Erika Hilton não pediu licença aos donos do poder e é exatamente isso que mais incomoda
Ela não pediu licença sequer para existir. Cresceu sendo quem é, mesmo quando tudo ao redor insistia em negá-la
Dizem que o problema é uma mulher trans presidindo a Comissão de Mulheres. Mas quem diz isso?
São os mesmos que, historicamente, se enxergaram como proprietários dos espaços de poder. Para eles, soa como afronta ver alguém de fora desse círculo ocupar o Parlamento, como se a democracia tivesse dono, como se o voto viesse acompanhado de sobrenome e autorização prévia.
No centro desse incômodo está Erika Hilton, eleita presidenta da Comissão das Mulheres.
Que ódio!
Ela não pediu licença para estar ali. Apenas venceu.
Que ódio!
Um corpo negro, uma mulher, uma pessoa LGBT, eleita entre as mais votadas do estado mais populoso do país. Não foi falha do sistema nem exceção estatística. Foi escolha popular.
Que ódio!
Ela não pediu licença aos homens brancos e heterossexuais que, juntos, compõem o retrato histórico do Parlamento brasileiro e que, por tanto tempo, trataram as casas legislativas como extensão de suas salas de estar.
Que ódio!
Ela não pediu licença sequer para existir. Cresceu sendo quem é, mesmo quando tudo ao redor insistia em negá-la.
Que ódio!
Agora ousa disputar poder com os poderosos. E, para desespero de muitos, venceu.
Que ódio!
Ocupa um espaço que sempre disseram não ser para ela. Mas era. Sempre foi. Apenas lhe foi negado.
Que ódio!
Venceu a fome, a exclusão e a marginalização planejada. Não porque o sistema a acolheu, mas apesar dele.
Que ódio!
Hoje fala com firmeza, enfrenta, não abaixa a cabeça. E, com ela, tantas outras começam a se erguer.
Que ódio!
Não serve aos interesses dos velhos donos do poder. Não repete discursos prontos. Não cabe no molde confortável de quem sempre mandou.
Que ódio!
Seu corpo fala, mesmo quando silencia. Seu corpo é, por si só, uma forma de luta.
Que ódio!
Tentaram invisibilizá-la, mas não conseguiram. Sua voz ecoa pelo país, o debate ganhou as ruas. Os espaços antes exclusivos agora abrigam novas vozes, novos rostos, novas histórias.
E então surgem algumas vozes, inclusive de mulheres da extrema direita, afirmando: “ela não me representa”.
E, pela primeira vez, talvez estejam certas.
Erika Hilton não representa quem se curva ao poder para caber nele. Não representa quem aceita ser instrumento dos mesmos de sempre, nem quem contribui para retirar direitos das próprias mulheres.
Ela representa quem luta sem pedir licença.
Representa quem enfrenta os donos do poder.
Representa quem se recusa a permanecer do lado de fora.
Ela representa as mulheres brasileiras.
E, no fundo, é isso que mais incomoda.
Nunca foi apenas sobre ela.
É, também, sobre a perda do monopólio do poder.
Quanto ódio!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


