sul e para a ordem internacional, parte dessa esquerda deslocou o foco para dentro e transformou o episódio em mais um capítulo do teatro da acusação. A lógica chega ao ponto da caricatura. Já estão praticamente sugerindo que Lula invada a prisão, derrube as portas à força e tire Maduro no braço, como se a política externa brasileira pudesse ser resolvida no improviso heroico de um filme ruim. A ironia é que, por trás desse exagero, permanece a mesma incompreensão sobre o lugar do Brasil no mundo e sobre os limites reais da ação política.
Esse movimento não acontece no vazio. A Venezuela será, obviamente, uma pauta central nas eleições de 2026. A direita já fecha questão e comemora, sem pudor, o saque das riquezas do país vizinho, tratando a intervenção como vitória civilizatória e oportunidade econômica. E, entre Maduro e Trump, uma parte significativa da esquerda, não por número, mas pelo alcance simbólico que exerce sobre determinados círculos, escolhe concentrar sua fúria em Lula, como se a crítica pública ao próprio campo fosse a última fronteira de uma identidade política que precisa se distinguir o tempo inteiro para existir.
Ao mesmo tempo, essa mesma esquerda se vê dividida entre a necessidade de se diferenciar internamente e o desejo quase erótico de ocupar o lugar simbólico da superioridade moral, mesmo que isso implique transformar a própria base política em objeto de punição pública. O efeito é o esvaziamento do debate estratégico e a repetição de um padrão que confunde coragem com espetáculo e crítica com autoflagelação.
A posição brasileira vinha sendo guiada pela cautela, pelo respeito à soberania e pela recusa em contribuir para um ambiente de histeria. Não se tratava de endossar disputas internas da Venezuela, mas de impedir que pressões externas fossem usadas como justificativa para soluções autoritárias ou intervenções militares. Essa não é uma postura confortável. Ela exige responsabilidade, leitura de contexto e maturidade histórica, exatamente o que falta aos que preferem transformar cada dilema em demonstração pública de pureza.
Quando esses setores insistem em atribuir a Lula a responsabilidade pela captura de Maduro, não estão analisando a realidade venezuelana. Estão reafirmando seu próprio lugar simbólico, o lugar de quem prefere a narrativa do erro ao esforço da construção. O risco é que, ao repetir velhos reflexos, contribuam novamente para o ambiente que produz crises políticas profundas e alimentem, mais uma vez, aqueles que vivem do cheiro de desastre.
O momento pede outra atitude. Pede lucidez, serenidade e capacidade de distinguir crítica política de autopunição estratégica. Não se trata de blindar governos ou silenciar divergências. Trata-se de não transformar uma intervenção externa em palco para performances domésticas e de não confundir responsabilidade com fantasia moral, sobretudo quando o cenário eleitoral já se mostra disposto a transformar a Venezuela em matéria-prima para novas disputas simbólicas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




