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João Antonio da Silva Filho

Mestre em Filosofia do Direito, Doutor em Direito Público e conselheiro do Tribunal de Contas do município de São Paulo

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Entre Trump e a soberania brasileira

A disputa entre Trump e a soberania brasileira expõe os riscos da pressão externa, do poder das Big Techs e da influência global sobre as próximas eleições

Flávio Bolsonaro, Donald Trump e Lula (Foto: Reprodução/X/@FlavioBolsonaro | Ricardo Stuckert/PR)
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O debate sobre soberania nacional ultrapassou os limites das academias, dos círculos diplomáticos e dos espaços tradicionais da política. Hoje, ele ocupa as mesas das famílias, os locais de trabalho e até os bares espalhados pelo país. A ação dos filhos de Bolsonaro, aliada aos interesses trumpistas, fez com que cada cidadão, à sua maneira e dentro de suas referências culturais, passasse a refletir sobre o futuro do Brasil como nação livre, independente e capaz de decidir seus próprios destinos.

Há quem, tomando como referência experiências recentes de outros países latino-americanos, especialmente a Venezuela, chegue a cogitar a hipótese de uma intervenção externa liderada pelos Estados Unidos. Não parece ser esse o cenário mais provável. O Brasil não é uma república periférica sem relevância internacional. Trata-se da maior economia da América Latina e de uma das principais economias do planeta. No entanto, isso não significa que esteja fora do radar dos interesses estratégicos das grandes potências.

Dois fatores tornam o Brasil particularmente atraente para os Estados Unidos: a extraordinária riqueza de seu subsolo e sua posição geopolítica privilegiada. O país possui vastas reservas de petróleo, minerais estratégicos e terras raras, recursos essenciais para a nova economia digital e para a corrida tecnológica global. Além disso, ocupa posição central em um continente dotado de imensas riquezas naturais e crescente importância geopolítica.

É justamente nesse ponto que reside a principal preocupação. Para qualquer potência global, influenciar politicamente um país com essas características representa uma vantagem estratégica significativa. Um governo alinhado a interesses externos, politicamente dócil e ideologicamente afinado com os interesses dos Estados Unidos, facilitaria o acesso a recursos naturais e ampliaria a capacidade de influência sobre toda a América Latina. Não se trata de uma novidade histórica. Durante séculos, no período da colonização, o continente latino-americano forneceu riquezas que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento econômico das potências europeias. Em diferentes formas, a disputa pelos recursos estratégicos da região sempre esteve presente.

Isso não significa, a meu ver, que veremos tanques cruzando fronteiras ou tropas desembarcando em território brasileiro. No século XXI, as formas de pressão são outras — mais discretas, sofisticadas e, muitas vezes, mais eficazes. Elas se manifestam por meio de instrumentos econômicos, financeiros, diplomáticos, jurídicos e tecnológicos. Taxações comerciais, barreiras econômicas, sanções e mecanismos de pressão política passaram a desempenhar o papel que, em outros tempos, era exercido pela força militar. A própria utilização extraterritorial de legislações norte-americanas, como a chamada Lei Magnitsky, ilustra como o poder econômico e jurídico pode ser empregado como instrumento de influência internacional.

Nesse contexto, medidas recentes, como a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas por autoridades estrangeiras, inserem-se em uma dinâmica mais ampla de ampliação de instrumentos de pressão e intervenção indireta. São movimentos que, para muitos analistas, podem ser interpretados como atos preparatórios dentro de uma estratégia geopolítica mais abrangente.

Mas talvez o elemento mais relevante dessa nova realidade seja o poder acumulado pelas Big Techs. Se informação sempre foi sinônimo de poder, nunca na história da humanidade um conjunto tão reduzido de empresas concentrou tamanha quantidade de dados sobre bilhões de pessoas. Essas corporações conhecem hábitos de consumo, preferências culturais, inclinações ideológicas, padrões de comportamento, medos, desejos e até potenciais capacidades de liderança dos indivíduos.

O domínio dos algoritmos e da inteligência artificial transformou os dados em um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea. E daí surge uma questão fundamental: existe poder econômico verdadeiramente dissociado do poder político?

A história demonstra que não. Grandes interesses econômicos inevitavelmente procuram influenciar decisões políticas. Quando governos defendem determinados modelos regulatórios, questionam sistemas de pagamento ou disputam o controle de recursos estratégicos, frequentemente estão também defendendo interesses econômicos específicos. Na atual disputa global por petróleo, minerais críticos, terras raras, infraestrutura digital e inteligência artificial, economia e política tornaram-se praticamente indissociáveis.

Por isso, as próximas eleições brasileiras não serão observadas apenas pelos brasileiros. O futuro da maior economia da América Latina interessa a governos, corporações, investidores e centros de poder espalhados pelo mundo. Seria ingenuidade acreditar que atores econômicos globais permanecerão neutros diante de uma disputa capaz de influenciar o acesso a recursos estratégicos e a orientação política de um país com as dimensões e a relevância do Brasil.

Nada será como antes. A disputa pelo poder já não ocorre apenas nos parlamentos, nos partidos ou nas urnas. Ela também se desenvolve nos mercados financeiros, nos fluxos de dados, nas plataformas digitais e nas estruturas globais de informação. Defender a soberania nacional, neste novo contexto histórico, significa compreender que independência política, autonomia tecnológica e controle sobre riquezas estratégicas tornaram-se dimensões inseparáveis de um mesmo desafio.

Por consequência, dificilmente esses atores permanecerão neutros diante da disputa eleitoral vindoura. Utilizarão todos os instrumentos de influência de que dispõem para defender interesses econômicos, políticos e estratégicos considerados fundamentais para seus projetos globais. Afinal, o que está em jogo não é apenas o resultado de uma eleição, mas a orientação política da maior e mais importante economia da América Latina.

Portanto, a escolha que os brasileiros farão nas próximas eleições será decisiva para o futuro do país. Estamos diante de uma verdadeira bifurcação histórica. De um lado, apresenta-se um projeto político alinhado à agenda da direita internacional liderada por Donald Trump e suas concepções econômicas, que defendem uma maior integração subordinada à sua obsessão ideológica. De outro, encontra-se a perspectiva de um projeto comprometido com a soberania nacional, a autonomia decisória do Estado brasileiro e a utilização estratégica de nossas riquezas naturais em favor do desenvolvimento econômico e social do próprio país.

Mais do que uma simples disputa eleitoral, trata-se de uma escolha entre diferentes concepções de nação. Está em jogo a capacidade de o Brasil preservar sua independência, fortalecer suas instituições democráticas, ampliar direitos fundamentais e aprofundar conquistas civilizatórias que tenham como horizonte a dignidade e o desenvolvimento integral da pessoa humana.

Em um mundo marcado pela disputa geopolítica, pelo poder das grandes corporações tecnológicas e pela crescente influência dos interesses econômicos globais sobre a política, a defesa da soberania nacional deixa de ser apenas uma questão diplomática para se tornar um imperativo democrático. O Brasil do futuro dependerá, em grande medida, da capacidade de seu povo escolher, de forma livre e consciente, o caminho que deseja trilhar. E não se esqueçam: depois de outubro, nada será como antes.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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