Alex Solnik avatar

Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

2881 artigos

HOME > blog

“Fidel ficou com inveja de Collor”

Alexandre Machado, o primeiro Xandão, lança “Cenas da redemocratização”

Fernando Collor e Fidel Castro (Foto: Divulgação I Reuters)

EU: Sejam bem-vindos ao programa Cessar Fogo. Como vocês sabem, eu só entrevisto amigos aqui nesse programa. Pessoas com quem me relacionei no passado, de alguma forma, profissionalmente, etc. E, claro, pessoas que têm o que dizer, pessoas inteligentes, bem-humoradas. Felizmente, não tenho amigos burros. E o meu convidado de hoje… ele disse que tem 80 anos, eu duvido, só mostrando a certidão de nascimento. Mas ele é o verdadeiro Xandão, viu? É o verdadeiro Xandão. Ele se chama Alexandre Machado, um jornalista brilhante. e jovem, eu duvido, eu não dou 80 anos para ele nunca, mas ele garante que tem 80 anos, e que se chama Xandão, ele é o verdadeiro Xandão. Alexandre, então, para começar, como é que você virou o Xandão? Você é o primeiro Xandão, não tem nada que ver com o outro lá.

ALEXANDRE: Olha, é o seguinte, eu fui o redator-chefe da Playboy. Tivemos uma jovem que era uma modelo, que trabalhava para a gente, que posava para a gente, em matérias, hotéis de charme, e que era uma moça chamada Xuxa. E um dia ela veio me procurar na redação, eu não estava lá, eu estava fazendo outra coisa, e ela me deixou um bilhete me chamando de Xandão. Ela nunca tinha me chamado de Xandão. E a Xuxa, naquela época, já era um monumento, já era uma coisa... Ela passava e ficava todo mundo meio sem ar. E aí, quando eu cheguei na redação, eu tinha virado Xandão, porque viram o bilhete. Na minha mesa estava lá o bilhete dela. E aí, quando eu cheguei, estava lá, Xandão, Xandão, Xandão. Eu falei, Xandão, o quê? E aí ficou uma parte dos meus companheiros de profissão que me chamam de Xandão. Mas é muito antes dessa história agora que não tenho nada a ver com...

Esses nomes Xandão, Alexandre, são perigosos, porque... Ah, Alexandre, aí já resolveu, já bloqueou. Mas não é você que bloqueou nada do Daniel Vorcaro. Sabe que estou lendo a história do Daniel Vorcaro? É interessante, porque a família dele toda está envolvida em golpes, viu? A mãe, a irmã, o pai. E aí tem um primo dele, que é um pai de santo.

EU: É impressionante como o país não tem anticorpos para se livrar dessas pessoas, porque ele estava na cara, a vocação prioritária dele estava na cara dele. numa situação delicadíssima, né? É impressionante, Alexandre, porque em dois mil e quatorze, ele e o pai iam construir o maior hotel de Belo Horizonte, tipo Trump, sabe? Eles têm esse lance do Trump. Trinta e sete andares, não sei quantas suítes, era a Copa do Mundo, entendeu? Duzentos milhões de investimento, parou tudo. em dois mil e quatorze o cara já dava um golpe, em dois mil e dezesseis ele comprou um banco, esse banco Máxima, que já estava quebrado e também acusado de fraudes, mas o Banco Central autorizou o Daniel Horcário, que já não tinha reputação ilibada, a comprar esse banco também sem nenhuma reputação ilibada. Aí, porra, passou três anos, ele virou um bilionário. Como é que um cara desse... Porque banqueiro é tão duro, né? Você já viu banqueiro gastar milhões numa festa? Você imagina o Olavo Setúbal? Vou gastar 1 milhão na festa do meu filho? Porra, jamais. Banqueiro é pão duro, né?

