Ex-presidente do BRB vendeu 49% da BRB Financeira em negócio com aliado de Antonio Rueda
O negócio levantou suspeitas e acabou sendo suspenso após a prisão de Daniel Vorcaro
247 - A venda de 49% da BRB Financeira durante a gestão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, entrou na mira de investigações internas e passou a ser tratada por integrantes do Banco Central como um possível “esqueleto” deixado pelo ex-executivo. As informações foram reveladas pela colunista Malu Gaspar, de O Globo.
Segundo a reportagem, o negócio envolveu um grupo de investidores liderado pelo empresário José Ricardo Lemos Rezek, apontado como próximo de Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil. A transação acabou sendo desfeita após a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro e a liquidação do Banco Master.
O acordo previa a venda da participação na BRB Financeira por R$ 320 milhões, divididos em dez parcelas anuais. Fontes ligadas ao BRB afirmaram que os lucros anuais da financeira giravam em torno de R$ 90 milhões, o que levantou questionamentos internos sobre a vantagem econômica da operação para os compradores.
O negócio foi anunciado oficialmente em 31 de março de 2025, apenas três dias após o BRB divulgar a compra do Banco Master. No entanto, as negociações já vinham sendo conduzidas desde julho de 2024.
De acordo com a publicação, o Banco Central chegou a barrar a transferência de capital ao identificar problemas na comprovação da origem dos recursos utilizados pelos investidores. O grupo de Rezek recorreu da decisão, mas o BC não concluiu sua análise antes do agravamento da crise envolvendo o Banco Master.
A operação ganhou ainda mais repercussão porque José Ricardo Lemos Rezek mantém proximidade com Antonio Rueda. O empresário esteve entre os convidados da festa de 50 anos do dirigente do União Brasil, realizada em Mykonos, na Grécia. Além disso, o pai de Rezek, José Ricardo Rezek, fez uma doação de R$ 1,5 milhão ao diretório nacional do partido em 2023, conforme registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ainda segundo a reportagem, dirigentes do Banco Central alertaram repetidas vezes Paulo Henrique Costa sobre o que consideravam uma operação “de pai para filho” e sobre os riscos financeiros para o BRB. Apesar disso, o então presidente do banco teria mantido o avanço das negociações.
O desfecho da operação ocorreu após a prisão de Daniel Vorcaro e a liquidação do Banco Master. Em reunião realizada em 19 de novembro, dirigentes do Banco Central discutiram com representantes do BRB medidas emergenciais para o futuro da instituição. Segundo fontes ouvidas por O Globo, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, avisou que o regulador poderia cancelar diretamente o negócio caso o BRB não tomasse essa iniciativa.
Pouco mais de um mês depois, o banco estatal anunciou oficialmente o cancelamento da venda da BRB Financeira.
A reportagem também revelou que, em fevereiro de 2025, Paulo Henrique Costa enviou uma mensagem a Daniel Vorcaro relatando ter se reunido com Antonio Rueda. Segundo o texto publicado, Costa afirmou que havia tomado um café com o dirigente partidário e que precisava conversar com o banqueiro.
Antonio Rueda não respondeu aos contatos feitos pela equipe de O Globo. Já a defesa de Paulo Henrique Costa, preso em 16 de abril, também não se manifestou até a publicação da reportagem.
José Ricardo Lemos Rezek, por sua vez, enviou nota negando qualquer interferência política no negócio. “Desde o início, tratou-se de uma negociação de natureza exclusivamente comercial, que jamais sofreu qualquer tipo de interferência política”, afirmou.
O empresário declarou ainda que foi o próprio grupo de investidores quem decidiu desistir da operação. Segundo ele, “a desistência decorreu de uma avaliação estritamente mercadológica, técnica, e foi formalmente comunicada ao BRB”.
Os empresários Carla Pontes e André Azin, apontados como sócios de Rezek na operação, afirmaram que o empresário baiano seria responsável pela maior parte do aporte financeiro da compra. Eles disseram desconhecer estimativas de lucro anual de R$ 90 milhões da BRB Financeira e afirmaram que decidiram abandonar o negócio após o anúncio da compra do Banco Master pelo BRB.
Ambos também negaram qualquer relação com Antonio Rueda. “Nunca estivemos com Rueda e só o conhecemos de nome”, declararam.
Carla Pontes afirmou ainda que desconhece questionamentos do Banco Central sobre a origem dos recursos utilizados na operação. Segundo ela, toda a parte financeira era conduzida por Rezek. “É normal esse tipo de questionamento pelo Banco Central. Não estou dizendo nem que houve, nem que não houve. Se tiver acontecido, como os recursos estavam vindo do Rezek, a negociação se concentrou nele”, declarou.



