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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Entre o poder e o delírio

Trump confronta o Papa, sugere poder absoluto e acende debate sobre os limites da autoridade no cenário político contemporâneo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington, D.C., EUA, em 6 de janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Donald Trump atacou o Papa e o chamou de “fraco”. A resposta veio sem estridência: Papa Leão XIV afirmou que não tem medo e voltou a denunciar as violações promovidas por potências neocoloniais.

O episódio, no entanto, não se esgota nesse confronto direto. Ele revela algo mais profundo — um deslocamento na forma como o poder se apresenta e se justifica no cenário contemporâneo.

Porque, pela primeira vez de maneira tão explícita, Trump não apenas confronta instituições ou lideranças: ele se projeta simbolicamente acima delas. A imagem em que aparece como uma figura semelhante a Jesus Cristo, irradiando luz e “curando” um doente, não pode ser tratada como um excesso isolado ou uma simples provocação. Trata-se de um passo adiante, e um passo que precisa ser levado a sério.

Da provocação à sacralização

Trump sempre operou nos limites — e frequentemente além deles. Ao longo de sua trajetória, atacou adversários, tensionou instituições, deslegitimou processos e testou, de forma contínua, as fronteiras do discurso público. Também não hesitou em confrontar lideranças religiosas — inclusive Papa Francisco — quando estas ousaram criticar suas posições sobre guerra, migração e desigualdade.

Nada disso é propriamente novo.

O que se observa agora, contudo, não é apenas a repetição de um padrão, mas sua transformação. Se antes predominava a provocação, seguida por um enfrentamento institucional cada vez mais direto, o que emerge neste momento é algo qualitativamente distinto: a tentativa de sacralizar o próprio poder.

Não se trata mais apenas de disputar autoridade dentro de um sistema de regras.

Trata-se de deslocar o próprio fundamento dessa autoridade.

O significado do gesto

Na tradição cristã, a figura de Jesus Cristo não é apenas um símbolo religioso. Ela representa um limite — ético, espiritual e, em última instância, civilizacional.

Apropriar-se dessa imagem, portanto, não é um gesto neutro.

É um movimento que desloca o poder do campo da legitimidade institucional para o da adesão simbólica. Sugere, ainda que de forma indireta, que a autoridade política não precisa mais ser justificada por leis, instituições ou resultados concretos, mas pode ser sustentada por uma construção que demanda reconhecimento quase devocional.

Nesse sentido, não se trata de convencer.

Trata-se de produzir crença.

O padrão que se revela

Seria um erro, portanto, tratar o episódio como mais uma controvérsia típica das redes sociais.

Ele se insere em um padrão mais amplo e coerente: declarações feitas sem qualquer recuo, ataques sistemáticos a adversários, deslegitimação constante de instituições e uma recusa reiterada em reconhecer erros.

A isso se soma agora um elemento novo — ou, ao menos, mais explícito —: a incorporação de símbolos religiosos como instrumento político.

Mas há algo ainda mais revelador nesse processo. Não se trata apenas de uma apropriação simbólica do cristianismo. Trata-se de uma postura recorrente de desrespeito ao campo religioso como um todo, marcada tanto pelo deboche quanto pela instrumentalização — e, em certos contextos, pela própria desumanização do adversário.

No caso da liderança iraniana, por exemplo, figuras centrais do clero xiita — como o então líder supremo Aiatolá Ali Khamenei — passaram a ser tratadas no discurso político e militar não como autoridades religiosas, mas como alvos estratégicos. Em meio à escalada recente do conflito, ataques atingiram inclusive círculos próximos à liderança, borrando de forma ainda mais profunda as fronteiras entre guerra, política e o respeito ao sagrado.

Esse tipo de linguagem — que oscila entre o deboche e a eliminação simbólica ou concreta — não é episódico. Ele convive, de maneira reveladora, com a construção de uma autoimagem grandiosa. Trump não apenas tensiona limites institucionais: ele se apresenta, cada vez mais, como alguém que não reconhece autoridade acima de si. Em certos momentos, flerta com a figura do “rei”; em outros, com algo ainda mais extremo — uma autoridade que se aproxima do absoluto.

Esses elementos não aparecem de forma dispersa.

Eles compõem um processo.

Um processo no qual o poder se autonomiza, deixando progressivamente de responder a limites externos e passando a operar como se estivesse acima de qualquer mediação — seja ela política, jurídica ou moral.

O confronto como síntese

É nesse contexto que o embate com Papa Leão XIV ganha um significado mais profundo.

De um lado, um líder político que amplia continuamente o alcance de sua própria autoridade, testando até onde pode avançar sem encontrar resistência efetiva.

De outro, uma autoridade religiosa que, ao contrário do que se poderia esperar, não recua. Ao reafirmar que não teme o presidente dos Estados Unidos, o Papa não apenas responde a um ataque pessoal, mas recoloca no debate público a necessidade de limites — ao denunciar a guerra, a violência e as práticas associadas a potências de caráter neocolonial.

Não se trata, portanto, de um embate entre indivíduos.

Trata-se de um confronto entre concepções distintas de autoridade.

O que está em risco

O problema, nesse cenário, não se restringe à figura de Trump.

Ele diz respeito ao ambiente que permite que esse tipo de deslocamento ocorra sem provocar rupturas mais profundas.

Porque, quando o poder deixa de ser efetivamente questionado e passa a ser progressivamente naturalizado, a própria política se transforma. As instituições continuam existindo, mas perdem centralidade; o debate público persiste, mas se esvazia; e a racionalidade cede espaço a formas de adesão menos críticas.

A questão que permanece

Diante disso, a pergunta central talvez não seja o que Trump fez.

Mas até que ponto isso ainda nos surpreende.

Porque a história sugere que o momento mais delicado não é aquele em que o absurdo irrompe, mas aquele em que ele deixa de ser percebido como tal.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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