ALEXANDRE: A gente sabe algumas pessoas que foram agraciadas por parte desse dinheiro desviado. Mas é isso. Quer dizer, aquela festa dele de noivado lá na Itália, aquela coisa cafona. Que coisa horrorosa. Artistas ao vivo. Era uma coisa inacreditável.

EU: Bom... Eu fiquei pasmo, porque um cara desse, marinheiro de primeira viagem, ele ganha confiança da elite política e jurídica do país. E é saudado, é festejado. Como é que esses caras não sabiam que o cara era um golpista? Falava na cara que era um golpista.

ALEXANDRE: Mas esses caras estavam ganhando uma parte desses 60 bilhões. Eles estavam no rachuncho, né? Quer dizer, estavam... Se ele roubou os 60 bilhões, deve ter colocado não sei quanto, não conheço esse tipo de mecanismo aí, mas um tanto deve estar escondido, deve estar no seguro em algum lugar.

EU: Sabe como é que era dobradinha? Era com o pai dele. Ele pegava grana e o pai comprava mansão em Orlando por... Duzentos milhões.

ALEXANDRE: Não, mas deve ter também em paraíso fiscal, deve ter um monte de dinheiro. Se tiramos que ele se satisfaça, que seja uma pessoa modesta, se satisfaça, por exemplo, com uns dez bilhões de reais. Está certo? Ele tem cinquenta para gastar. E é isso que ele fez. É impressionante como... no Brasil, consegue acontecer essas coisas. O cara virou...

EU: Você viu as mensagens dele? Ele se gabando de ser o número um do país, “só se fala em mim”. Ele para a namorada, trouxe todos os ministros para Londres, e euzinho falando para eles. Um falastrão, porra! Euzinho, olha, eu estou aqui, meu bem, falando, trouxe todos os ministros para cá. que o pariu, que coisa maluca. Mas, Alexandre, você me contratou, não sei porquê, nos anos oitenta e seis, sei lá, porque você era o diretor de jornalismo da TV Gazeta, aí você inventou um programa chamado TV Mix, e nesse programa simplesmente trabalhava o Fernando Meirelles, esse cara hoje que só anda em Hollywood, o Serginho Groisman, que anda na Globo. O Marcelo Machado, que é um puta de um cineasta. O Serginho Groisman, que está também nos altos... Altas Horas, o cacete. Como é que foi? Astrid Fontenelle, que apresentava comigo o programa. A gente tinha uma câmera só. Tinha dia que a câmera quebrava. Era uma loucura aquilo. Fora os... Como é que chamavam os repórteres? Formigas? As abelhas? Como é que foi isso? Conta um pouco dessa aventura do TV Mix.

ALEXANDRE: Vou te contar uma correção histórica. Eu não era o diretor do TV Mix, eu era diretor de jornalismo. Eu fui chamado por lá porque a TV Gazeta não tinha um departamento de jornalismo funcionando. E o presidente da Fundação na época era o Jorge Cunha Lima. E ele me chamou para tentar organizar o... esse departamento de jornalismo. E aí eu comecei a fazer um programete, porque aí eu comecei a arranjar os repórteres, a fazer alguma coisa, e cada repórter tinha que perguntar para os seus entrevistados três coisas. Como sair da crise política, como sair da crise econômica, como sair da crise social. E ao final do dia, eu juntava aquele material e fazia um programete de meia hora. Era uma coisa no começo da programação noturna. O TV Mix funcionava à parte. Eu não era do TV Mix. Eu trabalhava com essa turma toda. Trabalhava junto. Mas eu não era o diretor do TV Mix. Eu fazia o meu... Bom, aí eu fazia esse programete. Estava lá organizando. Quando chegou numa sexta-feira, o Jorge Cunha Lima me chamou na diretoria. Estava um ambiente tenso, porque o horário da noite de política da Gazeta era do Ferreira Neto. E aí eles ficaram sabendo, isso era uma sexta-feira, que na segunda-feira o Ferreira Neto não ia aparecer, ele não avisou ninguém. Então ia ficar um horário em branco, ia ficar sem ninguém, ia ficar todo mundo esperando, ele não ia chegar. E aí me perguntaram se eu queria fazer, se eu queria ocupar aquele espaço. E como eu fazia essas perguntas, vamos sair da crise, virou o programa “Vamos sair da crise”. E aí, tudo bem, então vamos fazer. E aí o meu primeiro programa, eu trouxe o Almino Afonso, que era o governador em exercício. O Quércia estava viajando e veio o Almino. Então eu iniciei com o governador de São Paulo, né? E daí foi, foram sete anos de programa, né? E eu fiz, sei lá, não sei, mil e trezentos, mil e quatrocentos programas lá, porque era diário, né? Segunda, sexta. E foi isso. Agora, esse pessoal a gente trabalhava junto, era um clima, né? Era um clima...

