O Neo-Messianismo: o uso do sagrado pela extrema direita
O produto que a extrema direita oferece não é amor, mas a identificação de um inimigo
A imagem que circula amplamente nas redes sociais de Donald Trump, e que vale a pena ser descrita com cuidado antes de qualquer análise, porque cada detalhe dela é um argumento. Trump aparece no centro da composição vestido com túnica branca e manto vermelho, numa cena de cura miraculosa: um homem doente está deitado e recebe o toque de suas mãos, das quais emana uma luz dourada. Ao redor, figuras em posição de reverência, entre elas uma mulher com as mãos postas em oração, um soldado com o olhar erguido, uma enfermeira. Ao fundo, a bandeira americana, a Estátua da Liberdade, fogos de artifício, jatos militares, águias de asas abertas, e no alto, soldados ascendendo ao céu em glória.
A composição lembra menos os grandes mestres do barroco católico e mais os folhetos das Testemunhas de Jeová, aquela luz amarelada irradiando do centro, as figuras em semicírculo com expressão de êxtase contido, a cena de cura com toque das mãos, tudo numa estética deliberadamente popular, feita para convencer e não para contemplar. A mistura de símbolos militares americanos exala o teor cafona patriótico-religioso e tem sua própria lógica emocional.
Escrevo isso como alguém que foi formada no catolicismo e que se tornou ateia com o passar dos anos, o que talvez me dê um lugar de fala específico nessa discussão: não olho para a religião de fora sem nunca ter pertencido a ela, mas de dentro de uma tradição que conheço bem, e é justamente por isso que consigo identificar o que está sendo distorcido. O que a extrema direita faz com a linguagem religiosa está longe de ser um ato de fé. Trata-se do uso de símbolos religiosos vazios de seus valores.
O messianismo não nasceu com Trump nem com Bolsonaro. No Velho Testamento, a figura do profeta, de Moisés a Isaías, de Elias a Jeremias, é a do homem convocado por Deus para uma missão que transcende sua vontade pessoal, que fala em nome do divino a um povo desorientado, que indica o caminho no deserto. Essa estrutura narrativa tem uma potência extraordinária porque resolve de uma só vez vários problemas políticos difíceis: legitima a autoridade do líder sem necessidade de argumento racional, transforma a obediência em virtude religiosa e a dissidência em pecado, e oferece ao seguidor não apenas uma causa política, mas uma identidade espiritual, uma sensação de fazer parte de algo maior, de estar do lado certo numa “batalha celestial” entre o bem e o mal.
A extrema direita contemporânea conhece bem essa gramática e a usa com consciência. O slogan de Bolsonaro, “Brasil acima de tudo, Deus acima de tudo”, não era uma declaração de fé pessoal, era uma arquitetura política que posicionava o candidato dentro de uma ordem divina, acima da política comum. O batismo no Rio Jordão em Israel, a aliança construída com a bancada evangélica, a presença constante em eventos religiosos, tudo isso compõe uma encenação cuidadosa que converte o palanque em púlpito. Quando Trump declarou que sobreviveu ao atentado porque Deus ainda tinha planos para ele, a lógica é a mesma: se o líder é ungido por Deus, quem o combate está contra o próprio Deus, e a oposição deixa de ser política para se tornar heresia.
O que torna esse neo-messianismo particularmente interessante de analisar é a distância entre o que é evocado e o que é praticado. O Jesus dos Evangelhos, independentemente de qualquer crença, é uma figura de contornos bastante específicos: come com os excluídos e os desprezados, defende publicamente a mulher que seria apedrejada, afirma que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, e resume sua doutrina no amor ao próximo, estendido explicitamente até ao seu inimigo. A mensagem é de uma radicalidade que as igrejas institucionais passaram séculos tentando domesticar e agora a extrema direita simplesmente ignora.
O produto que a extrema direita oferece não é amor, mas a identificação de um inimigo. O imigrante, o comunista, o globalista, a chamada ideologia de gênero, o juiz, o jornalista, o intelectual, a lista varia conforme o contexto mas a estrutura é sempre a mesma: há um inimigo interno que corrompeu o corpo da nação, e há um líder capaz de expurgá-lo. O messianismo serve precisamente para sacralizar esse ódio, para transformar o ressentimento em missão divina.
O fenômeno também não é exclusivamente cristão, o que reforça a ideia de que estamos diante de uma estrutura política que se veste com qualquer roupa religiosa disponível. Até mesmo o culto à personalidade soviético tinha uma dimensão claramente messiânica, com Lenin embalsamado como relíquia sagrada. Movimentos nacionalistas ao redor do mundo recorrem a figuras proféticas de suas próprias tradições. O que varia é a iconografia, mas a lógica permanece a mesma: um povo eleito, uma missão sagrada, um inimigo a ser vencido, e um líder que encarna tudo isso.
Há algo de genuinamente tragicômico em tudo isso. Uma das tradições religiosas mais expansivas da história como o cristianismo, nasceu em teoria como crítica a um poder estabelecido e tinha na figura do carpinteiro galileu executado pelo Estado seu símbolo central. Agora tornou-se o verniz ideológico preferido de bilionários e demagogos. Não é necessário crer em Jesus para reconhecer a contradição, basta observar os fatos com alguma atenção.
Voltando à imagem de Trump curando um enfermo, com luz saindo das mãos, cercado de águias e bandeiras, numa estética extremamente duvidosa e alheia a qualquer tradição artística séria, temos talvez o documento mais honesto que a extrema direita produziu nos últimos anos, não sobre aquilo em que crê, mas sobre aquilo que deseja fazer com os outros.
No fim, o neo-messianismo da extrema direita não serve para aproximar ninguém de Deus. Serve para blindar líderes, santificar o poder e converter ressentimento em devoção. A fé deixa de ser experiência espiritual e se torna outra forma de controle. E talvez esse seja o aspecto mais sinistro de todos: não se trata de crença demais, mas de consciência de menos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



