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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Estratégia de um derrotado

Flávio Bolsonaro retoma o bolsonarismo raiz em estratégia defensiva para conter danos e preservar força política

Estratégia de um derrotado (Foto: Mateus Bonomi/Reuters)
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Há algo de profundamente revelador na notícia de que os estrategistas de Flávio Bolsonaro decidiram apostar novamente no “bolsonarismo raiz”. Não revelador sobre o país. Revelador sobre a sua campanha.

Porque ninguém volta para a trincheira mais estreita quando acredita que pode conquistar terreno novo. Ninguém troca a ampliação pela radicalização quando está vencendo. E ninguém abraça apenas os 30% mais fiéis quando acredita ser capaz de falar para a maioria do Brasil.

A movimentação descrita pela coluna de Daniela Lima é menos uma estratégia de vitória e mais uma operação de contenção de danos. O objetivo já não parece ser ganhar a eleição. Parece ser sobreviver politicamente ao naufrágio.

Quando uma campanha decide “voltar às raízes”, muitas vezes o que ela está dizendo é: perdemos a capacidade de crescer. O bolsonarismo raiz funciona como bunker emocional de um eleitorado fiel, mas insuficiente. Serve para manter patrimônio político, preservar influência, garantir bancada, proteger o sobrenome e impedir deserções. Serve para administrar o espólio.

Mas não serve, necessariamente, para vencer uma eleição presidencial.

Talvez os estrategistas de Flávio saibam disso melhor do que ninguém. Talvez tenham percebido que o desgaste provocado pelo caso envolvendo Daniel Vorcaro não foi episódico, mas estrutural. As contradições públicas, os áudios, os recuos e as versões desencontradas corroeram justamente aquilo que o bolsonarismo sempre vendeu como sua principal mercadoria: a ideia de autenticidade brutal, do político que “fala a verdade” e que posa de probo.

Quando até aliados começam a discutir alternativas dentro da direita, é porque o problema deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser sucessório.

E aí surge a pergunta inevitável: será que o comando interno virou apenas “não posso chegar em terceiro lugar”?

Porque toda a estética recente da campanha aponta nessa direção. Menos construção de maioria. Mais fidelização de núcleo duro. Menos diálogo com o centro. Mais guerra cultural. Menos futuro. Mais ressentimento. Concentre-se na “multidão”, dentro do conceito desenvolvido por Gustave Le Bon, que já desceu “vários degraus na escala da civilização” e que nos segue, contagiada que já está.

É uma estratégia defensiva. E, no fundo, covarde.

Covarde porque não busca convencer quem pensa diferente. Não tenta ampliar horizontes. Não propõe reencontro nacional. Apenas cava uma trincheira ideológica para resistir ao avanço da realidade.

Mas deve ser realista. É o que lhes resta a fazer. Dada a qualidade profissional dos estrategistas entrantes, eles sabem onde pisam.

O bolsonarismo raiz sempre funcionou melhor como identidade emocional do que como projeto de país. Em momentos de força, ele se expandia graças ao antipetismo, ao colapso da velha direita e à crise econômica. Mas, isolado em si mesmo, tende ao encolhimento. É uma lógica de seita política: quanto maior o cerco, maior a radicalização dos fiéis.

Só que eleição presidencial não se vence apenas com os convertidos.

E talvez esteja aí a admissão mais melancólica dessa guinada: a de que até Flávio e seus próprios estrategistas já entenderam que a vaca foi para o brejo. Resta, então, garantir que o sobrenome sobreviva forte o suficiente para continuar comandando uma parcela barulhenta da direita brasileira — mesmo que já não consiga liderar o país.

No fim, o “retorno às origens” pode acabar sendo apenas isso: o discurso elegante para não admitir publicamente que o sonho de vitória virou gerenciamento de derrota.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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