EU: Você que me contratou, não foi?

ALEXANDRE: Foi, foi, mas você foi contratado para trabalhar... nas coisas do jornalismo, mas que eram ligadas com... Eu só não era diretor do TV Mix, mas eu trabalhava tudo em conjunto.

EU: Você contratou o Fernando Meirelles?

ALEXANDRE: Não, não, não. Não, nós éramos...

EU: Ele tinha uma turminha do Olhar Eletrônico, não é? Era o Olhar Eletrônico. E eu apresentava o programa de manhã, com as Astrid Fontenelle. Houve dias em que tinha uma câmera só…

ALEXANDRE: Depois veio o Alê Primo também. Era uma turma fantástica. Era uma turma fantástica. E tinha o pessoal todo. A TV Gazeta... foi um acontecimento. Foi um acontecimento daquela época. Porque era uma TV que estava perdida, não tinha dinheiro, não tinha nada. Você falou de uma câmara. Quando comecei a fazer entrevista lá, não tinha estúdio. Então, eu fazia o programa na redação. Como a redação era toda envidraçada, nós estávamos na Paulista, eu juntava ali umas mesas, umas cadeiras, botava as pessoas ali, e pau na máquina. Para mim foi uma sorte, porque as emissoras grandes não faziam política. Então, não tinha político na Globo. Na Globo não se entrevistava ninguém de política. Ela entrevistava de autoridade só o pessoal da área econômica, mas de política, zero, zero, zero, zero, zero. Então, o programa que eu fazia lá, apesar de... precário e tudo isso, ele era um dos programas políticos existentes do país. Quer dizer, tinha o meu, o Ferreira Neto foi para um outro canal, e eram os dois únicos diários. Tinha o Canal Livre na televisão, na TV Bandeirantes, e mais adiante veio o Roda Viva. Mas é só, não tinha nem... Então, eu fiz uma associação com a TV Capital, numa época. E eu fazia, então, era em cadeia, São Paulo e Brasília. Em Brasília, eu chegava lá em Brasília, parecia que eu trabalhava na televisão, sabe? Quando eu chegava lá, todo mundo pedia autógrafo, porque era a capital política, e todo mundo assistia. Então, o programa em Brasília era um sucesso.

EU: Era o melhor programa de política. Porque você só entrevistou gente desse nível aí. Quem mais você entrevistou, além do Almino Afonso? Quem mais?

ALEXANDRE: Deixa eu te contar. Você sabe que eu fiz agora um projeto com a Fundação Fernando Henrique Cardoso? Não sei se você sabe.

EU: Claro, claro que eu sei.

