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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Flávio posa com Trump, mas continua abraçado a Vorcaro

"Flávio foi buscar Trump para escapar de Vorcaro. Conseguiu Trump. Mas Vorcaro continua na sala"

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro (Foto: Edilson Rodrigues/Agência SenadoBanco Master/Divulgação)
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A foto na Casa Branca dá combustível à propaganda bolsonarista, mas não apaga a crise do Banco Master, a ausência inicial de agenda oficial nem a tentativa de transformar Washington em tábua de salvação eleitoral

Depois de dias de expectativa, versões desencontradas e ausência de confirmação oficial da Casa Branca, o senador apareceu ao lado de Donald Trump nesta terça-feira, 26 de maio. A imagem será vendida pela máquina bolsonarista como demonstração de prestígio internacional.

Mas o roteiro completo conta outra história: Flávio viajou aos Estados Unidos no pior momento de sua pré-campanha, cercado pelo escândalo Daniel Vorcaro, pelo desgaste do Banco Master, pela queda nas pesquisas e pela necessidade urgente de trocar o noticiário negativo por uma cena de força.

A foto existe. O problema é o que ela não responde.

Ela não explica a relação de Flávio com Daniel Vorcaro. Não esclarece os recursos buscados para o filme Dark Horse. Não apaga a admissão de que o senador se encontrou com o banqueiro depois da prisão. Não desfaz o constrangimento de uma viagem que, até pouco antes do desfecho, não aparecia como agenda oficial confirmada pelo governo norte-americano.

As imagens foram divulgadas pela rede de aliados de Flávio sem mencionar que o governo dos Estados Unidos não havia confirmado oficialmente nenhuma reunião entre ele e Trump.

Flávio foi buscar Trump para escapar de Vorcaro. Conseguiu Trump. Mas Vorcaro continua na sala. E, no mesmo dia da foto, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro acordou com a Polícia Federal na porta de sua cobertura na Barra da Tijuca.

A foto apareceu. A agenda, não

A diferença entre uma reunião oficial anunciada pela Casa Branca e uma foto divulgada por aliados é politicamente relevante. O bolsonarismo tentará apagar essa diferença. Não deve conseguir.

Durante a terça-feira, antes da divulgação das imagens, o constrangimento já estava instalado. Reportagens apontavam que Flávio estava em Washington sem aparecer nas agendas oficiais da Casa Branca e do Departamento de Estado.

Jamil Chade, no ICL, informou que não havia registro do senador brasileiro nessas agendas e que Marco Rubio, secretário de Estado, sequer estava nos Estados Unidos. A reunião não estava descartada, mas também não havia anúncio oficial.

Essa sequência importa. Não foi uma visita de Estado. Não foi uma recepção transparente, construída publicamente como agenda institucional. Foi uma operação política cercada de silêncio, expectativa, improviso e comunicação de campanha.

A foto muda a forma. Não muda o fundo.

Flávio conseguiu produzir a imagem que buscava. Mas a imagem nasceu depois de uma espera constrangedora. Antes dela, a pergunta era se Trump receberia Flávio. Depois dela, a pergunta passou a ser outra: por que Flávio precisou correr a Washington justamente quando sua candidatura começava a sangrar no Brasil?

Washington como tábua de salvação

A viagem não aconteceu no vácuo. A Reuters já havia enquadrado o movimento com precisão: Flávio buscava uma reunião na Casa Branca em meio à crise de sua campanha, provocada por seus vínculos com Daniel Vorcaro, banqueiro investigado no escândalo do Banco Master. A agência também lembrou que o senador havia admitido ter obtido milhões de dólares de Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai.

Esse é o ponto que a foto tenta encobrir. Flávio não foi aos Estados Unidos no auge de uma candidatura ascendente. Foi depois de perder iniciativa, depois de virar manchete internacional por sua ligação com Vorcaro, depois de ver sua relação com o Banco Master contaminar o debate eleitoral.

