Extrema direita e grande imprensa fazem trégua para mentir sobre “rombo fiscal”
Com o governo sem muitos flancos vulneráveis na economia, é previsível que a oposição reacionária bata na tecla do “rombo fiscal”
Com o governo sem muitos flancos vulneráveis na economia, é previsível que a oposição reacionária bata na tecla do “rombo fiscal”.
Trata-se de um tema em que ela encontra convergência com a grande mídia, o que para ela é politicamente muito oportuno. A mesma direita que hoje se encontra sob controle de suas franjas extremistas — para as quais a mídia é “inimiga” sempre que não se curva a delírios conspiratórios — tem dificuldade de construir pautas comuns com a imprensa liberal.
A macroeconomia surge como terreno fértil para essa reaproximação. É o espaço em que extrema direita e grande mídia conseguem fazer as pazes e dar-se as mãos para atacar o governo popular.
Nos Estados Unidos, algo semelhante ocorre sempre que o tema é guerra contra o Sul Global. A agressividade da mídia liberal contra Donald Trump tende a desaparecer quando ele decide atacar o Irã, apadrinhar o genocídio em Gaza, alongar a guerra na Ucrânia, hostilizar a China ou sequestrar o presidente da Venezuela.
A política externa imperialista funciona como eixo de consenso entre elites políticas e midiáticas. No Brasil, papel equivalente é desempenhado pelo alarmismo fiscal.
Dessa vez, porém, a estratégia corre o risco de cair no ridículo. O déficit primário do setor público em 2025 foi de R$ 55 bilhões, segundo o Banco Central — equivalente a 0,4% do PIB. É difícil enxergar nisso qualquer ameaça real à sustentabilidade fiscal do país.

O PIB brasileiro fechou 2025 em R$ 12,7 trilhões. A receita total do governo federal chegou a R$ 2,94 trilhões no ano passado. Diante de números com essa magnitude, um déficit de R$ 55 bilhões não chega nem perto de configurar um “rombo”.
Há ainda um detalhe que tem sido convenientemente omitido. Consideradas as exceções autorizadas judicialmente, o déficit efetivo cai para algo próximo de R$ 13 bilhões, cerca de 0,10% do PIB.
Com esse resultado, a propósito, o governo cumpre rigorosamente a meta do chamado “arcabouço fiscal”, um objetivo que muita gente tratou como inalcançável (e ele talvez tenha sido, de fato, uma aposta arriscada do ministro Haddad, mas que ele ganhou ao final).
A comparação internacional também nos ajuda a mensurar a magnitude real do déficit fiscal do país.
Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, calculados para o governo geral com metodologia padronizada própria, praticamente todas as grandes economias operam com déficits primários significativamente maiores que o brasileiro.
Em 2025, os Estados Unidos registraram déficit de 3,80% do PIB. A França, 3,39%. O Reino Unido, 1,82%. A Alemanha, 1,61%. O Japão, 0,86%. O Brasil, pelo mesmo critério, aparece com 0,61% do PIB.
Mesmo sob uma metodologia mais rigorosa do que a usada nas regras fiscais domésticas, o país figura entre aqueles com menor desequilíbrio primário. Mais importante: o próprio FMI projeta melhora gradual e constante dos números fiscais brasileiros, com superávits a partir de 2027 — na contramão da maioria das grandes economias, que devem continuar registrando déficits por muito mais tempo.

Há outra pegadinha no debate fiscal, envolvendo os precatórios. Durante os anos do governo Bolsonaro, os pagamentos foram artificialmente represados por meio da Emenda Constitucional nº 114, conhecida como emenda do calote. Entre 2019 e 2022, a média anual paga em precatórios foi de aproximadamente R$ 66,7 bilhões.
A partir de 2023, o governo Lula passou a enfrentar o passivo acumulado. A média anual de pagamentos subiu para cerca de R$ 114,7 bilhões.
É sempre mais fácil fechar as contas do mês através do milenar artifício de simplesmente não pagá-las.
Caso o governo Bolsonaro tivesse quitado os precatórios nos valores devidos em 2022, o resultado primário daquele ano teria sido substancialmente pior. O mesmo vale para os cortes realizados em saúde e educação, que comprimiram despesas essenciais e melhoraram artificialmente o resultado fiscal do período.
Durante o governo Bolsonaro, os gastos federais com saúde ficaram praticamente estagnados em valores reais, oscilando entre R$ 154 bilhões e R$ 163 bilhões por ano. A partir de 2023, já no governo Lula, houve recomposição expressiva: R$ 186 bilhões em 2023, R$ 216 bilhões em 2024 e R$ 231 bilhões em 2025, todos ajustados pela inflação de hoje. Entre o último ano de Bolsonaro e 2025, o aumento real acumulado foi de aproximadamente 45%.
Na educação, a trajetória é semelhante. Entre 2019 e 2022, o gasto federal direto caiu 21% em termos reais, passando de R$ 39 bilhões para R$ 30,7 bilhões. Em 2025, esse valor subiu para R$ 41,7 bilhões — um aumento de 36% em relação a 2022.
O Fundeb, fundo federal que financia parte dos gastos estaduais e municipais com educação básica, teve expansão ainda mais expressiva. Saltou de R$ 38,3 bilhões em 2022 para R$ 60,7 bilhões em 2025, em valores reais de dezembro de 2025 — um aumento de quase 60% no período.
Também se mostraram infundados os rumores, inclusive em setores à esquerda, de que o governo Lula “acabaria” com o Benefício de Prestação Continuada. O que ocorreu foi o oposto. Em valores reais de dezembro de 2025, as despesas com o BPC cresceram de R$ 102,9 bilhões em 2023 para R$ 118,3 bilhões em 2024 e R$ 129 bilhões em 2025, com aumento também em percentual do PIB. O programa foi ampliado e consolidado como pilar da proteção social, sem provocar qualquer desequilíbrio fiscal relevante.

Esse conjunto de dados ajuda a entender por que a falácia do “rombo fiscal” precisa ignorar o contexto. O governo Lula pagou passivos represados, recompôs políticas sociais, ampliou gastos em saúde, educação e assistência, preservou reservas internacionais…
Sim, ainda teve isso.
Ao contrário do governo Bolsonaro, que queimou cerca de US$ 50 bilhões de nossas reservas ao longo de seu mandato, Lula elevou o estoque delas de US$ 324 bilhões ao final de 2022 para US$ 358,23 em dezembro do ano passado, um aumento de US$ 33 bilhões.
Os desafios fiscais existem e são conhecidos, sobretudo na dinâmica previdenciária e no custo dos juros da dívida pública. Nada disso, porém, autoriza chamar de “rombo” um déficit primário inferior a meio ponto percentual do PIB, com expectativas sólidas de melhora nos próximos anos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