ALEXANDRE: Eu fiz esse projeto. Então, vai servir para eu te contar quem que eu entrevistei. Porque... O que aconteceu? Naquela época, eu não tinha... era caro gravar. E a Gazeta não tinha um departamento, um arquivo de fitas. Eles só guardavam as fitas do futebol. Eles faziam aquelas quadruplex, aquelas grandonas azuis, lembra? Então aquilo lá era... Eles tinham um lugar para guardar as fitas do futebol, mas também não era arquivo, porque eles reutilizavam, porque também não tinha dinheiro para comprar fitas novas. Então não guardavam as imagens. Então, não tinha como gravar, eu não tinha dinheiro também, ganhava pouco, eles gostavam porque eu trabalhava muito e ganhava pouco, fazer programa ao vivo barato, né? Programa político não tem cachê, né? E aí, depois de um certo tempo, depois de alguns anos, a minha equipe conseguiu uma permuta daqueles VHS, né? E eu comecei a gravar com equipamentos amadores. E eu consegui gravar cerca de trezentos programas que eu tenho gravados, né? E guardei esses programas, ficaram morando comigo. Às tantas eu digitalizei, já uma parte já tinha perdido, porque já não estava mantido adequadamente, e consegui salvar trezentas fitas, mais ou menos. E essas cenas ficaram. Fui morar no Rio, levei para morar comigo. Até que recentemente, falando com o Sérgio Fausto, que é o diretor-geral da Fundação Fernando Henrique, ele conhecia a história e falou assim, você não fazia, não tinha umas fitas e tal? Eu falei, tem. Você não quer fazer um projeto com a gente? Ele falou, quero. Aí fizemos um projeto, que é um projeto chamado Cenas da Redemocratização. que agora nós colocamos no site da Fundação, há questão de uma semana que terminamos, que é um projeto que eu selecionei dessas trezentas, cento e vinte e seis fitas, e nessas eu tenho, por exemplo, a eleição de 89, a primeira eleição direta depois da ditadura, aquela que o Collor ganhou. Eu selecionei, por exemplo, os dez principais candidatos que eu entrevistei. Então, tem Collor, Lula, Brizola, Ulisses, Covas, Aureliano, Afif, Caiado, Roberto Freire, todos. Eu tenho, por exemplo, o Plano Collor. Eu tenho uma entrevista... primeiro uma entrevista com o Maílson da Nóbrega, no último mês do governo Sarney, que a inflação estava explorando, estava na beira da hiperinflação, então eu tenho uma entrevista com ele. Depois eu tenho um debate, dois dias antes do segundo turno, entre a Zélia Cardoso de Mello e o Aloysio Mercadante, que eram os representantes dos dois, do Lula e do Collor.

EU: Você fez o debate lá, com os dois?

ALEXANDRE: É, lá na Gazeta. Aí, depois, eu tenho entrevista com a Zélia, uma semana depois do Plano Collor. Inclusive, ela ficou conhecida nesse programa porque ela sugeriu que eu mudasse o nome do programa. Ela falou assim, “nós acabamos com a crise”. E daí, eu tenho um programa com a Zélia, um ano depois... que eu falo para ela, “ministra, a senhora disse que ia acabar a crise, que eu tinha que mudar o nome do programa, a crise não acabou”.

EU: O Maílson da Nóbrega é aquele ministro que foi nomeado pelo Roberto Marinho, né? Ele foi conversar com o Sarney, né? O Sarney falou assim, vai conversar com o Roberto Marinho, que ele vai fazer uma sabatina com você. Aí o Roberto Marinho anunciou lá na Globo, “ele é o novo ministro”. Só depois ele contou pro Sarney. Não sei se ele contou isso.

