Focus mostra piora das expectativas de inflação e reforça cautela do Banco Central
Por enquanto, o cenário continua sendo de agravamento das consequências inflacionárias provocadas pelo choque do petróleo
O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira trouxe uma nova deterioração das expectativas de inflação para o Brasil, em um ambiente ainda marcado pelo choque internacional do petróleo e pela elevada incerteza sobre os desdobramentos da crise no Oriente Médio. A expectativa para o IPCA de 2026 subiu para 4,91%, aproximando-se rapidamente da marca de 5%, depois de ter começado o ano perto de 3,7%. Para 2027, as projeções também avançaram e já alcançam 4%, movimento que indica uma contaminação mais persistente das expectativas inflacionárias de médio prazo. Economistas costumam dizer que a expectativa de inflação começa a ficar “desancorada”, isto é, elevada e resistente, espalhando-se de maneira estrutural pela economia.
O dado chama atenção porque a piora das expectativas ocorre mesmo em um contexto de melhora do câmbio. O mercado agora projeta o dólar em R$ 5,20 no final deste ano, abaixo das projeções anteriores de R$ 5,30, e com a moeda brasileira chegando inclusive a operar abaixo de R$ 4,90 recentemente. Em condições normais, um câmbio mais apreciado ajudaria no processo desinflacionário, reduzindo pressões sobre combustíveis, alimentos e bens importados. Mas, neste momento, o choque do petróleo parece estar dominando completamente o cenário.
O barril voltou a subir acima de US$ 100 após novas tensões envolvendo negociações no Oriente Médio e uma reação negativa do governo Trump a possíveis acordos diplomáticos na região. A volatilidade no petróleo continua extremamente elevada, dificultando qualquer leitura mais clara sobre os impactos futuros nos preços da gasolina, diesel e querosene de aviação. E é justamente essa incerteza que vem contaminando as expectativas de inflação para os próximos anos.
O Focus também mostra uma revisão gradual das expectativas para a taxa Selic. A projeção para os juros em 2027 já começa a subir e se aproxima de 11,25%, enquanto a taxa esperada para este ano permanece em 13%. O Banco Central enfrenta uma situação particularmente delicada: ao mesmo tempo em que o nível de juros já é extremamente elevado, os choques inflacionários externos dificultam qualquer sinalização mais clara de flexibilização monetária.
A dificuldade adicional está relacionada ao próprio regime de metas. Como o Banco Central trabalha olhando cerca de seis trimestres à frente, o horizonte relevante da política monetária já começa a entrar no quarto trimestre de 2027. E justamente nesse horizonte as expectativas de inflação já aparecem próximas de 4%, muito distantes da meta oficial de 3%.
Do lado da atividade econômica, as projeções permanecem relativamente estáveis. O mercado segue esperando crescimento de 1,85% para este ano e 1,70% para 2027. Ou seja, apesar do aperto monetário intenso, ainda não há uma revisão mais forte para baixo da atividade econômica.
A semana será particularmente importante para os mercados globais e brasileiros por conta da divulgação dos principais indicadores de inflação nos Estados Unidos e no Brasil. Além disso, haverá novos dados de atividade econômica, vendas no varejo e indicadores industriais, que ajudarão a calibrar as expectativas sobre os próximos passos dos bancos centrais.
Por enquanto, o cenário continua sendo de agravamento das consequências inflacionárias provocadas pelo choque do petróleo. Ainda não existe clareza sobre até onde irão os preços internacionais da energia nem sobre qual será o impacto efetivo sobre a inflação brasileira. Diante desse ambiente, o Banco Central brasileiro segue reagindo com cautela.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