A AP também tratou a viagem dentro desse quadro: Flávio tentou reforçar sua conexão com Trump enquanto sua candidatura enfrentava turbulência após as revelações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. A agência informou que o escândalo abalou a campanha, limitou apoios empresariais, dificultou alianças e reacendeu discussões internas sobre a viabilidade do próprio nome de Flávio.

Portanto, a foto não é prova de força. É sintoma de necessidade.

Quando um candidato precisa atravessar o continente para obter uma imagem com um líder estrangeiro no momento mais grave de sua crise doméstica, não está demonstrando prestígio. Está confessando dependência.

Trump como escudo contra o Banco Master

A operação política é transparente. O bolsonarismo precisava mudar o assunto.

O noticiário sobre Vorcaro era devastador. A cada nova revelação, a candidatura Flávio ficava mais parecida com um projeto aprisionado ao Banco Master. O senador primeiro negou ligações relevantes. Depois vieram áudios, explicações, contradições, encontros admitidos, valores milionários e a tentativa de reduzir tudo a uma negociação privada para financiar um filme político sobre Jair Bolsonaro.

A AP informou que Flávio pediu 61 milhões de reais, cerca de 12 milhões de dólares, a Daniel Vorcaro para financiar The Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e que mensagens de voz publicadas pelo Intercept mostravam o senador buscando novos recursos além do valor inicial. Também registrou que Vorcaro estava implicado em um grande escândalo de corrupção envolvendo o Banco Master.

Esse é o abraço que Flávio tentou trocar. Sai Vorcaro. Entra Trump. Sai Banco Master. Entra Salão Oval. Sai o áudio devastador. Entra a foto com o presidente dos Estados Unidos.

Mas política não é apenas imagem. É contexto. E o contexto é precisamente o que transforma a fotografia em problema.

A foto com Trump oferece munição para a militância bolsonarista. Mas também reforça a imagem de um candidato que, diante de uma crise brasileira, busca salvação fora do Brasil.

A aposta estrangeira pode virar contra Flávio

A estratégia não é nova. O bolsonarismo aprendeu a internacionalizar suas crises. Quando perde terreno no Brasil, tenta transformar Washington em tribunal, palanque e refúgio simbólico.

Eduardo Bolsonaro já havia feito esse caminho. Instalado nos Estados Unidos, continua atuando como operador externo da família, aproximou-se de setores trumpistas e ajudou a construir a narrativa de que as instituições brasileiras deveriam ser pressionadas de fora para dentro. Agora, Flávio acrescenta um novo capítulo a essa história: no auge da crise Vorcaro, busca Trump como selo de sobrevivência.

A aposta é de alto risco. Pode animar o núcleo radical. Pode render aplausos nas redes. Pode produzir manchetes em sites bolsonaristas. Mas também pode gerar reação nacionalista, afastar o eleitorado moderado, incomodar setores da direita tradicional e lembrar ao país que o bolsonarismo, quando perde força internamente, procura respaldo externo.

Esse é o paradoxo. Trump, que deveria funcionar como fiador, pode virar evidência de dependência. A foto que deveria projetar força pode expor submissão. O gesto que deveria afastar Vorcaro pode recolocar a pergunta central: por que Flávio precisava tanto dessa imagem? O que ele tem de muito precioso a esconder com esta imagem?

A direita tradicional observa

Há outro problema. A foto pode satisfazer a militância, mas não resolve o dilema da direita tradicional.

Setores do empresariado, da Faria Lima e dos partidos conservadores querem derrotar Lula. Mas não querem necessariamente carregar uma candidatura intoxicada pelo Banco Master, dependente do clã Bolsonaro, presa ao radicalismo trumpista e vulnerável a novas revelações.

A direita tradicional olha para Flávio e vê risco. Risco jurídico. Risco eleitoral. Risco diplomático. Risco de instabilidade.