ALEXANDRE: Não, ele estava no último ano do governo Sarney e o assunto era a perspectiva de uma hiperinflação no país. Porque também esse material, esse acervo, ele tem importância pelos programas em si que foram feitos, mas muito como o retrato da época, porque nós perdemos... nós perdemos ao longo do tempo totalmente a percepção do que era a vida naquele período. Então, eu estou agora... Eu já passei o primeiro ano, agora eu selecionei mais de 120 fitas. Eu estou trabalhando nessas... Eu estou separando uma coisa que eu estou chamando de “Retrato de época”. São coisas que aconteciam naquela época. Por exemplo, tem uma discussão entre líderes sindicais. Então, o Vicentinho, o Magri, o Medeiros, sei lá, esses caras. Aí, estão discutindo a lei salarial. Puta, para fazer uma lei salarial com inflação a 30% ao mês era uma ginástica maluca. Ninguém mais tem ideia do que era viver dentro desse desse ambiente inflacionário, então eu quero fazer uma série de retratos de época…Então, eu selecionei 126 fitas que eu peguei pelos títulos. Mas eu não sabia direito, porque eu não tinha revisto nesse período nada. E aí, lá na Fundação tem um robô que tira o texto, já faz a transcrição de tudo que foi dito. Então, mandamos fazer. Isso daí chegou a duas mil páginas. Duas mil páginas. E eu comecei a ler essas páginas porque eu não sabia como ia ser o projeto, propriamente. Então, eu fui anotando e fiz um resumo. Se você quiser, eu até te mostro aqui. Isso aqui é o resumo. É o resumo dessa coisa inicial. Eu fui, aos poucos, percebendo as coisas que eram comuns. E fui criando capítulos. Então, tem títulos. Então, por exemplo, eu tenho um capítulo que se chama “Frases”. Tem um capítulo que se chama “Documentos de Época”, “Eleição de 89”, “Corrupção”, “Parlamentarismo”, “Plano Collor”, “Meio Ambiente”. Então, tem todos esses títulos aqui.

EU: Você vai publicar isso também, então? Hã?

ALEXANDRE: Não, isso é um material de trabalho. Isso aí é a base. É isso para a gente ter, para a gente ler também. Mas é interessante porque dá para... Então, por exemplo, frases…

EU: Conta umas frases. Conta umas frases.

ALEXANDRE: Deixa eu ver. Duzentos e trinta e nove.

EU: Outro dia eu peguei umas anotações minhas... de 2009… frases de 2009, né? Daí tinha uma frase do Sarney assim, “os jornais vão acabar em 2018”. Peguei um caderninho meu de 2009, sabe? Aquelas anotações que você faz, manchete. Aí tinha uma do Sarney assim. Conta umas frases aí.

ALEXANDRE: Olha aqui, programa 22 de abril de 1991, Espiridião Amin e Pedro Simon, os dois senadores. E aí... o Pedro Simon está falando do Plano Collor, falando um monte de coisa, e aí ele fala assim, “olha, na posse do presidente Collor, estava ali o Fidel Castro, e quando disseram para ele, um dia depois da posse que o Collor tinha congelado as contas, ele não aguentou, ele disse, “mas eu não fiz isso em Cuba, eu não tive condição de fazer isso”. Tem uma frase que eu gosto muito, mas essa eu sei de cabeça, que é do Roberto Campos, o velho Roberto, avô desse. Aliás, o Roberto Campos tem uma frase, tem lá uma entrevista em que ele fala que só dá para começar a organizar a economia quando tiver um Banco Central independente. Ele que é o avô do primeiro presidente do Banco Central independente. Mas ele falou sobre a lei da informática, e que foi um sufoco aquele negócio. E aí o Roberto Campos disse que a lei de informática é uma coisa de idiota, imbecil, etc. Ele termina falando assim, e o que nos salvou foram os nossos heróis, os nossos contrabandistas.

EU: Eu lembro que nós jornalistas, cada um tinha o seu contrabandista, né?

ALEXANDRE: A empresa não tinha nada a ver com isso, mas na Abril havia um fornecedor oficial, que transitava por todos os andares. Ele era convidado das festas, ficou amigo das pessoas.

