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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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Fim da jornada 6x1 não é luxo, é reparação

Reduzir a jornada máxima é atualizar um modelo que já não responde às necessidades sociais

Manifestação pelo fim da escala de trabalho 6x1 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O fato é que quem é contra o fim da jornada 6x1 ou nunca viveu essa rotina ou se aproveita dela. Não há muito espaço para romantização quando falamos da realidade de trabalhadores e trabalhadoras que passam seis dias por semana em funções exaustivas, lidando com metas, pressão constante e remunerações que muitas vezes não chegam a dois salários mínimos.

As jornadas mais extensas estão concentradas justamente nas ocupações de menor remuneração e maior rotatividade. Não é coincidência. É modelo. Estudos recentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) indicam que nessas faixas há menor formalização e maior vulnerabilidade. A presença feminina também revela desigualdades estruturais, já que muitas mulheres acabam em jornadas reduzidas ou fragmentadas para conseguir conciliar o trabalho remunerado com responsabilidades de cuidado que a sociedade insiste em empurrar quase exclusivamente para elas.

Quando especialistas defendem a redução da jornada máxima de trabalho, não estão propondo um "mimimi" ideológico. Estão apontando que a mudança pode reduzir desigualdades no mercado formal, uma vez que as jornadas mais longas se concentram justamente nos postos mais precarizados. Ignorar isso é fingir que o problema não existe.

O argumento do impacto no PIB aparece sempre que se fala em melhorar a vida de quem trabalha. Mas o debate precisa ser honesto. O possível efeito econômico deve ser comparado com o ganho de qualidade de vida, com o tempo disponível para cuidados familiares e com os impactos positivos na saúde física e mental da população. Trabalhadora ou trabalhador exausto adoece mais, falta mais e produz menos. Isso também tem custo.

No comércio e no setor de serviços, a jornada 6x1 não é teoria acadêmica. É rotina de sábado inteiro trabalhado, domingo parcial, feriado sem descanso e uma única folga para resolver tudo o que a vida exige. Quem defende a manutenção dessa escala, em geral, não está atrás de um balcão seis dias por semana. Ou nunca esteve. Ou depende dessa engrenagem para manter margens de lucro baseadas em desgaste humano.

Não se trata de preguiça ou falta de compromisso. Trata-se de reconhecer que o modelo atual aprofunda desigualdades e penaliza justamente quem ganha menos. A história mostra que toda conquista trabalhista foi recebida com previsões catastróficas para a economia. A jornada de oito horas foi tratada como ameaça. As férias também. O descanso semanal remunerado igualmente.

A economia não colapsou. O que colapsa é a saúde de quem vive em escala permanente de exaustão.

Reduzir a jornada máxima é atualizar um modelo que já não responde às necessidades sociais. É reconhecer que desenvolvimento não pode ser medido apenas por indicadores macroeconômicos, mas também pela dignidade de quem carrega o Brasil nas costas. A pergunta que precisa ser feita não é se o mercado aguenta. É se o trabalhador ou trabalhadora aguenta. 

É fácil defender a 6x1 quando não se vive a 6x1. Para ser sério, o debate precisa começar pela escuta de quem passa seis dias por semana trocando as horas de vida por salário. O resto é discurso barato travestido de preocupação econômica.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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