A foto com Trump pode fortalecer Flávio dentro do bolsonarismo raiz. Mas pode fragilizá-lo justamente onde ele mais precisa crescer: no centro, no eleitorado moderado, no empresariado que prefere previsibilidade e nos partidos que temem ser arrastados por uma candidatura em combustão.

É por isso que a imagem na Casa Branca não encerra a crise. Pode até abrir outra.

Se Trump abraça Flávio, a pergunta passa a ser se os Estados Unidos estão entrando na eleição brasileira. Ou seja: até para a direita, a cena é delicada.

Lula ganha o terreno da soberania

A fotografia também oferece a Lula um campo político favorável: o da soberania nacional.

Enquanto Flávio tenta se proteger sob a sombra de Trump, Lula pode se apresentar como o presidente que fala de Estado para Estado, governo para governo, país para país. A diferença é decisiva. Lula esteve com Trump em agenda presidencial. Flávio aparece como candidato em crise, buscando validação externa para sobreviver à tempestade doméstica.

A comparação é inevitável.

De um lado, Lula como chefe de Estado eleito, tratando de comércio, segurança, relações bilaterais e interesses nacionais. De outro, Flávio como herdeiro político de Bolsonaro, atingido por escândalo financeiro, tentando transformar uma foto em escudo eleitoral.

Essa é a armadilha da aposta em Trump. Ela pode dar ao bolsonarismo a imagem que queria, mas também entrega a Lula a narrativa que precisava: a de que há, novamente, uma direita disposta a subordinar a política brasileira ao aval de Washington.

A foto não responde às perguntas

A pergunta central do artigo não é se Flávio encontrou Trump. Encontrou.

A pergunta é: e daí?

A foto não responde por que Flávio buscou dinheiro com Daniel Vorcaro. Não responde por que o banqueiro do Banco Master entrou no circuito de financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. Não responde por que houve versões contraditórias. Não responde por que Flávio precisou admitir encontro com Vorcaro depois da prisão. Não responde por que a candidatura começou a perder tração depois das revelações.

A Reuters informou que Flávio admitiu ter se encontrado com Vorcaro depois da prisão e que a revelação de seus vínculos com o banqueiro teve impacto nos mercados financeiros e na corrida presidencial, com Lula abrindo vantagem em pesquisa. Esse é o dado incômodo. Trump pode oferecer a foto. Não pode apagar a cronologia. E a cronologia é cruel com Flávio.

Primeiro vieram as revelações sobre Vorcaro. Depois a crise de imagem. Depois o desconforto empresarial. Depois a queda nas pesquisas. Depois a busca por Trump. Depois a ausência inicial de agenda oficial. Depois, finalmente, a foto.

A fotografia é o último capítulo de uma tentativa de contenção de danos, não o primeiro ato de uma candidatura em ascensão.

Flávio posa com Trump, mas carrega Vorcaro

O bolsonarismo tentará transformar a foto em vitória. Dirá que Flávio foi recebido por Trump. Dirá que há reconhecimento internacional. Dirá que o candidato do clã tem trânsito no centro do poder global da extrema direita.

Tudo isso pode funcionar por algumas horas, talvez alguns dias, nas redes bolsonaristas.

Mas o país real continuará olhando para o que a foto tenta esconder.

A candidatura Flávio está atravessada pelo Banco Master. Está marcada por Daniel Vorcaro. Está cercada por dúvidas sobre dinheiro, filme político, relações privadas, interesses públicos e promiscuidade entre poder financeiro e projeto eleitoral.

A foto com Trump é forte. Mas a sombra de Vorcaro é mais longa.

No fim, a viagem aos Estados Unidos talvez revele exatamente o contrário do que Flávio pretendia demonstrar. Ele queria provar força. Mostrou dependência. Queria mudar o assunto. Confirmou o motivo da mudança. Queria voltar ao Brasil com Trump no bolso. Voltará com Trump na foto e Vorcaro no pescoço.

A frase final é simples:

Flávio conseguiu posar com Trump. Mas continua abraçado a Vorcaro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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