EU: Era o principal convidado, né? Sem ele não tinha festa…

ALEXANDRE: Mas tem coisa que não acaba mais, porque, sabe, eu até nesse... Quem quiser pode até entrar no site da Fundação Fernando Henrique Cardoso. Então, é só procurar lá na aba “Cenas da Redemocratização”. E aí vai ter uma introdução, que tem uma fala minha e outra do Sérgio Fausto, que é o diretor-geral da Fundação. E depois nós fizemos, para as pessoas conhecerem um pouco do material... fizemos nove mini documentários. Não são documentários elaborados, são trechos de programas, mas com temas. Como eu tive, por exemplo, esse dos candidatos à presidência, que tem tudo organizadinho nesses temas. E tem por assunto. Então tem... “A sociedade se organiza”, tem... Tem o “Plano Collor”, tem vários capítulos, né? E, por exemplo, eu tenho lá, quando eu falo da sociedade se reorganiza, é um capítulo que é muito em cima do surgimento do PT e do PSDB como protagonistas da política. E eu tenho uma entrevista com a Erundina, quando a Erundina foi eleita prefeita. E aí eu pergunto para ela, Erundina, como é que está a cabeça? E ela falou assim, ainda não consegui acordar desse sonho. Quer dizer, é uma coisa bonita de época, gostosa. Ela que já está com 90 anos, está aí, ainda firme. Eu mostrei para ela, ela achou graça nessa coisa. Mas tem coisa que não acaba mais, mas é um tesouro. É um tesouro.

EU: Como entra nesse site?

ALEXANDRE: Entra na Fundação Fernando Henrique Cardoso, Primeiro, Fundação Fernando Henrique Cardoso… www.fundação Henrique Cardoso. Aí entra em “cenas da redemocratização”. Só tem uma aba, “cenas da redemocratização”. Aí tem o portal do acervo, em que estão todos essas 126 fitas... que eu selecionei, que até estão já à disposição, só que ainda nós estamos refazendo uma parte para ter um índice, porque a gente não fez o índice que deveria ter feito para que ficasse mais fácil de você achar o que você quer. Mas estão todos os programas lá, você pode ir rolando para ver o que te interessa e clica e vê o programa. E tem muita coisa, tem muita coisa que é datada, como eu disse, mas tem muita coisa que remete à nossa política de hoje, a questões contemporâneas. Eu tenho, por exemplo, um programa que é um debate entre o Zé Dirceu e o Fernando Henrique, e que é uma história bonitinha também, porque o PT, na época… eu era o porta-voz da política… e o PT veio me pedir que eu cedesse três programas para eles, que eles poderiam pautar. Eu falei, “bom, se eu tiver de acordo com a pauta, vamos fazer”. E declarei publicamente que eu tinha feito isso para o PT e que os outros partidos, se quisessem, também poderiam fazer. Porque eles iam fazer o primeiro encontro nacional do PT. Era a primeira... E aí... Era uma entrevista com o Lula, que era o presidente do partido, uma outra entrevista com várias pessoas, e o Zé Dirceu pautou uma entrevista com o convidado, o Fernando Henrique, senador do PSDB. E aí discutiram política e tal, com uma visão política muito interessante dos dois. Mas às tantas, o Zé pergunta mais ou menos porque o Fernando Henrique não foi para o PT. E o Fernando Henrique também, mais ou menos, diz o seguinte, que nós estamos saindo de uma ditadura e sem tradição partidária, nós estamos todos partidos unidos. E para a gente conseguir avançar, vamos ter que fazer coalizões. E o PT tem um projeto hegemônico que não combina com essa visão. E você vê que, de uma certa forma, isso é um problema até hoje. A dificuldade do PT de fazer coalizões efetivas. Ele faz coalizões com partidos menores, com partidos menores, de aluguel, com coisas, e com um grupinho dos partidos mais à esquerda, o PSOL, o PCdoB e tal, que é por aí que ele faz. Mas ele não consegue, quer dizer, ele não consegue, ele não tem como prioridade fazer um caminho mais para a centro-esquerda, que hoje em dia, por exemplo, é fundamental para o partido conseguir enfrentar a direita nas eleições desse ano.

