O Brasileiro de Schrödinger
Reflexão analisa preconceito e identidade de brasileiros nascidos no exterior, questionando critérios de pertencimento e a xenofobia seletiva presente no debate
Na física quântica, o gato de Schrödinger está simultaneamente vivo e morto até que alguém abra a caixa. No tribunal da identidade nacional, o brasileiro nascido no exterior vive um paradoxo semelhante: ele é "muito brasileiro" para o país onde nasceu e “muito estrangeiro” para a terra de seus pais. Ele habita um não-lugar existencial, uma nacionalidade de sobreposição que só se define pelo olhar do outro, e esse olhar, quase sempre, é carregado de exclusão.
O debate recente sobre o atleta Lucas Pinheiro trouxe à tona uma ferida que muitos preferem ignorar. Quando um atleta nascido fora opta por defender o Brasil, a reação de parte do público e da mídia não é de acolhimento, mas de suspeita. Surge o rótulo cruel de “refugo”: a ideia de que ele só veste o verde e amarelo porque não teve talento suficiente para vestir as cores de uma potência europeia ou norte-americana. É uma lógica perversa que ignora o afeto e a ancestralidade, tratando a identidade como um prêmio de consolação técnico.
O que torna esse cenário ainda mais contraditório é o contraste de uma elite cultural de certas regiões do Brasil. No Sul e em São Paulo, ostentar o passaporte europeu ou vangloriar-se da ascendência italiana, polonesa ou alemã é um símbolo de status. Nessas bolhas, ser “menos brasileiro” por via de sangue é motivo de orgulho.
Entretanto, essa mesma lógica não se aplica inversamente. O indivíduo que nasce na Noruega, mas cresce ouvindo português, comendo arroz com feijão e torcendo pela Seleção, é barrado no baile da brasilidade. Para os “brasileiros de sangue puro”, esse indivíduo é um impostor. É muito interessante e ao mesmo tempo triste observar como o brasileiro médio consegue idolatrar um bisavô que nunca conheceu em busca de uma cidadania europeia, ao mesmo tempo em que nega o direito de um “estrangeiro” se sentir brasileiro.
Essa exclusão não nasce do nada, ela acontece em casa. O próprio Lucas eu entrevistas sobre isso (tenho lugar de fala, se é que isso tem alguma importância), já presenciei cada coisa morando na Alemanha, o preconceito é uma herança passada à mesa do jantar. Quando você tem que ouvir de membros da família ou da escola para não falar português com os filhos, pois eles não vão aprender alemão. Ou quando uma criança negra de oito anos, nascida na Alemanha, é mandada “de volta para a África” por seus colegas, estamos diante de um problema ainda maior. Aquelas crianças não sabem onde fica o Congo ou o Senegal, e os teus filhos não entendem por que não podem falar a língua materna que os acolhe. Elas aprendem muito cedo o mecanismo básico da xenofobia: você não pertence aqui.
Para o filho de brasileiros no exterior, o trauma é duplo. No país de origem, ele é o “eterno imigrante”, o corpo estranho que deve ser tolerado ou expelido. Ao buscar refúgio na identidade brasileira, ele encontra uma porta fechada por compatriotas que exigem dele uma pureza que o próprio Brasil, em sua essência miscigenada, nunca possuiu.
Historicamente, o Brasil só abre a “caixa de Schrödinger” para validar o brasileiro nato no exterior quando ele vence. Fernando Meligeni, nascido na Argentina, precisou de muito suor e garra para ser abraçado como o “Fininho”, um dos nossos maiores tenistas. A aceitação veio pelo esforço, quase como um perdão por ter nascido do lado errado da fronteira.
Recentemente, vimos a resistência quase visceral à ideia de Carlo Ancelotti treinar a Seleção Brasileira. O argumento não era apenas tático, mas passava por uma xenofobia (nem tão) velada de que “só um brasileiro entende o brasileiro”. Ora, se nem o brasileiro nascido fora é aceito como tal, quem realmente detém a régua dessa identidade?
O “Brasileiro de Schrödinger” continuará existindo enquanto medirmos a nacionalidade por carimbos de passaporte e não por vivência e pertencimento. É preciso denunciar a conveniência de uma sociedade que se diz “acolhedora”, mas que pratica uma xenofobia seletiva e cruel.
A “péssima” notícia, no caso dos mais desavisados, é que não importa se você nasceu no Brasil ou é nascido no exterior filho de pais brasileiros. Você é e sempre será brasileiro. Ser brasileiro não deveria ser uma prova de resistência ou um certificado de pureza. Se não formos capazes de acolher aqueles que, mesmo com todas as opções do mundo, escolhem ser um de nós, então talvez a nossa “brasilidade” seja muito mais frágil e excludente do que gostamos de admitir.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



