Focus se alinha ao Banco Central e reforça cenário de juros altos por mais tempo
A reunião de agosto segue em aberto — pode haver mais um corte pontual de 0,25 ponto —, mas a mensagem central é que a Selic deve permanecer elevada
O relatório Focus divulgado nesta manhã veio sem grandes novidades, mas com um recado claro: as expectativas de mercado estão convergindo para as projeções do próprio Banco Central. A mediana para o IPCA segue em 5,33% para este ano e subiu marginalmente para 2027, de 4,15% para 4,17%. Para a Selic, o mercado projeta 14% ao fim de 2026 e 12% no ano seguinte. A estimativa de crescimento do PIB, por sua vez, avançou para 1,99%.
Esse alinhamento ficou evidente após a divulgação, na semana passada, do Relatório de Política Monetária (RPM), no qual a autoridade monetária projetou inflação de 5,3% para este ano e crescimento de 2%. A entrevista coletiva, com a participação do presidente Gabriel Galípolo e do diretor de pesquisa Paulo Picchetti, parece ter convencido o mercado. Somam-se a isso fatores de alívio recente: o petróleo em queda rumo aos US$ 70, a descompressão da curva de juros e uma ligeira valorização do real — combinação que pode interromper a deterioração das expectativas.
Os dados de atividade, no entanto, complicam o trabalho do BC. Os indicadores apresentados na semana passada mostram uma economia acelerando no primeiro trimestre de 2026, com destaque para o consumo das famílias: a PIM de bens de consumo, a PMS de serviços e a PMC do comércio (excluindo alimentos) avançaram, assim como o IBC-Br. Uma economia mais aquecida significa um desafio maior para fazer a inflação ceder.
O ponto fraco continua sendo o investimento, estacionado em torno de 16% do PIB. Apesar de leve melhora, o patamar é claramente insuficiente para sustentar crescimento. Sem um avanço real da formação de capital, fica difícil crescer sem gerar inflação ou déficit externo.
A reunião de agosto segue em aberto — pode haver mais um corte pontual de 0,25 ponto —, mas a mensagem central é que a Selic deve permanecer elevada por bastante tempo, ao redor dos 14%. O horizonte relevante do regime de metas passou a ser 2028, seis trimestres à frente, e é para lá que o BC mira a convergência. Na prática, a autoridade monetária abriu mão de perseguir a inflação de 2026 e 2027, concentrando esforços em colocar os índices na meta em 2028.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