EU: É o contrário. Tem setores do PT que acham que tem que ir mais para a esquerda. Já que eles foram para a direita, para a extrema-direita, nós temos que ir para a extrema-esquerda. É um horror. Por que o PT e o PSDB não governaram juntos?

ALEXANDRE: O Fernando Henrique cansou de sugerir isso. E acontece que nem o Lula, mas o entorno do Lula aceitavam isso de forma alguma. E foi a maior burrada que aconteceu, porque se eles tivessem feito isso, eles teriam de alguma... Eles teriam uma força política em que iriam depender muito menos de algumas coisas que existem na nossa política e que são muito difíceis de serem mudadas. Porque tem umas coisas que são até chatas, eu até não vou ficar falando aqui sobre isso, porque é chato, mas quem conhece o que foi o Pacote de Abril do Geisel, pode saber que foi criada uma forma de falsificação da vontade popular que você não consegue mais mexer, né? Porque naquela época, não sei se você lembra, mas ele criou, ele transformou os territórios em estados, ele dividiu o Mato Grosso e Goiás, criou o senador biônico, né? Então, com essas coisas, quer dizer, nos estados que foram criados, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, eles não têm densidade populacional para eleger um deputado. Então, criaram um mínimo e um máximo. Aí, criaram um mínimo de sete deputados para cada um e um máximo de cem. Então aumentou em um terço o custo do Senado, e ainda enquanto durou o senador biônico, ele era indicado pelo governo. Então isso... não se consegue mudar depois. Como é que eu vou falar? Agora, para discutir isso, ninguém nem tem saco para discutir, mas isso falsifica as decisões que são tomadas na política brasileira.

EU: Vai de que ano a que ano, Alexandre?

ALEXANDRE: Vai de 89 a 91, mais ou menos. E é um período que pega o rabo da Constituinte, tinha acabado a Constituinte, ainda estava com os ecos da Constituinte. Depois tem outra coisa também, que até nesses mini-docs que a gente fez, que a gente percebeu que era importante, estava recomeçando os movimentos sociais, né? Eu tenho um programa, por exemplo, com a Benedita da Silva, deputada já, e com a Sueli Carneiro, que é uma grande filósofa, que ainda na época não era uma pessoa tão... Hoje é talvez o nome dos mais importantes do movimento negro. Outra coisa que eu chamo a atenção também é que estava começando também o movimento indígena. Eu tenho um programa que era o seguinte, a Cláudia Andujar lançou a ideia da criação do Parque Nacional dos Yanomamis. Eu tenho um programa que tem, no mesmo programa, tem a Cláudia, tem a Manuela Carneiro da Cunha, tem o jovem Ailton Krenak, que teve uma participação especial do Dom Luciano Mendes de Almeida, que gravou uma coisa que ele não pôde ir no programa ao vivo. Falando sobre os Yanomamis, que é um problema até hoje, mas que era uma coisa desconhecida na época no país. Depois tem coisas também de época muito importantes. Eu tenho um programa que eu fiz poucos dias depois do massacre do Carandiru. E tem um programa que é com o Hélio Bicudo, o Marcelo Lavernère, que era o presidente da OAB, e com o padre Chico, que era da pastoral carcerária. E o padre Chico entrou no Carandiru logo após o massacre. E ele faz um relato do que ele viu na época. É uma coisa tenebrosa. Então, quer dizer, é um montão de coisas que tem que ordenar para ver como é que você faz com que essas coisas sejam de interesse público. Porque eu acho que esse material ajuda a contar um pedaço da história do Brasil, da história política do Brasil, mas também como um marco de uma mudança na vida política do Brasil muito forte, muito importante.

EU: Então, não tem programas inteiros, você fez corte de programas, foi isso?

