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Liszt Vieira

Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92

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Fim da guerra no Irã?

A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho

Donald Trump (Foto: Daniel Torok/Casa Branca)

Do A Terra É Redonda

O que Donald Trump diz não se escreve. Ele diz uma coisa hoje e o contrário amanhã. Mas o anúncio do fim da guerra no Irã não foi surpresa. Foi pedra cantada por muitos cientistas políticos e analistas de relações internacionais.

Em seu artigo “Porque a escalada favorece o Irã”, publicado na revista Foreign Affairs em 9 de março de 2026, Robert Pape, professor de ciência política da Universidade de Chicago, demonstra que, enquanto Donald Trump, a pedido de Israel, atacou o Irã sem nenhuma estratégia e sem objetivos definidos, o Irã adotou a estratégia dos mais fracos: a escalada horizontal da guerra.

Essa estratégia deu certo no Vietnã, onde os EUA ganharam as batalhas e perderam a guerra. Começaram lançando toneladas de bombas no Vietnã do Norte, muitas vezes mais do que todas as bombas lançadas pelos EUA na Segunda Guerra Mundial, e acabaram perdendo a guerra depois da invasão de Saigon pelos vietcongues. Uma guerra não se vence apenas no plano militar; uma vitória política é fundamental.

O Irã abriu novas frentes atacando os países do Golfo Pérsico aliados dos EUA que têm bases militares no Qatar, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Omã. Esses países pediram a Donald Trump que não atacasse o Irã, mas Donald Trump ouviu apenas Benjamin Netanyahu, o que fortaleceu, dentro dos EUA, a tese de que essa guerra só interessa a Israel, não interessa aos EUA.

O fator doméstico também pesou. Donald Trump vem perdendo apoio entre seus eleitores, que votaram nele na esperança de ver reduzido o custo de vida, o que não ocorreu. Ao contrário, a inflação anualizada continua em torno de 3%, semelhante ao nível de quando Donald Trump assumiu. O tarifaço e o aumento no preço do petróleo agravaram a situação.

A cotação do barril de petróleo estava em US$ 63 em dezembro de 2025 e passou a US$ 120 em 9 de março último; só caiu quando Donald Trump anunciou o fim da guerra, embora de forma ambígua e contraditória. O fechamento do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, por onde passam 25% do petróleo mundial, teve peso relevante nessa decisão. As seguradoras proibiram seus navios de passar pelo estreito.

O fator externo tem um peso muito importante que não pode ser desconsiderado. Todos os países do Golfo aliados dos Estados Unidos foram prejudicados: bombas no aeroporto de Dubai, em prédios comerciais e em áreas civis produziram enorme impacto econômico. Esses países deixaram de ser refúgio tranquilo para investidores internacionais e para o turismo e passaram a ser zonas de perigo. Isso acarreta relevantes prejuízos econômicos. Daí a pressão desses países pelo fim da guerra.

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã contém um risco significativo de expansão para um conflito regional mais amplo, porque envolve múltiplos atores militares e pontos estratégicos vitais para a economia mundial. Mesmo que o confronto tenha começado com ataques diretos entre alguns países, a estrutura geopolítica do Oriente Médio tende a puxar outros Estados e grupos armados para dentro do conflito.

O Irã construiu ao longo de décadas uma rede de aliados e grupos armados no Oriente Médio, frequentemente chamada de “eixo da resistência”. Entre eles estão organizações como o Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque e grupos aliados na Síria e no Iêmen. Em caso de guerra aberta, esses atores poderiam atacar interesses israelenses ou americanos em diferentes frentes. Isso criaria um conflito multifrontal, envolvendo Israel no norte (Líbano e Síria), no sul (Gaza ou Iêmen) e também no Golfo Pérsico.

Os vários países árabes do Golfo que hospedam bases militares dos EUA, como Qatar, Kuwait, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, já começaram a ser atacados pelo Irã. Além disso, esses países dependem fortemente de estabilidade econômica para manter seus modelos de desenvolvimento baseados em comércio, turismo e finanças.

Ataques com mísseis ou drones contra cidades ou infraestrutura energética poderiam gerar pressão interna sobre seus governos para reduzir a cooperação com Washington ou Israel, alterando o equilíbrio político regional. Como curiosidade militar, os drones do Irã são de baixo custo e são destruídos por mísseis que custam milhões de dólares.

Um dos pontos mais sensíveis é o Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo comercializado no mundo. Como o Irã fechou o estreito, a consequência imediata foi o forte aumento do preço do petróleo, provocando uma crise energética internacional e pressão política sobre governos ocidentais e asiáticos. Em caso de guerra prolongada, a Rússia tem relações estratégicas com o Irã e poderia fornecer apoio político ou militar indireto. E a China depende muito do petróleo do Irã e teria interesse em evitar uma interrupção prolongada das exportações.

Um conflito prolongado também tende a intensificar sentimentos nacionalistas e religiosos na região. Populações árabes, muitas vezes críticas de Israel, seriam levadas a pressionar seus governos a adotar posições mais duras. Isso poderia gerar protestos, instabilidade política e maior espaço para grupos armados.

O principal risco de uma guerra regional não está apenas nas batalhas diretas entre Estados, mas na dinâmica de escalada, em que cada ataque gera novos atores, novos teatros de combate e novas pressões políticas.

A combinação de alianças militares, grupos armados não estatais e a importância estratégica do petróleo torna o Oriente Médio particularmente vulnerável a esse tipo de ampliação do conflito. Assim, mesmo um confronto inicialmente limitado pode evoluir rapidamente para uma crise regional com impactos globais.

Assim, a escalada horizontal da guerra, vitoriosa no Vietnã, mais uma vez funcionou, agora em favor do Irã. O grande impasse de Donald Trump é terminar agora a guerra, reduzindo o desgaste, ou então empreender uma guerra prolongada com derrota política certa no futuro.

Donald Trump está diante de um impasse: seu interesse político é terminar a guerra o quanto antes, principalmente pela explosão nos preços do petróleo, aumentando a inflação nos Estados Unidos e corroendo sua popularidade. Mas seu perfil agressivo o empurra para a guerra. Além disso, a pressão de Benjamin Netanyahu para Israel e EUA dominarem o Oriente Médio continua forte.

Com uma personalidade de traços psicopáticos, Donald Trump está dividido entre a razão — que recomenda acabar logo com a guerra para evitar ou reduzir o forte desgaste em sua popularidade, em ano eleitoral nos EUA — e a emoção, já que seu coração continua a bater os tambores de guerra que, em seu delírio, o elevariam à condição de dono do mundo.

Como se sabe, Donald Trump é imprevisível; a guerra pode continuar algum tempo, mas o mais provável é que Donald Trump cante sua vitória de Pirro e confirme, agora ou mais tarde, sua declaração do fim da guerra, o que não exclui eventuais escaramuças e mesmo operações militares de maior envergadura. Uma vez terminada a guerra no Irã, o próximo capítulo deve ser Cuba e depois, ninguém sabe quando, a Groenlândia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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