ALEXANDRE: Não, lá no site estão inteiros. Esses que eu fiz, esses mini-docs, são uma abertura para a pessoa ter alguma ideia do que tem lá dentro. Os programas não são todos inteiros, porque, como era gravado na técnica, eu tinha o meu gravador... que botava lá, e às vezes o cara da técnica não ligava... Ou depois tem programas que ficavam com defeito, porque deu alguma interferência, mas não era monitorado pelo pessoal da técnica. Então, eu tenho um programa que é uma parte do programa, eu tenho o que foi salvo. Nós temos trechos grandes. Claro, tem programas de uma hora e vinte, uma hora e trinta.

EU: Mas, Alexandre, você tinha um programa... na Rádio Cultura FM, que era o programa que eu ouvia todo dia. “De volta para casa”, porque eu estava voltando para casa com o carro e ficava ligado. E, de repente, esse programa acabou. Por que acabou esse programa?

ALEXANDRE: Não sei, ninguém sabe, quer dizer, alguém sabe, mas ninguém tem uma informação do que acabou, porque o programa tinha uma repercussão excelente, eu fiz esse programa durante dez anos, de segunda a sexta-feira, todos os dias, durante dez anos, e quando entrou o Tarcísio no governo, o programa acabou.

EU: Foi ordem dele? Ou do Bolsonaro?

ALEXANDRE: Não sei. A extrema-direita foi uma coisa nova que surgiu no Brasil. Você pega da direita à esquerda, você está dentro da democracia. A extrema-direita não está. E foi essa que entrou. De repente, foi uma coisa nova que surgiu, que é um bicho que estava aí cozinhando e que veio à tona, trazido pelo Bolsonaro. Você vê que hoje é uma coisa difícil, inclusive, para os caras que são de direita, mas que não são da extrema-direita, como é que eles se relacionam com a extrema-direita. Você pega o drama existencial do governador Tarcísio, que não é um homem de extrema-direita, é um homem conservador, é um opositor conservador. Mas ele precisa dos votos da extrema-direita porque o bolsonarismo existe. E a extrema-direita tem uma facilidade para congregar coisas ruins, mais do que a extrema-esquerda, porque você junta os “terraplanistas”, você junta um bando de coisas esquisitas no mesmo balaio, uma gente estranha que anda junto, mas que existe, são pessoas que existem aqui nos últimos tempos, a tecnologia de comunicação, as pessoas passaram a ter voz, que não tinham. Antigamente, um cara conservador, o máximo que fazia era votar no Maluf, que era uma coisa que estava dentro do espectro democrático. Os caras da direita tinham cultura, escreviam livros, debatiam. Os programas aqui que eu tenho, você tem o próprio Maluf, candidato, E ele se sentia obrigado a tratar de todos os temas da educação, da justiça social, tudo ele falava. Não é que se vai concordar com tudo que ele fala. E a outra coisa é uma facilidade de conversar fantástica que havia na época. Eu tenho um programa que eu gosto muito, que é uma conversa entre o Florestan Fernandes, velho Florestan, com a Sandra Cavalcanti, que era uma líder da UDN, ela era muito ligada ao Carlos Lacerda, e ele era comunista. Os dois passaram o programa debatendo as coisas, colocando as suas posições com bom humor. E falavam, “ah, eu sei que você vai falar que você não gosta disso, mas eu acho, não sei o que lá”. E rolava o papo. Aliás, eu tenho uma história boa para te contar. Você sabe que uma vez eu fiz um programa que era o Alberto Goldman, o José Genoíno e o Robertão, Roberto Cardoso Alves, os três. Três briguentos, os três briguentos. Um dia depois, dois dias, eu fui jantar numa pizzaria aqui, que era a Cantina do Elias, ali perto do Palmeiras, e que juntava o pessoal do Palmeiras. E aí eu fui procurado, então, pelo técnico do Palmeiras, que era o Wanderley Luxemburgo. E ele falou assim, “Alexandre, eu assisti esse teu programa, você conseguiu apaziguar aqueles três briguentos, então eu estava até pensando em te convidar para trabalhar comigo no Palmeiras, para ver se você consegue resolver o problema do Evair com o Edmundo…”

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados